As Invasões Bárbaras

Antígona e o direito milenar de velar os seus mortos

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29 de janeiro de 2021

O direito de ter controle sobre nossas próprias vidas, inclusive do final dela. Até hoje o tema da eutanásia é um grande tabu. Não Samoa lidar socialmente com isso. E não confundir eutanásia com outras questões. Então, não se preocupem com esse tipo de gatilho aqui. O que estamos falando é sobre assistência clínica ou medicamentosa para casos extremos em relação ao direito de morrer e o direito de escolher como.  Falamos de hipóteses de pacientes terminais ou portadores de doenças que retirem as mínimas condições de vida para se fruir de todas as garantias universais…

Infelizmente, andamos enfrentando um processo em que nem mesmo este direito nas hipóteses legais pode ser dado mais às pessoas, pois a população não só brasileira, como mundial está morrendo de “morte matada” e não de “morte morrida” – como se diz nos jargões populares. Devido à pandemia mundial, à falta de infraestrutura e, principalmente, ao desgoverno atual como o que está administrando de forma péssima a crise no Brasil, pacientes e familiares deixaram de ter o direito sobre os seus vivos e sobre os seus mortos… Médicos andam precisando tomar decisões impossíveis sobre quem vive e quem morre, por fatores extremos ou até sutis, como idade, expectativa de vida, condições pré-existentes ou mesmo acaso… Até o acaso decide quem poderá ter um respirador ou quem não terá.

Pois o eterno dilema de Antígona em poder enterrar seus mortos também lhe foi tirado, esvaziado. Nem a possibilidade de velar aqueles que se foram nos pertence mais. Dilemas que já foram retratados pelo cinema exaustivamente… e que pasmariam narrativas clássicas diante dos problemas propostos pela contemporaneidade. Só isso já esvaziaria metade dashistórias sobre o assunto, pois a autonomia da vontade seria retirada da maioria das personagens. O que não quer dizer que todas as narrativas ficariam anacrônicas ou mesmo sem sentido perante o conflitante presente vivenciado hoje… E um bom exemplo é o franco-canadense “As Invasões Bárbaras” do diretor Denys Arcand (2003), ganhador do Oscar 2004 de filme estrangeiro, talvez um dos melhores exemplos de filmes sobre a eutanásia e a responsabilização do Estado e da cultura em questões como esta – dando continuidade ao filme anterior que contava com as mesmas personagens, “O Declínio do Império Americano” (1986).

Devido à negligência dos podres poderes que estão disputando burocracias em detrimento da vida humana, a questão é justamente entendermos que os acontecimentos recentes no Brasil possuem relação direta com o tema. E não apenas em termos clínicos, porém também de saúde pública em sentido amplo, como o negacionismo incentivado pelo governo federal, contrário à máscara, ao distanciamento social e até à vacina… Mas também em relação ao próprio espírito capitalista de se gerir um país que comprovou algo sabido por todos: as empresas e o lucro valem mais do que a vida humana, mesmo em circunstâncias adversas e derradeiras à própria vida humana… Salvar vidas se demonstra uma necessidade só até o limite de se manter um sistema já moribundo e vampirizador funcionando, que se alimenta de zumbis (ou da necropolítica, nas palavras de Mbembe).

A dupla de filmes do canadense Denys Arcand (ou trilogia, se acrescentarmos o desfecho espiritual com “A Queda do Império Americano” de 2018, leia mais aqui) fala exatamente sobre isso. Desde o primeiro filme, de 1986, o cineasta projetava no Canadá o que acontecia mais ao sul do continente americano, criticando fervorosamente o sistema de pilhagem e colonização mundial exercido pelos Estados Unidos de uma América só deles, mas que pensam compreender todo o continente, do Alasca à Patagônia. Porém, foi só com o exemplar do meio deste empreendimento dramatúrgico anti-capitalista, ganhando forma e plasticidade no cinema em 2003, que uma identificação mágica e incomparável começou a tomar forma. Um dos protagonistas que havíamos acompanhado até então na narrativa anterior, agora 17 anos depois, estaria com câncer terminal. Nada o salvaria. O tratamento em si estaria sugando todas as suas forças e eliminando todas as partes que ainda reconhecia no espelho… e as que deixou de reconhecer também.

A proximidade de um fim carnal nos traz alguns dilemas da memória e de um revisionismo de vida, como se pudéssemos mudar o que fizemos ou ao menos compensar por aquilo que nos arrependemos.  Mas ele não estava sozinho nesta jornada. Todas as suas amizades intelectuais que tanto gostavam de destilar críticas ao governo, e ao domínio mundial norte-americano, bem como os familiares e até ex-esposa, todos se reuniriam para se despedir. Para lhe garantir o direito de exercer como, onde e quando gostaria de encerrar sua experiência nesse espaço terreno. Não é um tema muito fácil de digerir. Alguns não gostam nem de ler e pararam no primeiro parágrafo. Mas aos corajosos que chegaram até aqui e estão se perguntando ainda sobre a correlação com o que estamos vivendo, visto que nos foi aparentemente “retirada” o poder de escolha sobre nossas próprias mortes, devemos olhar com mais atenção aos detalhes.

Enquanto de fato a responsabilidade hospitalar pode ter sido retirada do poder das mãos dos próprios pacientes, e ter sido delegada putativa e involuntariamente aos profissionais da saúde que deveriam saber o que é melhor para a gente, ainda assim temos uma possibilidade de escolha que permanece conosco. Conosco, nossas amizades e nossos familiares, como a belíssima cena no desfecho de “As Invasões Bárbaras” que tanto faz a todos debulharem de lágrimas. A grande questão não é paliativa nem consecutiva, e sim preventiva. O que ainda temos controle é justamente o eu fazemos em nossas pulsões de vida e morte, e o quanto caminhamos em passos certeiros para quais destes dois destinos.

Talvez alguns conheçam o exemplo a ser dado neste ponto, que é o do atropelamento por embriaguez, que não configura crime culposo e sim por dolo eventual, pois quando a pessoa bebeu o primeiro copo sabendo que não teria controle pra tomar as doses seguintes, ela acaba assumindo o risco eventual das conseqüências derradeiras de seus atos… inclusive se atropelar alguém. Ela ainda tinha consciência quando tomou o primeiro copo. Mas o que isso tudo pode ter a ver com “As Invasões Bárbaras” ou mesmo com nossa situação na pandemia mundial? É a questão ética da escolha livre e consciente! O quanto pudermos evitar quebrar protocolos de segurança, como de distanciamento social e condições sanitárias de higiene, além da esterilização de contatos potencialmente contaminados, tenhamos ou não o privilégio do home Office, estaremos salvando vidas. Não só as nossas, mas a dos nossos próximos. Das nossas amizades e familiares. Cada pessoa que evita ser contaminada ou ser internada num hospital é menos risco de contaminar mais gente ou de congestionar o atendimento público na hora em que alguém realmente precisar!

Ou seja, pela ironia da história e até do próprio título, o que estamos vendo até pode ter começado com o declínio do Império Americano, adaptando a analogia para os tempos recentes de Trumps e QAnon, mas os efeitos duradouros das invasões bárbaras continuam ferrenhamente nos novos tempos, e estão fazendo muita gente que deveria ser mais consciente agir de forma irresponsável e tirando o direito de seu próximo aos cuidados médicos devidos e até mesmo ao próprio direito de morrer dignamente – pois no momento em que um jovem quebra todos os protocolos e se aglomera ou sai para a esbórnia e se contamina, indo acabar numa disputada maca de UTI, suas ações pregressas serão desconhecidas dos médicos… que, se tiverem de optar por dar o respiradouro para um idoso ou para esta pessoa que provavelmente deve ter contaminado inúmeras outras com sua inconseqüência criminosa, provavelmente o profissional deixará o idoso se ir… Isso se o idoso não for velado em valas coletivas e sem a presença de seus familiares, como está acontecendo por contingências maiores de saúde pública do que as que podemos optar.

Portanto, se você já se emocionou com este filme antes, ou gostaria de se emocionar, caso ainda não tenha visto, saiba que a responsabilidade pelos atos espelhados do filme na vida real, no círculo de amigos que lhe dariam toda a proteção e afago do mundo na hora de se ir, só será possível na realidade se você tomar as suas próprias precauções de vida para si e para os próximos. Só assim poderá ter uma vida e uma partida dignas no seu próprio tempo, e não ceifados prematuramente pelos atos de terceiros que assinaram sua própria condenação e de outrem.