As Maravilhas

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15 de abril de 2015

A cineasta italiana Alice Rohrwacher tem certo fascínio pela fase de transição da infância para a adolescência. Tanto em “Corpo Celeste” (2011) quanto no atual “As Maravilhas”, são garotas que conduzem histórias de grande sensibilidade, nada que se relacione com a turbulência rebelde que se costuma associar a esse período da vida. É o olhar das duas protagonistas, cheio de ânsia e curiosidade, que pavimenta o caminho pelo qual o espectador deve seguir. Em ambos os longas, há evidente a sensação de deslocamento e a maturidade impõe-se por meio de diferentes vias. Em “Corpo Celeste”, a menina Marta (Yle Vianello), vinda da Suíça com a mãe e a irmã, é submetida, quer queira ou não, às doutrinas de uma igreja católica na Itália. Já em “As Maravilhas”, o desenvolvimento de um comportamento mais adulto não é exatamente acompanhado pela câmera. Gelsomina (Maria Alexandra Lungu) já surge assim, repleta de uma responsabilidade que não combina com a pouca idade. Resta ao espectador, no decorrer dos minutos, a tarefa de identificar os motivos que moldaram a personalidade dela.

maravilha2Em uma propriedade no interior da Itália, mora a família de Gelsomina. Ela é uma das quatro filhas do casal formado por Angelica (Alba Rohrwacher – irmã da cineasta) e Wolfgang (Sam Louwyck). É com a apicultura que o sustento é garantido e as garotas trabalham como gente grande na extração do mel. Uma doce produção que exige um esforço nada açucarado, todo um processo capitaneado por um pai com postura de patrão. Sendo assim, a rigidez de Gelsomina começa a fazer sentido. A rotina da família é marcada pelo isolamento, e a presença de estranhos, primeiramente sob a forma de caçadores que frequentam a região, é logo retribuída com hostilidade. Desvinculados que estão do resto do mundo, a chegada do desconhecido é sempre interpretada como intrusão. É dessa forma que Wolfgang observa uma equipe de televisão que filma nos arredores um novo programa. Um concurso destinado a premiar os trabalhadores locais. Para as meninas, principalmente Gelsomina, o fascínio anula a cafonice desse novo universo estrelado por Milly Catena (Monica Bellucci), uma bela mulher que parece transportada de uma fábula para decorar a crueza da realidade.

maravilhaSeguindo a mesma lógica do intrometimento, surge Martin (Luis Huilca), um menor infrator vindo da Alemanha para participar de um programa de reintegração social. Assim, não sem antes ocorrer uma discordância entre marido e mulher por conta de uma preocupação materna com a segurança das filhas, Martin começa a ajudar na produção do mel. Uma das maravilhas do filme é a forma como a diretora Alice Rohrwacher estabelece o contato de sua protagonista com o primeiro amor. Uma afeição incomum, condizente com a singularidade reinante na película, que nasce exclusivamente de sutilezas. Uma convivência que não permite uma única troca de palavras, culpa das barreiras geográficas e sua diversidade de línguas, mas capaz de conceder asas para uma liberdade antes sufocada. Filme rico em imagens de beleza naturalista, “As Maravilhas” foi contemplado com o Grande Prêmio do Júri na edição de 2014 do Festival de Cannes.


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