As Ondas

Intrigante manipulação de público através das ondas de imagem e som

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25 de janeiro de 2017

20ª Mostra de Cinema de Tiradentes — Mostra Panorama – Série 2

“As Ondas” de Juliano Gomes e Leo Bittencourt é um curta trabalhado no que se convenciona denominar de ‘cinema experimental’, com muitas camadas enriquecedoras para além do que o mero termo que o descreve pode sem querer afunilar. Com uma premissa aparentemente simples, a de emitir sons simultaneamente a imagens em planos fixos de estátuas e luminárias, de sombras e luzes, pretende provocar reações sensoriais da plateia. Mas engana-se quem pensar que tal efeito reagente possa ser instintivo ou que exija menos trabalho do que um roteiro preenchido de diálogos e cenários… Há um senso comum do grande público por vezes em esperar respostas prontas, bem embaladas, cujo início, meio e fim sempre correspondem à ordem universal das coisas. Para olhos destreinados, poderia soar como mera vanguarda ou exercício de linguagem, porém, há sim uma história ali a ser contada, e muito significativa.

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É engraçado escutar a plateia quando acaba de assistir uma obra como esta a se indagar o que o(s) diretor(es) quis(eram) dizer com seu trabalho, quando basta esmiuçar um pouco que cada um pode obter sua própria resposta de forma bastante intuitiva. Pode-se concluir, por exemplo, se os sons e imagens piscando de forma estroboscópica causam desconforto ou mesmo choque. Pode-se cogitar se as imagens de estátuas seriam reproduções espelhadas do espectador, quebradas e confundidas pela luz e barulho assim como a percepção da plateia, de modo a criticar o que consideramos como realidade ou cópia de nós mesmos em nossas reações sociais. Poder-se-ia supor que as luminárias e cortes de cenas em meio ao escuro estariam falando da gênese de uma ideia, que o próprio espectador pode se inspirar a partir do impacto sentido. Ou nenhuma destas respostas pode estar mais certa do que a convicção pessoal de cada um, insubstituível naquele instante, diferente das estátuas partidas, provocando uma reação original.

Apesar de o também excelente curta seguinte na mesma seção da Mostra, o premiado “Solon”, possuir talvez uma linha narrativa mais explícita no devaneio da experimentação, isto não quer dizer que “As Ondas” careça de continuidade lógica. Tudo começa com a tela avisando ao espectador para que tome cuidado caso seja sensível a ataques de epilepsia. Bem, tirando os casos ocorridos na década passada com o brilho piscante tão intenso do personagem japonês Pikachu da série infantil Pokémon que talvez tenha sido o último caso reportado de epilepsia coletiva, apenas resta ao espectador no imaginário popular supor o que lhe reserva na montanha russa a seguir… E eis que a tela seguinte ainda surpreende mais, com créditos iniciais agradecendo a inúmeros nomes tão heterogêneos que a reunião deles em um mesmo lugar decerto intriga ainda mais sobre qual será o resultado da colagem. Mas nada é a toa: das ondas do mar, mais literais logo de início, às ondas de ruídos ensurdecedores na sequência… até dar textura e formato mais palpáveis com as estátuas, primeiro elemento referencial de identificação humana. O que antes o espectador poderia pensar ser desconexo se tornam elementos interligados.

O ápice indubitavelmente vem com a quebra final do vínculo narrativo mais palatável com o rosto e a expressão humana quando as estátuas cada vez mais quebradas começam a pegar fogo, em uma crepitante alusão à teoria sobre o simulacro de Jean Baudrillard. Curiosamente, mal poderiam saber os dois cineastas quando estavam filmando que estariam referenciando com esta cena um filme realizado no mesmo período, apenas exibido em Festivais, e que, desde já, é um dos melhores a estrear nos cinemas em 2017: “Nocturama” de Bertrand Bonello, que discute o simulacro de vida automatizada sem ideais através de jovens que decidem fazer atentados terroristas em Paris, simbolizados pela estátua em chamas na frente do Banco Internacional Francês.

Definitivamente, com experimentalismo altamente sensorial e perturbador, impossível de deixar os espectadores sem ao menos alguma reação, “As Ondas” é um filme que comprova a necessidade em alguns casos do formato de tela grande na projeção, mesmo se tratando de um curta em tamanho, mas não na força.