As Órbitas da Água

Águas do tempo no fluxo Edipiano

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03 de novembro de 2020

O filme AS ÓRBITAS DA ÁGUA está em exibição na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Somente até quarta-feira!

Vale ressaltar mais dicas como “As Órbitas da Água”, de Frederico Machado, uma poética brasileira da filmografia maranhense que vai desenvolver melhor a problemática que acabo de colocar acima, sobre a perspectiva da falibilidade masculina como foco principal, porém aqui assumindo estas falhas como elemento narrativo de desconstrução.

A partir de um tom quase fabular sobre o eterno retorno ao lar, seguimos pelos olhos da dupla Rejane Arruda e Antonio Saboia (que já trabalhou antes com o diretor no belíssimo “Lamparina da Aurora”, de 2017, e está no Cult “Bacurau”, de 2019). Este regresso será pontuado de encontros e prestações de conta que testarão a lealdade, a conexão com a terra e a descendência familiar se transformando aos poucos numa tragédia grega.

Frederico Machado possui uma verve poética e autoral no meio do realismo sobrenatural com rara força no cinema contemporâneo. Sua fotografia possui uma iluminação e cores bastante pictóricas, num assumido flerte com o cinema de gênero. Algo que o naturalismo de fluxo e observacional a evocar outras representações da realidade em voga no nosso momento cinematográfico talvez eclipsem um pouco no circuito. Mais controverso que seu filme anterior, especialmente por abordar as raízes da masculinidade tóxica herdada estruturalmente de nossos pais (um tema bastante delicado hoje em dia, mas necessário), ele nem sempre acerta nas representações femininas, porém acerta bastante em dar vida ao conflito através dos manguezais maranhenses.

Alude, assim, à gênese milenar do homem que advém da água, da lama e do lodo. Um lugar extremamente difícil de filmar, mas que é tensionado com nuances de erotismo e olhar crítico, valorizando nossas belezas naturais. Vale harmonizar “As Órbitas da Água” com outro exemplar já comentado nesta coluna, “Lua Vermelha”de Lois Patiño (leia aqui), sobre o qual também tracei correlações com “O Barco”, de Petrus Cariry (em breve nos cinemas) e “Evolução”, de Luciele Hadzihalilovic – todos estes fabulando uma dramaturgia a partir de vilarejos remotos e transbordados apenas pelas águas do tempo como metáfora da origem das espécies.”