As Primeiras Aventuras de Dom Quixote e o seu fiel escudeiro Sancho Pança

Grupo Auto-Peças de São José dos Pinhais apresenta um trabalho delicado, e ao mesmo tempo, híbrido em sua manipulação

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16 de outubro de 2016

Neste ano de 2016, a 9º edição do FENATIFS deu uma atenção especial, em sua curadoria, ao teatro de formas animadas: o teatro de animação. Fazendo parte da Mostra Nacional tivemos no Teatro Margarida Ribeiro, o Grupo Teatral Auto-Peças – de São José dos Pinhais/PR – com o espetáculo de títeres “As Primeiras Aventuras de Dom Quixote e o seu fiel escudeiro Sancho Pança”. A dramaturgia do espetáculo, de Luis Santos, foi desenvolvida em um formato bem conciso e coeso, e contada em uma das maneiras utilizadas no teatro de animação. Através da voz gravada em off, misturando-se harmonicamente com a sonoplastia e direção musical de Guto Scheremetta e Ivan Halfon. Esta escolha propicia uma maior concentração e liberdade aos manipuladores, em manipularem os títeres. Dando atenção especial ao desenho cênico e suas marcas. Vemos em cena o início da construção do mito de Dom Quixote, uma das obras mais importantes em todo o mundo. Escrita por Miguel de Cervantes entre 1546 e 1616, o livro surgiu em um período de grande inovação e diversidade por parte dos escritores ficcionistas espanhóis. Parodiou os romances de cavalaria que possuíam imensa popularidade no período e, na altura, já se encontravam em declínio. Nesta obra, a paródia apresenta uma forma invulgar. O protagonista, já de certa idade, entrega-se à leitura desses romances, perde o juízo, acredita que tenham sido historicamente verdadeiros e decide tornar-se um cavaleiro andante. Por isso, parte pelo mundo e vive o seu próprio romance de cavalaria. Enquanto narra os feitos do Cavaleiro da Triste Figura, Cervantes satiriza os preceitos que regiam as histórias fantasiosas daqueles heróis. A história é apresentada sob a forma de novela realista, e é considerada a grande criação de Cervantes, e por muitos o expoente máximo da literatura espanhola, sendo escolhido como a melhor obra de ficção de todos os tempos.

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O cenário de um grande livro, em dobraduras, é um dos destaques da montagem.

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O espetáculo mistura as técnicas de manipulação direta (com as mãos) e indireta (através dos fios de naylon)

A encenação de Lucas Mattana nos apresenta uma cena bastante limpa, com uma empanada preta e um grande e bonito livro de “Dom Quixote”, que é folheado cena a cena, na técnica de dobradura, e nos apresentando um mundo mágico, a cada virar de páginas deste funcional e delicado livro. Uma ideia bastante delicada e que nos leva para um mundo mágico das contações através das leituras do livro. Dando um ótimo destaque ao objeto livro na direção de arte de Kátia Piccolin, e nos aguçando uma enorme vontade de devorar todos os livros de histórias do mundo. Um bom exemplo de como um espetáculo pode estimular a leitura de uma forma sublime e lúdica. Os bonecos, atribuídos também, a Katia Piccolin, são de muita delicadeza e expressividade. Criados para a manipulação direta (com as mãos) e indireta (através de fios de marionetes), este é um dos senões da peça na manipulação dos bonequeiros Greg Bassani, Guto Scheremetta e Luis Santos, que fazendo-se utilizar de duas técnicas distintas, mistura formatos e conceitos em um lugar em que os fios têm a capacidade de oferecer todas as possibilidades apresentadas, através de sua cruzeta ou comando. Desta maneira, há uma escolha de manipulação direta, com as mãos, nas marionetes, quando os fios podem dar à eles todos os movimentos realizados diretamente com a mão. Não se trata, neste caso, da defesa de nenhum purismo, apenas diz respeito ao sentido de que isto não está ligado à criação de uma concepção, e sim a uma necessidade de melhor exploração de todas as possibilidades que os fios podem nos proporcionar.

 


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