As Sufragistas

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24 de dezembro de 2015

No campo de batalha do filme “As Sufragistas”, ideais machistas defendem o cerceamento da cidadania política das mulheres, impedidas do direito ao voto. Ceder o voto é ceder poder, uma contestação que acompanha a câmera que filma o expediente árduo de uma lavanderia, cujo trabalho mais desgastante, a ponto de abreviar a expectativa de vida, é todo conduzido por mulheres. O longa, norteado pelo olhar feminino da diretora Sarah Gavron, inspira-se no Movimento Sufragista intensificado no Reino Unido no início do século XX, pós-Revolução Industrial, com a criação da “União Social e Política das Mulheres”. Idealizado por feministas mais contundentes, o manifesto reivindicava o direito ao voto a mulheres − grande parte delas tinham participação ativa no contexto trabalhista da sociedade; ganhavam o próprio dinheiro, ainda que um salário inferior aos homens, mas não tinham relevância como eleitoras. Com ponto de partida na Inglaterra de 1912, o filme centraliza a personagem Maud Watts (Carey Mulligan), uma das funcionárias exploradas na lavanderia. A princípio, ela é uma mulher conformista, que observa de longe as ações (nem tão pacíficas) que compõem a luta pelo sufrágio. Uma das belezas da trajetória da personagem, que cresce a olhos vistos livrando-se da submissão da rotina maquinal, é a concepção, adquirida pelo contato com ativistas do feminismo, de que lutar por direitos é o mesmo que lutar pela própria vida.

Um aspecto de “As Sufragistas” que deixa a desejar é a forma como a cineasta escolhe contar a história, pulsante por sua natureza. É no mínimo irônico que um filme que faz da transgressão sua essência demonstre tamanho conservadorismo narrativo. O resultado é um roteiro materializado na tela sem qualquer toque de ousadia, do modo mais convencional possível. Tal opção, que renega o arrojo talvez para atingir um número mais substancial de público, traz um prejuízo para o futuro do filme ― obra com qualidade comprovada, mas que pode perecer facilmente no imaginário. Vale ressaltar que dessa maneira “redondinha” de interação com o espectador, surgem cenas de digna pujança, como a dolorosa interrupção, pela via da tortura, da greve de fome de Maud na prisão.

A guerra dos sexos estimulada pelo filme, com o contingente sufragista cintilando com os nomes de Helena Bonham Carter, Meryl Streep (em participação relâmpago como a líder Emmeline Pankhurst) e Carey Mulligan, demarca bem as características que diferem as tropas inimigas. Os homens são majoritariamente abusivos, impiedosos e tiranos. Basta citar como exemplos a perversão sexual do responsável pela lavanderia e a atitude do marido de Maud, Sonny (Ben Whishaw), que a impede de cumprir seu papel de mãe após a aderência ao Movimento Sufragista. O maniqueísmo, que valoriza na narrativa a contenda de homens versus mulheres, é indubitavelmente ampliado pela arte, mas ainda assim eficaz para refletir as injustiças de gênero cometidas na realidade atual, fora do quadro cinematográfico. Injustiças cada vez mais intoleráveis por mulheres ainda vítimas de um machismo anacrônico, mas ainda difícil de ser erradicado. A comparação das mulheres de hoje com as pioneiras sufragistas traz uma ilusória sensação de liberdade. O contexto mudou, mas dívidas fundamentais ainda não foram quitadas. Na jornada da igualdade, proibido mesmo é calar e consentir.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4