As Viúvas (20° Festival do Rio)

Entretenimento sem (des)envolvimento

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08 de novembro de 2018

Sei que agora, como crítico e como cinéfilo, irei decepcionar muita gente (😢) com esta crítica para “As Viúvas” de Steve McQueen, pois um bocado de representantes do meio da sétima arte idolatrou este filme… E não digo que é uma decepção do tamanho da de outras muito mais vergonhosas na programação do 20° Festival do Rio como a nova obra de Lars Von Trier, “A Casa que Jack Construiu”. Mas a expectativa para o novo Lars já era baixa após a declaração do mesmo em Cannes há uns anos atrás, enquanto que a do novo filme de McQueen era altíssima. Talvez daí o tombo…ou melhor, o moderado tropeço diante do esperado.

O diretor Steve McQueen continua tendo olhar apurado para a dança de corpos no raio X social como em clássicos como “Fome” e “Shame” (ambos com Michael Fassbender — que teria feito muitoooo melhor que Liam Neeson aqui), mas infelizmente a corporalidade física presente não possuiu o mesmo ânimus de desenvolvimento interno. Apesar de encorajador ver um elenco principal formado por maioria de mulheres “empoderadas”, como a maioria das pessoas está adjetivando, não consigo embarcar na construção que pavimenta este percurso nem acreditar totalmente no destino dele… Há sim coisas e detalhes pontuais brilhantes muito maiores do que o filme em si, especialmente nas nuances do não dito e das microrrelações entre as personagens, especialmente entre Viola Davis e Elizabeth Debicki (esta segunda sim extremamente bem trabalhada e possuindo até mais camadas de roteiro do que a própria Viola) — com menção honrosa para a personagem de Cynthia Erivo, que com pouquíssimas palavras e expressões faciais e corporais supre todas as negligências, elipses ou lacunas intencionais ou não do roteiro e montagem.

É um thriller eficiente, e mil vezes melhor numa mesma pegada do risível e vazio “Oito Mulhetes e Um Segredo”, já que com este exemplar McQueen consegue superar apenas com 4 mulheres o entretenimento que falha no das 8… Todavia, para o realizador do brilhante “12 Anos de Escravidão”, fica muito na superfície para tirar qualquer coisa que apenas um resultado de frenesi descartável, ainda que nada impeça o diretor de abraçar um projeto comercial de grande volto como este e conseguir fazer um blockbuster a contento e até ligeiramente superior aos 70% dos pipocões anuais por aí.

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