Asako I & II

Dois romances, duas narrativas, dois rendimentos

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05 de janeiro de 2019

“Asako I & II” é um romance japonês de 2018 dirigido por Ryūsuke Hamaguchi, estrelado por Masahiro Higashide e Erika Karata, e competiu pela Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes de 2018.

Assim como o título que pode gerar um pouco de estranhamento a princípio, a narrativa do filme também se subdivide em capítulos dividos por passagens no tempo, bem como há personagens diferentes interpretados pela mesma pessoa (Masahiro Higashide), o que é curioso que não seja a própria protagonista (Erika Karata), já que é o nome dela que dá título ao filme “Asako I & II”. Na verdade, é o par romântico que irá se dividir em duas pessoas diferentes e, à conta disso, é que Asako terá dois momentos de amadurecimento distintos para acompanhar a reflexão que lhe é demandada com os respectivos companheiros.

A questão quando você se debruça sobre a proposta subdividida de forma capitular é justamente a desproporcionalidade de quando parte do desenvolvimento infelizmente se torna superior ao outro. Ainda mais com reviravoltas e desdobramentos que advém da pouca profundidade que alguns segmentos tiveram para se chegar ao final escolhido — isso dentre as várias possibilidades que poderiam ser oferecidas.

A ótima primeira metade toma vantagem justamente das lacunas propositalmente deixadas no primeiro interesse romântico da protagonista, o misterioso Baku (Masahiro Higashide), o que não teria problema algum se analisado per si. Na verdade, se torna um trunfo no fundo da mente do espectador em tentar entender aquela figura inquietante… se e somente se o filme não decidisse a certa altura afunilar o leque de opções e restringir todas as incógnitas em torno do pouco construído personagem de Baku em uma revelação tão rasa quanto naïf, que exigiria do espectador muita tolerância para fechar os olhos às camadas que são simplificadas de forma leviana — quando podiam ser deixadas mais sem resposta para a imaginação da plateia.

Ao contrário de Baku, o outro interesse romântico da protagonista (interpretado pelo mesmo ator) é muito bem trabalhado no segmento seguinte, o que amplia o grau se interesse por contrastar e não explicar nada por enquanto sobre a relação que possa existir entre estes personagens interpretados pelo mesmo ator. Até mesmo as reações introvertidas de Asako até então ainda encaixem perfeitamente, mesmo com um ar de que seja estranho o título aludir aos numeros I & II em relação a protagonista quando ela acaba parecendo ter 0 vontade própria que não seja definida por subordinação aos seus interesses românticos.

Ela é levada pela vida tanto quanto por eles, tudo consubstanciado por uma linguagem que torna isto aceitável, afinal, a primeira metade parece uma adaptação perfeita em live action de uma das animações de Makoto Shinkai, cujas obras em desenho são dramas e romances extremamente complexos e voltados para adultos, muito mais do que para crianças. Há em “Asako I & II” toda a singeleza e minúcias destas animações, como fumar cigarro nas escadarias de serviço do prédio, ou os esbarrões sem diálogos nos cafés que são seguidos de suspiros e andanças sozinho pela rua… Até a montagem parece tirada dos desenhos de Shinkai, com a suspensão da realidade típica do olhar que uma animação pode ampliar, como deixar um gato passando no primeiro plano do quadro cortar a cena e passar para a próxima sequência na tela, ou mesmo um barco passando no segundo plano de uma tomada se tornar o elemento de continuísmo no primeiro plano da próxima. Algo lúdico que enriquece a história e faz com que acreditemos em closes dos pés dos personagens a se aproximar na rua como se passos dados numa mesma direção pudessem simbolizar por analogia o momento do encontro em que duas pessoas se apaixonam.

O que desanda toda esta receita que até então era um acerto é justamente o retorno mal explicado e reducionista de Baku à trama, com resoluções tão ingênuas quanto que acabam subestimando a inteligência da plateia. Todas as possibilidades metafísicas construídas são afuniladas numa alternativa concreta e explícita que contradiz a preferência pelo lúdico e o não dito até então. Uma pena. Apesar de o bom olhar de câmera até sobressair nos momentos mais piegas após a derrocada da trama e conseguir extrair coisas boas visualmente, como o carro iluminando a noite em planos abertos sobre pontes e viadutos como metáfora de a protagonista ter se perdido na vida… Bem como a bem filmada corridinha clichê final, cujo timing perfeito consegue fazer um plano sequência transitar entre o tempo fechado e o abrir do sol numa só sequência sem cortes — um belo divisor imagético para um roteiro que esqueceu de acompanhar esta riqueza técnica.

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