Aspirantes

Rivalidade e inveja são temas do longa de estreia de Ives Rosenfeld

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12 de outubro de 2015

A primeira cena de “Aspirantes”, longa de estreia do diretor Ives Rosenfeld, deixa claro o cuidado de Bento (Sergio Malheiros) com Junior (Ariclenes Barroso). Sob a luz do strobo, ele aparta uma briga em que o amigo se envolveu. Logo a seguir percebe-se a profundidade dessa relação: caminhando sozinhos por uma rua escura, acompanhados pela câmera que os segue, Junior resiste ao insistente pedido de Bento para que vá até a sua casa para uma partida de video game. Nota-se, também, que Bento nutre um senso de responsabilidade em relação ao amigo, sentimento que ficará evidente com o transcorrer da narrativa. Mas a trama deixará clara, também, a rivalidade alimentada por Junior; rivalidade que gera insatisfação e contamina tudo aquilo que o protagonista toca.

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Ambos jogam em um pequeno time de futebol amador da cidade de Saquarema, no Rio de Janeiro, e nutrem o sonho de muitos brasileiros: vencer na vida através do esporte bretão. Bento é talentoso, mas Junior conta apenas com o próprio esforço para tentar compensar, na raça, aquilo que falta para diferenciá-lo dos demais. Essa não é, contudo, a única diferença entre eles. Não é sequer a principal. Enquanto Bento parece levar uma vida mais organizada, inclusive ganhando algum dinheiro com seu trabalho, Junior se vê as voltas com a namorada grávida, um tio bêbado e um subemprego que mal paga as contas da casa. Aos poucos, a dura realidade oprime os sonhos do jovem.

Esse sentimento fica claro pela opção de Rosenfeld em utilizar planos fechados sempre que o protagonista está em evidência. Imagens fora de foco, em que o único ponto nítido na tela é o próprio personagem, revelam a perturbação que assola Junior. O único momento de liberdade que ele experimenta é quando a bola rola, ocasião em que a profundidade de campo reduzida dá lugar a planos mais abertos, com a perspectiva mais clara em virtude da profundidade mais evidente. Ali, Junior é livre, ainda que apenas por alguns minutos.

Mas até isso evapora.

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Encurralado pela realidade após a explosão de sua sogra Sandra (Karine Teles) em uma discussão com a filha, Karine (Julia Bernat), ele se transforma. E a notícia de que Bento está na mira de um clube grande da capital cai como uma espada em sua cabeça, acendendo a inveja que ele vinha arduamente tentando esconder.

A razão disso é clara: enquanto Bento trilha o caminho do sucesso, os sonhos de Junior são constantemente interrompidos, ideia presente nos cortes abruptos que Rosenfeld realiza em diversas cenas, especialmente aquelas em que o protagonista experimenta algum nível de felicidade. A ideia de ver seu amigo realizando o sonho comum, nesse contexto, é um pesadelo pior do que a própria falta de perspectiva e se refletirá no desdobramento da trama, conduzida com segurança e crueldade pelo diretor.

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Ao escolher o futebol como pano de fundo de sua história, Rosenfeld não supre a lacuna existente no cinema brasileiro envolvendo produções sobre o nosso principal esporte. Não se trata de um filme sobre o esporte nem sobre a ascensão social pelo esporte. “Aspirantes” poderia perfeitamente adotar qualquer ambiente para se desenvolver e transmitir sua mensagem. Contudo, o olhar voltado para as quatro linhas dá maior dramaticidade à tragédia pessoal de Junior: o campo é o único lugar de onde ele pode sair vencedor. Mesmo assim, suas vitórias não passam de um sonho. Na vida, assim como no esporte, Junior é apenas um aspirante.

Festival do Rio 2015 – Première Brasil: Competição longa ficção

Aspirantes (Aspirantes)

Brasil, 2015, 75 minutos.

Direção: Ives Rosenfeld

Com: Ariclenes Barroso, Sergio Malheiros, Julia Bernat, Karine Teles, Julio Adrião

Avaliação Celso Rodrigues Ferreira Junior

Nota 4