Assim Que Abro Meus Olhos

Canções sufragistas em regime opressor

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18 de janeiro de 2017

Infelizmente sabemos que alguns filmes com potencial mais comercial levam vantagem no circuito em tempo de permanência em cartaz ante o cinema estrangeiro mais alternativo ou independente.

Mas, às vezes, caem idiossincrasias engraçadas como esta: 2 musicais anticonvencionais simultaneamente em cartaz no circuito de cinemas.

“La La Land” de Damien Chazelle reverencia a Hollywood Clássica e estreia esta 5af tendo já lotado as prés e sendo franco favorito a vários Oscar 2017. Porém……qual a força política que um filme pode ter? Não em termos partidários, porém principalmente sobre direitos fundamentais e universais dos mais básicos, como a liberdade, a igualdade e a integridade físico-moral das pessoas. Ainda mais se incorrer num país cuja história for opressora às diferenças e representatividades.
É sobre e com isso que o belíssimo e sensível musical tunisiano “Assim Que Abro Meus Olhos”, primeiro longa da diretora Leyla Bouzid, que estreou quinta-feira passada dia 12, ganhou inúmeros prêmios ao redor do mundo, inclusive de público no último Festival de Veneza, além de ter recebido da notória revista Indiewire a alcunha de: “Melhor Filme de ficção sobre a Primavera Árabe até hoje”.

A história gira em torno de uma jovem cuja família deseja que curse medicina, quando tudo o que ela quer é cantar com sua banda. Os problemas começam quando as letras politizadas das músicas chamam atenção da polícia em um período de repressão que antecedeu a Revolução de Jasmin que levou à Primavera Árabe, por volta de 2010. Neste cenário a jovem passará por provações do amadurecer e descobertas sexuais, além de que sua intérprete estreante em atuação está segura e ainda canta muito bem, com misterioso timbre vocal munido do vibrato oriental e sentimento na voz. Mas é a personagem da mãe que se revela com sua proteção excessiva por saber o que foi ser uma jovem rebelde como a filha, e não apenas passa pelas perseguições políticas na pele como precisa encarar fantasmas hipócritas de seu próprio passado. A diretora também estreante em longas Leyla Bouzid consegue fazer um début memorável, com fotografia sépia entre o retrato cultural e a boemia sufragista, além de experimentar com alguns efeitos de câmera como o travelling e efeitos de luz para passar o crescente clima de tensão. Especial atenção às melhores cenas do filme com a filha e a mãe como a corrida do carro na estrada, a porta trancada do quarto ou o desaparecimento no estacionamento de vans que quase parece a Central do Brasil, ou mesmo a sequência belíssima em que elas cantam juntas como forma de se curarem dos males sociaos. Aliás, muito do enredo poderia ser passado no Brasil de hoje, tornando as situações e as letras politizadas das canções bastante próximas do público.

E, ainda assim, o filme foi escassamente distribuído, quase sem chance entre os indicados ao Oscar em cartaz (lembrando que o filme foi o selecionado pela Tunísia para representá-la no Oscar de filme estrangeiro) e já periga sair de cartaz com duas irrisórias semanas em cartaz. Mas musical não é pop?!?! “La La Land” não vai ser distribuído até em IMAX? (Privilégio reservado para poucos sucessos comerciais, e, de fato, seu visual merece). Mas por que há espaço no circuito para até os piores ou mais insignificantes filmes comerciais americanos, que nem na terra natal dos próprios chama atenção, também ficarem semanas/meses em cartaz no Brasil, e filmes que teriam até apelo pop e comercial, para além da concomitância artística inegável, enfrentam distribuição apertada e desconhecimento de público. É por que o filme não dispõe de infra suficiente de divulgação e marketing em todos os ônibus e metrô? Cadê nosso velho boca-a-boca? Cadê nossa força política da palavra e da união? Pois, afinal, o filme é feito e destinado a isso! Cinema é força popular e pode sim ajudar a mudar os tempos em que vivemos, nem que inspire apenas uma pessoa na plateia e esta consiga influenciar outra e esta à outra e alguma(s) dela(s) de fato venham a mudar o mundo ao seu redor.

Urgente e necessário!

 

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4