Assunção de Lars von Trier

Cineasta é reinventado e reverenciado nos palcos do RJ com montagem de 'Dogville', brilhante versão do filme de 2003

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24 de novembro de 2018

Mel Lisboa é Grace, graça que faz salivar o perdigueiro Chuck (Fabio Assunção) em "Dogville": hoje no Teatro Clara Nunes

Mel Lisboa é Grace, graça que faz salivar o perdigueiro Chuck (Fabio Assunção) em cena da peça “Dogville”: hoje no Teatro Clara Nunes – fotos © Renato Mangolin

Rodrigo Fonseca
Ícone da inquietação juvenil dos anos 1990, quando transformou a novela “Pátria minha” em um celeiro do heroísmo possível num Brasil pós-Collor, Fábio Assunção carrega na voz gutural e nos cabelos agora agrisalhados as marcas simbólicas da experiência: o Tempo, essa máquina de fazer monstros, sabe ser generosa com os gigantes, promovendo galãs em atores cheios de som e fúria. O volume máximo de Assunção (até este momento) pode ser ouvido em cada noite de aplausos para “Dogville” no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea – fica lá até 16 de dezembro. Depois de passar por Albee e por Woody Allen, ele chega a Lars von Trier, na tempestuosa (em potência reflexiva) montagem de Zé Henrique de Paula levantada a partir da tradução de Davi Tápias para um filme que abalou o mundo em 2003. Lívida feito uma heroína de Dostoiévski, do auge de uma maturidade que trouxe de sua recente encenação de “Boca de Ouro”, Mel Lisboa assume o papel das três Graças míticas numa Grace só: ela arrasta o grilhão que Nicole Kidman puxou no longa-metragem, 15 anos atrás. Mel deixou “Presença de Anita” pra trás há muito tempo: a citação à minissérie é apenas para notar o ponto de partida que a catapultou para uma imersão radical no abismo nietzschiano que Lars transformou em longa. A luz de Mel é um farol na escuridão inerente a cada habitante da Cidade Cão, terra onde um bicho carnívoro chamado Chuck aguarda a chegada de almas boas. Chuck, urso pardo com presas afiadas, é o papel que coube à assunção de Fábio nos palcos: no cinema, deram essa figura a Stellan Skarsgård, amigo e astro-fetiche de Von Trier. A versão brasileira de tipos não poderia ser mais precisa. Há dois anos, durante um Festival de Berlim, na projeção de “Meet me in Montauk”, Stellan fez um ensaio sobre o silêncio durante uma coletiva de imprensa, no qual dizia: “Eu troco as palavras pela respiração da dor”. Assunção atua assim há tempos.

Quando um ator brasileiro e uma estrela do naipe de Mel apostam num projeto desse tipo, o que se processa é uma triangulação do teatro com o cinema para a multidisciplinaridade do debate acerca da permanência de um texto: a palavra, em Lars, é agua benta num terreno pagão. E ele agora está também nas salas de exibição de todo o país. Nestes tempos em que a troca de ideias, o debate dialético, a conversa foram substituídas por linchamentos virtuais em redes sociais, a (ainda) imensurável reflexão filosófica (fantasiada de niilismo) oferecida por Lars em cada um de seus filmes passou a ser reduzida a mero sensacionalismo e sadismo. Consciente do vazio que passou a reinar nos espaços críticos, por conta do preconceito com as discussões intelectuais, o diretor dinamarquês, que sacudiu as convenções de representação do cinema em “Ondas do destino” (1996) e  “Dançando no escuro” (Palma de Ouro em 2000), resolveu reagir, depois do seminal “Melancolia” (2011), com egocentrismo. Ele hoje só fala de si. Essa reação, contudo, não desabilita aquilo que faz dele um titã da imagem: o requinte plástico. Um requinte aplicado à observação da desmesura moral e mental da Humanidade. Assim sendo, o febril “A casa que Jack construiu” (“The house that Jack built”), seu mais recente exercício cinematográfico, já em cartaz aqui, é um deboche. A repetição de planos, a brutalidade transbordante, a sensualidade pueril: tudo isso está nesta narrativa – sobre doze anos de crimes na vida de um psicopata – como sintoma do despropósito ético que varreu nosso mundo. E a esse sintoma soma-se uma autoanálise: o cineasta retoma cenas de seus sucessos pretéritos perfeitos, que entram sem conexão direta à saga do assassino Jack (Matt Dillon, em um deslumbre de atuação), a fim de gerar o desenho psicanalítico de uma cabeça que rejeita as tolices do real, e se imola pra nós em delírios criativos.

Efeito D: reflexão brechtiana pelo recurso do vídeo

Efeito D: reflexão brechtiana pelo recurso do vídeo, a partir do filme de 2003

Jack é a versão Tânatos de Grace: seu exibicionismo é fruto da incompreensão que cercou a anti-heróina que ele retirou de uma mistura de plots e ethos de “A visita da velha senhora”, de Friedrich Dürrenmatt, com “Our town”, de Thornton Wilder. A discussão sobre predatismo (o que desabrocha da solicitude) incompreendida transformou a Graça na anemia e na psicose. É uma riqueza singular da História termos duas obras deste vulto juntas na mesma cidade. O novo filme enriquece a peça e o espetáculo redefine o longa. A vítima em “A casa que Jack construiu”, sobretudo aquela interpretada por Uma Thurman, combustível para a fúria do assassino interpretado por Dillon, encontra um equivalente na insaciabilidade de Chuck vivido por Assunção, em estado de graça em cena. Na trama da peça, Grace é uma fugitiva de algo misterioso que busca aconchego em Dogville: mas o que parecia ser um pouso alegre vira um purgatório em Terra. Na autopsia em corpo vivo de sua bondade, Lars exuma os limites da tolerância (moral) à humilhação e ao Poder. Nada humilha mais aquela Graça caída do que o toque sujo de Chuck, esbaforido de desejo. Ela sente que o homem que a quer não respeita suas regras e conspurca seu mundo sem qualquer respeito. Ali o carvão embrutece e vira um diamante de ponta cortante. Ali, Mel alcance seu ápice. Assunção idem. É alquimia. Uma alquimia que apela para o vídeo para produzir o Efeito D, o distanciamento brechtiano, que, no filme, era feito por uma marcação de giz.

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Há um elenco integrado nessa cadeia alimentar entre Chuck e Grace, com destaque para Selma Egrei e Bianca Byngton. Mas a cereja desse bolo à dinamarquesa, onde existe algo de podre no reino da observação do real, é a narração de Eric Lenate, afinadíssima com o método de digressionismo de Lars, capaz de transformar em palestra o diálogo mais banal. É uma aula sobre o (sobre)viver. Uma aula que Assunção e Mel tiram dez com louvor.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5