Até o último homem

“Quem poderá subir à montanha do Senhor e apresentar-se no seu santuário?” Salmo 24, versículo 3

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27 de janeiro de 2017

Não é de hoje que o ator e cineasta Mel Gibson demonstra em seus filmes ser um obcecado pela fé, pela religião e pelo sofrimento. Ao retornar à cadeira de diretor no humanista “Ate o último homem”, após dez anos (o último que dirigiu foi “Apocalypto”, em 2006), ele traz de volta esses temas de forma visceral para contar a história de Desmond Doss (atuação soberba de Andrew Garfield). Desmond foi um objetor de consciência premiado com a Medalha de Honra do Congresso por sua bravura como médico durante a batalha de Okinawa, em 1945, na Segunda Guerra Mundial. Ele resgatou 75 soldados americanos, e inclusive alguns japoneses, durante o sanguinário combate, no qual não portava armas e se recusava a lutar, já que ia contra as suas crenças.

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Se na primeira parte da história temos a ideal cidade de Lynchburg na Virgínia como uma espécie de paraíso, onde o monte a ser escalado remete a brincadeiras de infância e ao primeiro amor, em congruência com o Sermão da Montanha de Jesus, na terceira parte, em contraste, a montanha a ser vencida é de provação com sangue, vísceras, carnificina. Lá, a parábola muda para a provação de fé de Abraão, quando Deus teria pedido que ele sacrificasse seu filho Isaac no Monte Moriá, que recebe no longa uma bela alusão quando Desmond olha para a câmera e pergunta: “Deus, o que você quer de mim?”. Na sequência final, a canonização de Desmond como uma espécie de santo reflete muito do que Gibson acredita.

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Por sinal, a forma como Mel Gibson captura as imagens nos três atos (Lynchburg, treinamento e a batalha) comprova que ele não perdeu a mão. São sequências quase sempre mais fechadas do que se costuma fazer em filmes de ação de guerra. Ao escolher esse formato, Gibson privilegia mostrar não só como no meio de uma batalha tudo perde o sentido e como a capacidade de visão do que está acontecendo fica restrita, mas também como todos os personagens estão enclausurados em suas crenças, seja Desmond, seja seu pai (Hugo Weaving), sejam os companheiros de luta e principalmente os oficiais que o comandam. Escolha bem diferente dos propositais planos abertos de “Coração valente”, para asseverar o tema principal da trama, que era a busca da liberdade.

Em alguns momentos, Gibson presta homenagem a outras produções, como ao fazer referências a “O resgate do soldado Ryan”, de Steven Spielberg (1998), e a “Sargento York” (1941), de Howard Hawks, no qual Gary Cooper interpreta um objetor de consciência que se torna um herói de batalha durante a Primeira Guerra Mundial. Na parte do treinamento tem o mise-en-scéne de “O destemido senhor da guerra” (1986), de Clint Eastwood, e tributo ao sargento Hartman (R. Lee Ermey) de “Nascido para matar” (1987), de Stanley Kubrick, na construção do personagem Sargento Howell (Vince Vaughn em bela interpretação).

Se o reprovável comportamento de Gibson fora das telas mudou, só o tempo dirá. Mas ele também vem escalando as suas próprias montanhas e parece estar disposto a aprender. Em “Hacksaw ridge” (no original), ele retrata com imenso respeito as convicções dos soldados japoneses ao ilustrar o seppuku, o ritual suicida japonês reservado à classe guerreira. Nesse momento no longa, Gibson alterna o ritual com imagens de Desmond, evidenciando que em ambos os lados havia soldados no confronto que não abandonaram as suas crenças. Como já se disse: “Não há força mais poderosa no mundo do que uma ideia incendiada pela fé”.


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