Até que a Sbórnia nos Separe

por

04 de janeiro de 2015

A peça gaúcha de sucesso “Tangos e Tragédias” criada por Nico Nicolaiewsky e Hique Gomez, que já levou mais de 1 milhão de pessoas ao teatro desde 1984, ganhou vida no formato de animação para o cinema pela direção de Ennio Torresan Jr. (membro da DreamWorks Animation há quase 20 anos) e Otto Guerra (dono da Otto Desenhos Animados, responsável pela criação artística animada do filme, que há 35 anos investe no gênero no Brasil). Produzido também por Guerra, o longa-metragem “Até que a Sbórnia nos Separe” estreou no 41º Festival de Cinema de Gramado em 2013, onde foi vencedor dos prêmios de Melhor Filme e Direção de Arte pelo júri popular, além de faturar o prêmio de Melhor Filme na 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no mesmo ano.

Até que a Sbórnia nos Separe 9

A trama se desenvolve a partir da queda do muro que divide a isolada ilha da Sbórnia e o Continente, após um acidente ocorrido numa partida de Machadobol. As reações da população sborniana são adversas, já que alguns resolvem aproveitar as novidades trazidas pela cultura moderna enquanto outros continuam presos às tradições e se recusam a aceitar as mudanças. Os protagonistas Kraunus Sang e Plestkaya (nas respectivas vozes de Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky), dois amigos e músicos locais, são personagens antagônicos que representam bem os ventos desta mudança: se Kraunus, descendente do fundador do muro da cidade, é frio, rabugento e resistente à transformação de sua velha e querida Sbórnia, Plestkaya é sensível, o último dos românticos, e sua paixão por Cocliquot (voz de Fernanda Takai), uma menina do Continente reprimida pela mãe (voz de Arlete Salles) que passa o dia trancada no quarto com a cara nos livros, o faz viver alheio a tudo o que está acontecendo com sua terra natal. Tal paralelo entre imperialismo e capitalismo remete ao longa alemão de 2003 “Adeus, Lenin!”, que mostra de forma bem humorada as consequências da queda do Muro de Berlim, principalmente para o lado Oriental. O avanço do capitalismo e da industrialização, a introdução de novas marcas (aqui representadas de maneira divertida por Disneyland e seu Mickey, Bob Esponja e Batman, além da Bizuwin Soda como a Coca-Cola) e da cultura do consumismo, a destruição de uma cultura em detrimento de outra mais lucrativa – tudo isso são referências a este período de transição pelo qual a Alemanha passou, e também a Sbórnia. O roteiro de Rodrigo John (“Wood & Stock – Sexo, Orégano e Rock’n’Roll”) e Tomás Creus faz, ainda, referências visuais e sonoras (através dos sotaques dos personagens) a países do Leste Europeu e aos imigrantes europeus que se domiciliaram no Sul do Brasil.

Até que a Sbórnia nos Separe 4

Primeira produção gaúcha realizada no formato 3D (que faz diferença em algumas cenas), “Até que a Sbórnia nos Separe” é uma animação voltada ao público adulto e possui uma ótima trilha sonora com músicas provavelmente desconhecidas para os pequenos, que vão desde “Rosa” (1933) de Pixinguinha até “Epitáfio” dos Titãs, passando por “Não se Reprima” dos Menudos, numa divertida cena com direito dancinha na praia. A excelente trilha sonora instrumental ficou a cargo de André Abujamra, que dá voz ao personagem Gonçalo. Apesar de haver um problema no ritmo da narrativa no ato final, “Até que a Sbórnia nos Separe” é uma obra interessante e uma bela animação rica em detalhes. Dedicado carinhosamente a Nico Nicolaiewsky, que faleceu no início deste ano, o filme é mais um que se junta ao hall de excelência de animações nacionais onde já estão “Uma História de Amor e Fúria” e ”O Menino e o Mundo”.

 

Até que a Sbórnia nos Separe

Brasil – 2014. 83 minutos.

Direção: Ennio Torresan Jr. e Otto Guerra

Com: Nico Nicolaiewsky, Hique Gomez, André Abujamra, Arlete Salles, Fernanda Takai e Otto Guerra.


Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/almanaquevirtual/www/wp-content/themes/almanaque/single.php on line 52