Austerlitz

Sergey Loznitsa documenta o comportamento de turistas em um campo de concentração

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14 de outubro de 2016

A Europa está repleta de lugares que serviram de cenário para a barbárie nazista durante o período da II Guerra Mundial. Sinônimos máximos do fenômeno que a filósofa judia Hannah Arendt descreveu como “a banalidade do mal”, os campos de concentração persistem até hoje, e talvez por toda a eternidade, como uma dolorosa lembrança da crueldade humana. Curiosamente, esses locais se tornaram pontos de visitação turística, recebendo diariamente milhares de visitantes que, movidos pelos mais variados interesses, buscam algum tipo de contato com a história recente.

Austerlitz

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Com o olhar voltado para o público, “Austerlitz” (2016), documentário do ucraniano Sergey Loznitsa, observa o movimento dos turistas durante um dia inteiro de visitação a um desses memoriais. O observador mais atento notará durante a projeção duas camisetas que traduzem o sentimento geral dos visitantes: “cool story, bro” (“história bacana, cara”, em tradução livre) e “Just don’t care” (“simplesmente não me importo”, também em tradução livre). Embora se vislumbre alguns exemplos de pessoas verdadeiramente interessadas, em sua maioria, o público se revela incapaz de compreender o significado e a importância daquele local: selfies e outros registros fotográficos dominam as cenas, sem que haja uma mínima pausa para reflexão ou busca da informação que o ambiente oferece.

Austerlitz

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A estrutura narrativa do documentário exige certo esforço daquele que se dispuser a assisti-lo. A câmera do diretor permanece fixa em pontos específicos durante todo o tempo e ele não desenvolve qualquer interação com o ambiente. Loznitsa retrata o vai-e-vem das pessoas e espera que a audiência seja capaz de formar seu próprio juízo pela simples observação do comportamento humano. O cansaço que o longa provoca, contudo, ao mesmo tempo promove uma autorreflexão a partir dos contrastes que aponta: comida farta e entretenimento em uma paisagem que serviu aos desígnios humanos mais desprezíveis, produzindo uma irônica resignificação, que remete aquele cenário a um período anterior à própria ascensão de Hitler. A fotografia em preto e branco, por outro lado, ao evocar o passado, recorda-nos de que se trata de um tempo não tão distante e nos alerta para a necessidade de conhecer aquele período.

Austerlitz

Austerlitz

“Austerlitz” é um documentário na sua mais pura essência e, ao expor a postura desinteressada dos participantes involuntários de seu filme, Sergey Loznitsa força a audiência a julgar aquele comportamento coletivo enquanto lhe propõe uma incômoda pergunta: será que não faríamos o mesmo?

Festival do Rio 2016 – Panorama do Cinema Mundial

Austerlitz (Austerlitz)

Alemanha, 2016, 94 minutos

Direção: Sergey Loznitsa


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