Autobiografia Autorizada

Paulo Betti vive Paulo Betti, e alguns personagens de sua família, em sua Autobiografia Autorizada

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15 de abril de 2015

“Autobiografia Autorizada” com texto de Paulo Betti, estreou no Centro Cultural dos Correios, quase que simultaneamente a sua atuação na novela- recém terminada- Império. Betti interpretava, na mesma, um jornalista especializado em fofocas maledicentes, e que na reta final ensaiava uma nova abordagem para o seu “jornalismo” marrom, com a publicação da polêmica biografia da personagem do Comendador José Alfredo (vivido pelo ator Alexandre Nero). Usando o gancho desta história de biografia ficcional e das polêmicas reais das biografias não autorizadas, amplamente debatida na mídia devido à posição contra à liberdade da escrita, feita pelos cantores Roberto Carlos, Caetano Veloso, Chico Buarque, entre outros; Betti lança assim a sua “Autobiografia Autorizada”. É sobre a vida dele, escrita por ele, com autorização plena dele! Impossível de se impugnar qualquer uma das linhas reveladas por ele. Em formato de monólogo, o espetáculo é dirigido também por ele e por Rafael Ponzi, e marca a comemoração dos seus 40 anos de carreira. Toda a dramaturgia foi construída pelo próprio Betti, que se inspirou nos textos escritos em seus blocos durante a adolescência – onde fazia colagens de fatos da época -, e também nos artigos semanais que escreveu por quase trinta anos para o Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba, cidade onde foi criado. Paulo Betti saiu do mundo rural onde o avô, um imigrante italiano, trabalhava para um fazendeiro negro. Filho de uma camponesa analfabeta, que mudou para a cidade onde foi empregada, mãe de 15 filhos (Paulo é o décimo quinto, temporão, dez anos de diferença de seu irmão mais novo). Seu pai era esquizofrênico. Apesar disso, estudou em boas escolas, cursou um Ginásio Industrial em tempo integral, se formou pela Escola de Arte Dramática da USP e foi professor na Unicamp. É desta personagem, desta persona que fala o espetáculo.

(1) Paulo Betti_'Autobiografia Autorizada'_crédito Mauro Kury (3)

O cenário de Mana Bernardes, construído em papel fino branco é um dos grandes achados poéticos do espetáculo

(2) Paulo Betti_'Autobiografia Autorizada'_crédito Mauro Kury (22)-1

A cenografia é cercada de elementos reais e de projeção de imagens

Em formato de confissão, depoimento, narração e total despojamento cênico Betti abre a sua mente, e coração, para nos convidar a entrar e à ouvir muitas e muitas de suas histórias de vida. Histórias simples, poéticas, curiosas, delicadas, familiares e profissionais. A concepção cênica da encenação de Betti e Ponzi optou pela junção de elementos artesanais, reais, com a projeção tecnológica de imagens, sobre fatos marcantes de sua vida. Apesar do hibridismo, o ótimo acerto da cenografia do espetáculo – criada por Mana Bernardes -, uma síntese de casa toda construída em papéis finos brancos amassados  – que constrói uma bonita textura -, acrescentou uma enorme gama de suavidade, pureza e delicadeza à todo o ambiente. Os efeitos das imagens projetadas na casa, e em todo o espaço cênico branco, nos transporta para os áureos tempos onde as histórias de Betti aconteceram. O figurino de Letícia Ponzi, também todo em branco, é bastante despojado, em seu tecido de linho. A trilha sonora de Pedro Bernardes pontua com lirismo alguns momentos da montagem, e a iluminação de Dani Sanchez e Luiz Paulo Nenén iluminam com competência toda a grande caixa branca, que se transforma em furta-cor. Em uma missão bastante delicada, cabe a Paulo Betti, viver ele mesmo, diversos membros de sua família, manusear brinquedos de sua infância como um peão de madeira e um carrinho de pneu, entre vários adereços que o transporta para o universo de sua vida infantil, juvenil e adulta. Apesar de todo o pertencimento, logicamente, de Paulo Betti nas histórias de sua própria vida, o espetáculo corre muito solto, tendo algumas cenas destituídas de teatralidade, uma interferência excessiva de comentários com a plateia, e mistura de várias linguagens pouco amarradas entre si. Ainda que se tenha procurado um total despojamento cênico, como é visto em todo o espetáculo, ao falar, contar, narrar, apresentar boletins escolares, diplomas de cursos, entre outras situações corriqueiras, não se pode esquecer que estamos diante de um tablado de teatro, e que toda a desconstrução da cena teatral, é sucedida de uma construção de cena anterior, com seus códigos, signos, significados e significantes. Aparando estas arestas, acredito verdadeiramente que o espetáculo“Autobiografia Autorizada” tem tudo para fluir teatralmente como uma linda homenagem de Paulo Betti à sua família e a sua vitoriosa trajetória de vida e carreira.

(3) Paulo Betti_'Autobiografia Autorizada'_crédito Mauro Kury (23)-2

Paulo Betti vive Paulo Betti, e alguns personagens de sua família, em sua “Autobiografia Autorizada”

Local Centro Cultural Correios (Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro)

Telefone: (21) 2253-1580

Horário: de quinta a domingo, às 19h

Ingresso: R$20,00

Duração: 90 minutos 

Capacidade: 199 lugares

Classificação: 12 anos

Bilheteria: terça a domingo, das 15h às 19h


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