Ayrton Senna- O Musical

Espetáculo com ênfase na plasticidade engole a vida do herói do automobilismo em exacerbado histrionismo tecno-acrobático

por

19 de novembro de 2017

Após três anos de idealização do projeto pela Aventura Entretenimento, chega aos palcos do recém-inaugurado, Teatro Riachuelo do Rio de Janeiro- um bonito espaço arquitetônico-, o espetáculo Ayrton Senna- O Musical, com texto e músicas de Claudio Lins e Cristiano Gualda e Direção de Renato Rocha. Um dos maiores e mais importantes pilotos, e seres humanos de nosso país. Adorado por todo o mundo, Ayrton Senna é um mito, uma lenda, reverenciado até os dias de hoje por diversos pilotos de Fórmula 1, mesmo após 23 anos de sua prematura morte, em trágico acidente na curva de Tamburello em Ímola, em uma triste manhã de primeiro de maio de 1994. Uma manhã que marcou a todos, e que se sucederam, em dias e mais dias, de um funeral que parou o mundo. Uma comoção nunca vista antes para um esportista, e também cidadão brasileiro. Uma homenagem digna a um verdadeiro herói de uma nação. Nosso grande orgulho. Nosso grande exemplo de garra, luta, ética, imagem, empenho e vitórias incontestáveis no automobilismo mundial. Senna é considerado em pesquisas feitas com jornalistas especializados, pilotos e torcedores, como o melhor piloto da história da Fórmula 1, em todos os tempos. Em 2012, foi eleito também pela Rede BBC, como o melhor piloto de todos os tempos. Em 1999, foi eleito pela revista Isto É, o esportista do século XX no Brasil. Também é considerado como um dos maiores esportistas do mundo no século XX. No auge de sua carreira, era considerado, segundo pesquisas, como o maior ídolo do Brasil. Mesmo depois de duas décadas de sua morte, uma pesquisa do Datafolha mostrou que Senna continua sendo avaliado como o maior ídolo do país.

Ayrton-Senna-o-musical-4-Foto-Caio-Gallucci

O elenco na cena em que tinha tudo para ser a de maior impacto no espetáculo: a da “roda gigante”, mas é esvaziada pelo excesso de linguagens buscadas. Foto Caio Gallucci.

x00-ayrton-senna-musical.jpg.pagespeed.ic.Bo__y1o_w_

O protagonista Hugo Bonemer como Ayrton Senna, se desdobra com muita dignidade, para conseguir dar conta do recado, no meio de tantos empecilhos apresentados na encenação. Foto Caio Gallucci.

Por conta da importância, e da grandeza, deste esportista brasileiro, é natural que fosse criada uma expectativa em como um espetáculo teatral musical iria abordar o tema e os seus desenvolvimentos dramatúrgicos e musicais. Podemos ver claramente algumas escolhas bem definidas que se apresentam de forma positiva, como a não realização de uma dramaturgia cronológica – contar a sua vida desde o nascimento e passando assim por quase todos os acontecimentos marcantes de sua vida. A opção da dramaturgia de Lins e Gualda foi em desconstruir a história e se enveredar por um mundo que desse mais conta das sensações e dos limites que faziam da vida de Senna, em viver no risco absoluto da audácia e da astúcia. “O Rei de Mônaco”, o “Magic Senna”, o “Rei da Chuva” e “Silvastone”. Apesar desta escolha baseada no inconsciente, na memória, nas sensações, em mundos paralelos, e em outras dimensões; o texto e as músicas esbarraram em seríssimos e gravíssimos problemas de carpintaria textual e de transposição das letras, em músicas. Optando também pela criação de uma história paralela, que aparentemente não se encaixava. Este procedimento foi estabelecendo um esvaziamento e uma perda de interesse geral em acompanhar a mesma. A “suposta” história paralela a do ídolo Ayrton Senna, parecia não chegar a lugar algum, e a não se encaixar no contexto lisérgico e multidimensional proposto pela direção do espetáculo. Tudo isso aliado ao tom infantil, piegas e melodramático da trama paralela, que se arrastou por quase 2h20min sem nenhum grande arco dramático ou mudança de assunto, em específico. Foram usadas 2h20mim, praticamente, para se contar uma única história paralela que poderia ser resolvida facilmente em poucos minutos. Juntando-se a isso a dificuldade em se transformar em música as letras que contam esta história. Não podemos dizer exatamente onde foi que esta liga não se deu, se foram as letras que apresentaram imensas dificuldades para um bom arranjo, métrica, melodia e música, ou também se foram a qualidade muito ruim dos atores-cantores, com exceção do protagonista, qua ainda assim encontra muitos problemas para manter a fluidez e a verdade de cada um dos textos das suas cenas, e das confusas, e quase “imusicavéis”, letras. Há muito não se via no teatro musical brasileiro uma combinação tão destoante, e dissonante, entre um texto dramatúrgico para a cena musical, aliada a pobríssimas letras e músicas.  A direção de Rocha desta maneira enfrenta dezenas de problemas em todos os setores da encenação. Onde se parece que cada um realiza um espetáculo e nada parece fazer parte de uma unidade. Parecemos estar diante de cenas anómalas, de múltiplas estéticas, de múltiplos recursos cênicos; mas que nenhuma delas parecem dialogar entre si. A opção do imenso telão de Led, com um vasto mundo subjetivo e lisérgico, se impõe com grandezas e potências superiores e extravasam todos os campos do real e da geografia da encenação, ao mesmo tempo em que o universo acrobático, que fatalmente nos remete a uma ideia de rascunho do “Cirque du Soleil”, recheado de números e mais números circenses-acrobáticos repetitivos, recorrentes e que transbordam também da cena teatral, e se constitui  um gigante que esmaga a encenação. Onde o seu excesso nos faz fixar apenas na execução e no acerto que todos aqueles números circenses podem vir a ter, ou não. Tudo isso nos empurra para um abismo, um buraco negro, que passa a milhares de distância do que seja a emoção, ou a razão, ou os sentimentos, ou as lógicas – mesmo que em um mundo desordenado -, que não faz nos identificarmos com qualquer linha de atuação proposta. Qual, ou quais, linhas podemos advir daí? Seria ela a de criar um mundo imaginário? Um mundo de sonhos? De pesadelos? De inconsciente? De caos? Impossível conseguir chegar a uma conclusão com tantos problemas, em todas as áreas técnicas. Parecemos estar diante de um vasto material fracionado, onde se é impossível ligar tantas pontas soltas, onde se buscam tantos objetivos ao mesmo tempo. Ser uma mega produção? Ser um mega sucesso comercial? Ser uma mega produção artística? Ser uma mega produção musical? Ser uma mega produção circense? Ser um produto que agrade aos fãs clubes do esportista? Ser um produto que agrade ao cidadão comum brasileiro? Ser um produto que agrade a classe artística? Ser um produto que agrade aos críticos? Ser um produto que tenha uma overdose de aéreos repetitivos? Ser um produto que pareça ser mais circo do que teatro? Ser uma ação social do Instituto Senna? Ou ser, em definitivo um produto em que se buscou reunir tudo isso, e se gerou daí um grande Frankenstein?Um produto que precisa se adequar e se enquadrar em tantas caixinhas, que acaba assim por ser um espetáculo de todos, e por conseguinte de ninguém.

ayrton_senna_o_musical_3_-_foto_caio_gallucci

O espetáculo é realizado com excessivos números circenses. Foto Caio Gallucci.

A direção de arte e cenografia de Gringo Cardia é muito expressiva e criativa como sempre. Entretanto, ela também se perde no mar de incertezas artísticas que o espetáculo aponta. O grande destaque é a “roda gigante”, que em tese deveria ser um momento de grande impacto e de tour de force, mas também é mal preenchida cenicamente. O figurino de Duda Bertlholini é muito interessante na criação dos macacões, mas um pouco exagerado nos brilhos e leds do mundo do piloto Senna, e muito simplório na infância  de Senna. Obtendo um resultado muito espetacular em um, e muito irreal no outro. A coreografia de Lavínia Bizzotto é muito deficiente, ou mal executada. Com gestos caricatos e muito primários. Não sei se podemos atribuir também à ela o gestual do protagonista Hugo Bonemer, que tem como gesto mais expressivo fazer uma caricatura infantil de braços esticados a pilotar um carro imaginário. O desenho de luz de Renato Machado é muito confuso também, com luzes pouco afinadas, e parecendo também que o elenco não consegue se colocar na mesma. Muitas vezes ela aponta para um lado e sempre tem alguém fora dela. A supervisão de acrobacia de Rodolfo Rangel é também deficiente. Com muitos números imprecisos, com erros excessivos, e com uma poluição visual e espacial. E por fim, o teatro que é uma arte feita por atores, e é aquilo que nos move em irmos ao teatro. Esta fé cênica, esta verdade, essa entrega e garra que apresenta um elenco, em atuar ao vivo, é o que faz o teatro uma arte milenar e mágica. O encontro só se dá quando esse elo se fecha, se cruza e se acha. Neste quesito, os atores, muito mal escalados, apresentam gravíssimos problemas de atuação, de verdade cênica, e de posicionamento (Vitor Maia, João Vitor Silva, e todos os outros que são tratados apenas como “personagens masculinos” e “personagens femininos”). Na maioria das vezes, ou praticamente sempre, estão postados em formato de jograis frontais, e apresentam uma atuação muito abaixo da média. Seja na atuação, seja no canto, seja na coreografia. O único ator que consegue mostrar um pouco do seu trabalho, apesar das imensas dificuldades, e não por sua voz – que tenta a todo custo tirar algo do fraco material que tem em mãos -, ou atuação, mas sim pela sua entrega e disponibilidade em executar partituras corporais com desenvoltura.

xAyrton-Senna2c-o-musical-1Foto-Caio-Gallucci-1.jpg.pagespeed.ic.6G47ZZFAoM

Hugo Bonemer competente como Ayrton Senna, e a personagem do Engenheiro interpretada sem nenhum convencimento e verdade pelo ator Vitor Maia. Foto Caio Gallucci.

“Ayrton Senna- O Musical” é um projeto que necessitaria de uma grande revisão, de um grande repaginamento em toda a sua origem, ou de se reinventar em absoluto, para que possa seguir em uma única temporada.

 

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 2