Azougue Nazaré

A narrativa regional do maracatu atômico

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01 de novembro de 2019

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*O quanto a música influencia nossas vidas? Existe um canal de memórias em nossas sinapses que interliga tempo e espaço ao nosso autorretrato cultural, não importa quando ou onde a gente esteja. E uma das revelações do ano nos cinemas brasileiros, o melhor representante pernambucano de 2018, “Azougue Nazaré” de Tiago Melo não apenas proporciona esta viagem regional para o espectador, como irá inclusive enriquecer a experiência contrapondo duas culturas aparentemente opostas e conflitantes, mas que bebem mais da mesma fonte em comum do que gostariam de admitir. Entender nossas raízes e ancestralidades brasileiras, ou mesmo onde elas se entrelaçam e também se distanciam, é também entender a conjuntura atualmente polarizada que vivemos. E o que mais musicalmente polarizado e enraizado em nossa cultura nacional do que contrapor a herança do maracatu (e suas origens em religiões de origem afro-indígenas) com a atual ascensão evangélica? — ambas bastante calcadas da performance ritualística numa espécie de transe, sendo que a primeira admite e abraça isso para levar seus celebrantes a outro estado superior de consciência, e a segunda também teria este potencial, porém anda sendo usada por algumas pessoas para fechar reflexões e hipnotizar o receptor a percepções limitantes e dogmáticas ao invés de libertá-lo.

Vale aqui ressaltar algo: a crença religiosa pessoal deste que vos escreve de forma alguma será colocada aqui de forma a julgar a crença dos outros, independente de qual ou quais sejam. Mas vale ressaltar para fins de interpretação do filme que de fato a religião evangélica teria ganhado uma aura de intolerância desde que começou a ser adotada de forma mais purista e xiita principalmente por representantes do governo. Lembremos que as religiões possuem liberdade de crença prevista pela própria Constituição Federal, e elas todas possuem vertentes positivas de ocupação de espaços da sociedade onde o Estado não alcança, e as religiões podem realçar uma identidade cultural e territorial. Porém, claro, qualquer uma delas pode estar sujeita ao uso indiscriminado sem a devida responsabilidade sobre o poder de seu alcance, e é esta discrepância e abuso de poder que o filme “Azougue Nazaré” irá colocar tão positivamente em sua trama para gerar reflexões.

A própria linguagem do filme é bastante construída ludicamente em cima da oralidade da experiência musical, desde as rimas e repentes do maracatu às formalidades cerimoniais evangélicas, ambas com capacidade de alcance de massas. Curiosamente, como está se falando sobre cisões e conflitos provocados por falha humana sobre as instituições, é bastante sagaz do filme ter escalado para interpretar o principal pastor evangélico da história um famoso intérprete de maracatu, o Mestre Barachinha (que este crítico já teve a oportunidade de ouvir cantando ao vivo algumas rimas de improviso quando da exibição deste filme no Festival do Rio 2018). Tudo isto para gerar empatia em se estar no lugar do outro, sem deixar de lhe dar camadas humanas e sem julgá-lo.

Ou seja, a música é um lugar de encontros, de interseções e diferenças que são possibilitadas durante a projeção. Mais do que isso, as tensões que vão se criando se projetam numa linguagem experimental de suspense e até de flertes com signos e simbologias de filmes fantásticos e de terror (Acalme-se leitor e não se assute! Não é terror propriamente dito). O que acontece é que os significantes do assombro e do delírio vão confundindo personagens e espectador numa ótima sinergia de modo a não sabermos mais o que é crendice popular e o que é imaginação ou surto coletivo. Especialmente a figura dos Caboclos de Lança, parte indissociável do folclore do Maracatu e de Pernambuco, especialmente da Zona da Mata, na região de Nazaré — mais uma razão para o título do filme — Valendo citar o intérprete Valmir do Côco, que encarna Catita Daiana, mais uma figura mítica do maracatu, e que traz um rendimento memorável num dos personagens e atuações mais marcantes de nosso cinema contemporâneo. E justamente toda esta mitificação através da potência do realismo fantástico traz ao filme toda uma aura reverencial à história da cultura local que deve ser lembrada e preservada, para além de ser uma das maiores belezas brasileiras e para o mundo. A outra parte do título, Azougue, é outra parte das simbologias inerentes ao rito:

“O ritual que antecede a apresentação do caboclo de lança, quer no interior quer na cidade, envolve cerimônias que acontecem em terreiros, como a benção das lanças e da flor que carregam na boca, a consagração da Calunga (boneca representando a divindade, levada pela baiana), e a abstinência sexual dos homens, que começa alguns dias antes do carnaval. Bonald Neto (1991, p. 284) transcreve informações retiradas da entrevista realizada por Evandro Rabello com o caboclo de lança, Severino Ramos da Silva, de Goiana, que explica:

 […] os caboclos saem protegidos tanto pela “guiada” (a longa lança de madeira) […] como pelo “calço” espiritual […]. É o ritual da purificação […] que apóia o caboclo disposto a sair num Carnaval. […]

Por isso, antes de sair já na 6ª feira, começa a abstinência que faz o Caboclo, até a 4ª feira de Cinzas, não mais procurar mulher, nem tomar banho ”para não abrir o corpo”, obrigando-o a dormir mesmo sujo como veio da rua.

Na hora que vão sair no primeiro dia todos vão para a “mesa”. O Mestre faz um preparo que se bebe com uma flor dentro do copo e mais três pingos de vela santa.

Aí então o Mestre autoriza a saída do caboclo. Muitos saem com um cravo branco ou rosa na boca ou no chapéu para “defesa”, para fechar o corpo […].

[…] a “rua” é sempre o exterior perigoso e repleto de riscos ocultos. Quem anda pelo “meio da rua” precisa estar “preparado” e protegido de todo o mal. Por isso os caboclos  tomam o “azougue”  [violento coquetel de pólvora, azeite e aguardente], preparado pelo Mestre. […]

Ao voltarem, na quarta-feira, vão logo à Igreja tomar Cinzas e “se despedirem” de alguma coisa errada feita no Carnaval.”

Fonte dos dados acima:

BARBOSA, Virgínia. Caboclo de Lança. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em:<http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.

Vale ressaltar apenas duas ressalvas, pois, apesar de todos estes pontos positivos, e da excelência pela qual caminha o cinema brasileiro em suas narrativas regionais e na valorização de seu folclore nato, toda narrativa evidentemente faz parte de um quadro maior e deseja crescer nos degraus de nossa sétima arte. Dois aprendizados ainda turbulentos aqui seriam a representação feminia, que permanece sendo uma dificuldade para muitos autores com elencos masculinos multipolarizados e poucas mulheres geralmente colocadas em lados opostos da representação bipolar, como no caso, aqui, as ótimas Joana Gatis (“Aquarius”) e Mohana Uchoa (“Africa da Sorte”), colocadas, respectivamente, em lados opostos do ringue do conservadorismo e da emancipação pessoal e cultural. Porém, enquanto a personagem de Joana ganha camadas tridimensionalizadas com vontade própria, mesmo que servindo de antagonista, a de Mohana permanece às vezes quase como um objeto pertencente à narrativa dos homens, especialmente na exacerbação de sua sensualidade sem motivação própria.

E, o segundo porém da narrativa, decerto são as piadas gordofóbicas, pois, apesar de o personagem de Valmir do Coco “precisar” passar por bullying para alcançar a libertação através da transformação em Catita Daiana, ele também reforça as vezes as piadas, deixando a dúvida se o roteiro está rindo dele ou mesmo com ele. Vale ressaltar neste sentido a piada na praia comparando-o ao animal baleia… Desnecessário e sem a mínima graça. Mas são pontos válidos de menção para o cinema como um todo crescer com isso, à despeito do alcance magnífico nos outros quesitos como o trabalho de som no cinema de gênero e a montagem segmentada num elenco coral de várias frentes e crenças em diálogo.

O filme estreou no Festival de Rotterdam onde levou o prêmio Bright Future Award (de revelação), além de melhor ator para Valmir do Coco no 20° Festival do Rio e várias outras láureas no 13° Festival de Aruanda, ambos em 2018.

TRAILER:

Dados técnicos do filme:

(Via assessoria de imprensa do filme, Sinny Assessoria)

SINOPSE
Num imenso canavial que parece não ter fim, numa casa isolada, moram o casal Catita e Irmã Darlene. Catita esconde que participa do Maracatu. Darlene é fiel da igreja do Pastor Barachinha, um antigo mestre de maracatu convertido à religião evangélica, que se vê na missão de expulsar o demônio do Maracatu, evangelizando toda a cidade. Em meio ao canavial, um Pai de Santo pratica um ritual religioso com cinco caboclos de lança. Os caboclos ganham poderes, incorporam entidades e desaparecem. A cidade de Nazaré da Mata testemunha acontecimentos misteriosos.

FESTIVAIS E PRÊMIOS
International Film Festival Rotterdam 2018 (Bright Future Award – Melhor Filme)
Cinélatino – 30º Rencontres de Toulouse (Prêmio da crítica – competição internacional)
Festival of African, Asian and Latin American Cinema 2018;
New Directors/New Films Festival 2018;
BAFICI 2018 (Melhor Diretor – Competição internacional // Melhor Filme – Juri Feisal)
MOOOV Film Festival 2018;
Visionär Film Festival 2018;
Lima Independiente Film Festival 2018 (Menção Honrosa – competência ibero-americana)
Edinburg International Film Festival 2018;
Transatlantyk Festival 2018;
Taoyuan Film Festival 2018;
Queer Lisboa 2018;
Festival de Cine Latinoamericano de La Plata 2018;
Ostrava Kamera Oko 2018 (Grande Prêmio Câmera);
Third Horizon Film Festival 2018;
Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2018;
Festival de Cine La Orquidea Cuenca 2018 (Melhor ator – Valmir do Côco)
Duhok International Film Festival 2018 (Menção Honrosa)
Festival Internacional de Cine de Morelia 2018;
Mumbai Film Festival 2018;
Geneva International Film Festival 2018;
Premio Iberoamericano de Cine Fênix 2018;
Festival do Rio 2018 (Prêmio Especial do Júri// Melhor Ator // Melhor Montagem)
XI Janela Internacional de Cinema do Recife;
Hollywood Brazilian Film Festival 2018;
XIV Panorama Internacional Coisa de Cinema;
20º Festival FILMAR en América Latina;
Cine Esquema Novo 2018 (Prêmio Turmalina Negra)
5ª Mostra de Cinema de Gostoso;
CINE VIVO – Perth Independent Latino Film Festival 2018;
13º Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro (Melhor Filme – Júri Oficial //Melhor Filme – ABRACCINE //Melhor Filme – Júri Popular // Melhor Roteiro // Melhor Direção // Melhor Fotografia
Goteborg Film Festival 2019;
Utopia Tournefeuille 2019;
22º Festival Internacional de Cinema Luso Brasileiro;
5ª Mostra Pajeú de Cinema;
Sydney Latin America Film Festival 2019;
Festival de Cine Migrante Buenos Aires 2019.

FICHA TÉCNICA
Diretor: Tiago Melo
Roteiro: Tiago Melo e Jeronimo Lemos
Empresa Produtora: Lucinda Filmes & Urânio Filmes
Empresa Distribuidora: Inquieta Cine
Produtor: Leonardo Sette
Produtora Executiva: Vanessa Barbosa
Diretor de Fotografia: Gustavo Pessoa
Diretor de Arte: Ananias de Caldas
Desenho e Edição de Som: Guga S. Rocha & Marina Silva
Mixagem: Carlos Montenegro
Som Direto: Tiago Campos & Phelipe Joannes
Montagem: André Sampaio
Trilha Sonora: Tomaz Alves Souza & Mestre Anderson
Produtores associados: Diego Medeiros. Emilie Lesclaux, Elex Miguel, Gustavo Beck, Kleber Mendonça Filho, Pedro Sotero

SOBRE O DIRETOR
Tiago Melo é um dos profissionais mais atuantes do cinema brasileiro. Conta com 15 anos de dedicação ao cinema e soma diversos curtas e mais de 30 longas-metragens em sua filmografia.
Tiago nasceu no Recife em 1984 e iniciou sua carreira artística no teatro em 1999. Em 2007 participou do curso “A Construção Dramática” na Escuela Internacional de Cine y Televisión em San Antonio de los Baños, Cuba.
É produtor Associado do longa “Bacurau”, Prêmio do júri Festival de Cannes 2019 e “Boi Neon”, premiado nos festivais de Veneza, Toronto, Hamburgo, Warsaw e Rio de Janeiro. Também é Diretor de Produção do “Divino Amor” (Sundance e Berlim) do “Aquarius” de Kleber Mendonça Filho, oficial de Cannes 2015 e o curta “Sem Coração”, ganhador do “Prix illy du court métrage” na Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes em 2014.
Como Diretor e roteirista, Tiago assina o premiado curta-metragem “Urânio Picuí” (2012) e o seu primeiro longa-metragem de ficção Azougue Nazaré. Vencedor de melhor filme na Brigth Future Competition do festival de Rotterdam em 2018. Além de acumular mais de 20 prêmios e mais de 40 festivais internacionais.
Atualmente Tiago Melo está em fase de pre produção do seu segundo longa, uma ficção científica chamada de “Yellow Cake”.

SOBRE A LUCINDA FILMES
Fundada por Leonardo Sette, a Lucinda Filmes vem se consolidando como uma importante produtora brasileira. “Poucos Raivosos”, dirigido por Isabel Penoni e Leonardo Sette, estreou em 2012 na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, e participou de diversos festivais nacionais e internacionais, com destaque para o prêmio de Melhor Filme (Bill Douglas Award) no Glasgow Short Film Festival. Outro destaque é a distribuição do longa “As Hiper Mulheres”, também dirigido por Leonardo Sette, que foi exibido nos festivais de Roterdã, Toulouse, Berlin (NATIVe programme), entre outros. A Lucinda é também produtora associada do longa “Ventos de Agosto” de Gabriel Mascaro, que teve estreia mundial no Festival de Locarno em 2014, onde recebeu Menção Especial do Júri. “Ventos de Agosto”, viajou por mais de 30 festivais internacionais, onde destacamos os prêmios de Melhor Filme no Festival de Amiens e no Festival de Istambul.

SOBRE A URÂNIO FILMES
A Urânio Filmes é uma produtora independente brasileira com sede na cidade do Recife com foco na produção cinematográfica e supervisão musical de obras audiovisuais. Fundada pelo Produtor/Diretor Tiago Melo e pelo Produtor Gustavo Montenegro, a empresa atualmente se dedica a distribuição do longa-metragem de ficção “Azougue Nazaré” (direção e roteiro de Tiago Melo); à pré-produção do longa-metragem de ficção “Yellow Cake” (direção e roteiro de Tiago Melo); e aos desenvolvimentos do longa documental Um Romance Que Ninguém Leu” (direção de Juliano Dorneles) e do longa de ficção “Estrada Irineu Serra” (direção de Tiago Melo em parceria com Pedro Sotero).

*Crítica originalmente escrita no Festival do Rio 2018 e ampliada no Festival de Aruanda 2018 em 10 de dezembro de 2018 (em ambos Festivais o filme saiu multipremiado).