Baixo Centro

Periferia, Mon Amour

por

26 de janeiro de 2018

“Baixo Centro” de Ewerton Belico e Samuel Marotta e produzido pela 88 Filmes e foi o quinto filme inédito exibido na Competição da Mostra Aurora na 21° Mostra de Cinema de Tiradentes, e surpreendeu completamente por sua fascinante proposta diferenciada em relação à poética do não-dito. Com fotografia e trilha sonora irretocáveis, além de uma atuação inspiradíssima de seu protagonista Alexandre de Sena (“O Nó do Diabo”), o filme transcende as raias do esperado dentro de uma competição e exibe um resultado maduro e inquietante perante a significação geral da produção nacional. Desde já uma das maiores apostas para prêmios nesta edição da Mostra de Tiradentes.

25335025658_496550c86e_k-1

A princípio um filme de extrema simplicidade, a narrativa acompanha de maneira bastante natural alguns personagens de uma zona urbana que poderia ou não ser considerada uma comunidade periférica, mas que justamente possui sua condição periférica revista entre apego aos valores do passado e atropelo da modernidade. Assim como a ambientação ganha duas gamas de significados, seus personagens a transitar por estes cenários também se permitem avolumar camadas sobrepostas de uma evolução indesejada e difícil de se lidar. Todos lidam com um saudosismo do que deixaram para trás ou lhes foi tirado e não sabem como recuperar, ao mesmo tempo em que estão diante de uma modernidade assustadora e indiscriminada, que perdeu o senso de comunidade e de vizinhança.

FB_IMG_1516965106014

É esta dicotomia sociológica diante da qual a fotografia se torna tão inventiva, não à toa é Leonardo Feliciano, o mesmo responsável pelo recente sucesso multipremiado de “Arábia” de Affonso Uchoa e João Dumans, e dos dois primeiros longas-metragens de Adirley Queirós (“Branco Sai Preto Fica” e “A Cidade é Uma Só?”). A dimensão dada aos quadros do filme ganha matizes ambivalentes, pois ao mesmo tempo que transforma a aparente decadência de becos grafitados e lajes mal acabadas em exercício de estilo, preenche a linha do horizonte com panorâmicas de colinas iluminadas pelas casas acesas à noite como um mar de luzes, como uma Paris periférica, como um Brasil quente a acender uma noite outrora fria. Esta elegância das luzes amareladas que invadem os enquadramentos e pintam de sépia os personagens notívagos é uma bem-vinda influência neon noir que acrescenta ao currículo de Leonardo um trabalho mais nas entrelinhas e subtextos da imagem. Cada quadro um acerto. Cada ideia um respiro, como no início com a maravilhosa inserção de fotos em movimento como se numa técnica de stop motion.

Outra que acerta em cheio é a trilha sonora, toda preenchida de funk e hip hop das quebradas, inclusive com participação de algumas performances das próprias intérpretes. Cada letra de música complementa a história, que quase não possui diálogo — e os diálogos ‘Tarantianos’, versando em torno de algo que aparenta ser sobre o nada, não significam que deixe de representar muita coisa. Muitos deles traçam uma melancolia ao mesmo tempo reivindicada pelo direito de se sentir em luto pela perda da identidade do passado e ao mesmo tempo um existencialismo social que alfineta em cheio mudanças recentes nos paradigmas de classe que já estão ameaçadas perante o governo atual.

E que atuação segura e estelar de Alexandre de Sena, ator que já vinha de um reconhecimento recente quando ganhou melhor ator coadjuvante pelo filme “O Nó do Diabo” no 50° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, e que coincidentemente havia reprisado ontem aqui na 21° Mostra de Cinema de Tiradentes. E rever “O Nó do Diabo” um dia antes desta preciosidade “Baixo Centro” foi catártico e revelador do aproveitamento de um ator que potencializará muitos mais protagonismos no cinema. E o filme o potencializa, com uma excelente direção de atores e de corpos, através de experimentações rítmicas quase de dança entre os artistas do elenco, como a cena de sexo inicial, a briga entre os amigos e a sequência com uma personagem trans.

Contudo, é de Alexandre, por sinal, um dos maiores desdobramentos catalisadores da obra, pois o ator encarna uma espécie de duplicidade de personagens. Ao mesmo tempo que dá vida a uma personificação mais hipster e segura do futuro, que possui uma namorada diferente no início do filme, também empresta sua credibilidade a outra persona bem mais pessimista e presa aos arquétipos sem saída dos conceitos anteriores da comunidade da qual não consegue se desprender, acompanhado de outra namorada de personalidade radicalmente oposta (vale dizer que mesmo que os protagonistas sejam homens, as personagens femininas possuem excelente desenvolvimento que jamais recai no lugar comum ou no clichê). E esta dicotomia muito bem aproveitada de dois Alexandres é crucial para se entender e apaziguar o final do filme, o qual este que vos escreve não concordaria na teoria, sob o receio de reiterar a violência de velhas narrativas, mas, no caso em tela, como recai sob a metáfora da divisão de personalidades contidas no mesmo ator, torna-se completamente compreensivo e coerente com a narrativa. Vale mencionar que antes deste final mais impactante o filme ainda reserva uma das cenas musicadas mais líricas de montagem criativa para representar o povo por trás deste conto urbano.

Há toques sganzerlanianos à la “Periferia, Mon Amour”, com requintes de existencialismo nouvelle vagueanos como “O Ano Passado em Marienbad” de Alain Resnais, e uma extensão mais introspectiva da linguagem inaugurada por Jeferson D no cult “Bróder”. Além de ampliar o escopo da fotografia das produções mineiras à la Filmes de Plástico, também diversificada por inúmeras outras produtoras há de exemplo Pepeca Pictures e 88 Filmes, em questão no caso deste filme agora, como assinatura conceitual no cinema nacional.