Balanço Almanaquista do 3º Dia da 39ª Mostra de SP

A Terra e A Sombra; Ixcanul; Carta Branca; O Espelho e O Prefeito

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25 de outubro de 2015

Dia de fortes emoções com surpresas e promessas, desde o vencedor do Caméra D’Or em Cannes 2015 com o diretor estreante César Augusto Acevedo, “A Terra e a Sombra”, com trama ambivalente tanto intimista e pessoalmente autobiográfica quanto denunciativa em termos sócio-políticos, sobre a perda da casa, da mãe e do trabalho; o selecionado da Guatemala para tentar concorrer ao Oscar 2016 de filme em língua estrangeira “Ixcanul”, com sensível história focada em mãe e filha e superstições que cresce para além do roteiro em belíssimas locações como um vulcão; o provável sucesso pop de “Carta Branca”, sobre professor que está ficando cego e engana a escola e alunos; e a sessão conjunta de “O Prefeito” e “O Espelho”, dois dos quatro filmes do Projeto Tela Brilhadora.

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“A Terra e a Sombra” do colombiano César Augusto Acevedo foi o grande vencedor do Caméra D’Or em Cannes 2015, e, apesar de estreante, teve a honra de ver seu filme não apenas ser exibido na Semana da Crítica de Cannes como ter superado as previsões que indicavam as inovações técnicas de “Son of Saul” como ganhador. Na verdade, este crítico confessa ter começado os vinte primeiros minutos um pouco contrariado, talvez pela alta expectativa frente ao prêmio que ganhou, mas de fato o filme começa a ganhar o espectador a partir de sua segunda terça parte, com pequenas grandes cenas minimalistas e muito emotivas, apesar da predominância seca do tema. Seca, aliás, literal, pois retrata a dura vida de cortadores de cana de açúcar na Colômbia, o que já deixou um jovem pai de família doente, no que sua mãe e esposa são quem cuidam de tudo e trabalham arduamente nos campos no lugar dele. Isto até o avô, que outrora os abandonou, chegar para ajudar. Com elenco quase todo formado por não-atores, com exceção da nora, os enquadramentos estão sempre em pequenos movimentos através das janelas, portas e plantações, como se dissessem que a vida continua a despeito daquelas pessoas. E a sucessão de cenas no último terço de projeção como a do sonho com o cavalo e a impressionante sequência da queimada realmente alcançam o espectador. Mesmo sem se discutir aqui o merecimento ou não do Caméra D’Or, sem contar que já acumulou outros quatro prêmios internacionais, é graças a láureas como estas que a filmografia Colombiana sem suporte nenhum de seu governo consegue visibilidade internacional para continuar a se desafiar.

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“Ixcanul” de Jayro Bustamante, indicado da Guatemala para a corrida do Oscar de filme estrangeiro em 2016, é um filme sensível sobre um tema super pesado que trata de modernidade versus tradição: linguagem, ritual, perda, escolhas, migração e principalmente a condição da mulher enquanto ser social e enquanto força motora e matriz da natureza. Tanto a personagem da mãe quanto a da filha de protagonistas são mulheres incríveis, que a seus modos e dentro de suas possibilidades tentam sobreviver nesse mundo machista e ditado por esse capitalismo selvagem. Uma das primeiras grandes surpresas da Mostra, para muito além de apenas uma exibição de curiosidade turística para o espectador sobre uma cultura alheia, cada cena em que se supõe “somente” se introduzir mais um uso e costume da região, acaba ampliando a dramática cênica de forma imprevista e ousada. Além de altas nuances na discussão sobre sexualidade e sensualidade em mulheres do campo, ambas, mãe e filha, filmadas em fotografia delicada e edificante, para expor tabus estereotipados que aos poucos são vencidos. Há sim uma inevitável melancolia de como a ignorância de personagens tão reais e tão pobres podem ser tão manipulados e injustiçados socialmente, mas esta melancolia nunca advém dos próprios protagonistas, pois eles são enrijecidos e emponderados pelas mazelas da vida. Além de uma fotografia arrebatadora com amplas tomadas rurais e até vulcânicas. Imperdível.

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“Carta Branca” do polonês Jacek Lusinski é um filme mais voltado para o público comercial que pode emocionar alguns espectadores em busca de uma história edificante baseada em fatos reais, com narrativa mais tradicional. A obra trata de um professor que após uma terrível perda inesperada descobre ter recebido uma doença hereditária que só atinge os homens da família, que é uma cegueira degenerativa, sem cura. Como acabara de ser promovido, ele se vê diante de questões éticas relativas a manter o emprego e esconder a doença, mesmo dos outros professores, alunos e amigos. A pureza de captação de imagens e coloridos do diretor polonês em seu segundo longa metragem realmente é esplêndida na fotografia de Witold Plóciennik, alçando sua qualidade técnica a um nível hollywoodiano invejável, porém não é a sucessão de imagens o que prejudica, e sim a forma previsível como a história é contada. Para conter um lado “Ao Mestre com Carinho”, o roteiro se dá por satisfeito em destacar apenas dois alunos problemáticos, uma que simbolizaria a inteligente ideal (cuja atriz tem de fato muito carisma), mas cuja vida lhe é injusta, e o outro tipicamente malandro e que faz bullying, resumindo o mérito do professor a estes dois únicos casos rasos. Um filme satisfatório e que cairia como uma luva como futuro sucesso da “Sessão da Tarde” da Globo.

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“O espelho” do estreante Rodrigo Lima, como parte dos quatro filmes presentes na Mostra da experiência imperdível da Tela Brilhadora, é uma ótima adaptação do conto Machadiano de mesmo nome que reflete sobre identidade e a nossa imagem perante o outro e perante nós mesmos. Cheio de inovações visuais e pouquíssimos diálogos, muito mais leituras poéticas livres narradas em of, o filme traz uma tensão crescente que vai virando quase um suspense na busca do eu, cheio de superfícies reflexivas, como cachoeiras, espelhos d’água naturais, janelas, portas de vidro, ou mesmo duas palmas da mão cheias de água a refletir um rosto… Mas há a contraparte do protagonista perturbado, na pele da interpretação misteriosa de Ana Abbott, que agrega ao fio condutor não apenas a intenção simbólica de um par romântico, pois bem se sabe que o espectador se conecta melhor com uma história sempre que há um casal por quem se lutar até o fim da projeção, mas como também simboliza inúmeros significados mais complexos. Tanto uma busca pelo amor perfeito, quanto o passado de um possível amor perdido, até mesmo, a partir dos slides familiares do passado, poder significar o ideal de mulher, uma figura edipiana que vem desde a mãe. Esta intenção mais abstrata advém desde a primeira cena focalizando o pico altíssimo nas montanhas chamado de “Dedo de Deus” em Teresópolis, já que os quatro filmes da Tela Brilhadora contém metáforas com pedras e começam com algum enquadramento rochoso. Esta comunicação com o Todo-Poderoso, como na pintura do teto da Capela Sistina de Michelangelo onde o dedo do homem tenta encontrar o dedo de Deus, diferente de ser uma alusão religiosa, fala mais ao deus interno de cada um, o dono da existência de si, e como ser dono destas verdades múltiplas como se fôssemos um espelho fragmentado pode ser um fardo pesado demais para sustentar. Ao menos sozinho.

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“O Prefeito” de Bruno Safadi é mais um dos filmes imperdíveis da Mostra. Junto com “O Espelho” formam os dois melhores dos quatro que formam o Projeto Tela Brilhadora. Safadi explora a incrível premissa estrutural de filmar no ínterim da demolição do viaduto da Perimetral, parte do megalômano projeto da Prefeitura do Rio de Janeiro em modernizar todas as vias de transporte de uma só vez com BRTs e Metrôs. A locação mutante não poderia ser mais fortuita para debater as pretensões políticas do país. A interpretação prodigiosa de Nizo Neto (filho de Chico Anyzio notabilizado pelo personagem Ptolomeu na Escolinha do Professor Raimundo) como o Prefeito megalomaníaco, que deseja separar o Rio do País e torna-lo independente, acha espaço para se expandir e criticar nossa estrutura política como um todo. Este sonhador utópico com traços do clássico “O Idiota” de Dostoiévski é um visionário de pretensões fantásticas para seu governo que, porém, em meio aos entulhos de uma obra sempre inacabada, acaba obcecado por pedras. Safadi vem construindo uma carreira cinematográfica em cima de refletir o cinema, com imagem e som, há de exemplo ousadias com efeitos sonoros, aqui advindos da obra e da cabeça de Nizo, o que aumentam o grau de vertigem do espectador, bem como em determinados momentos o trabalho com fotos P&B estáticas em movimento descritas por narração em of leva a alternâncias nos instrumentos narrativos, sendo impossível não cravar a atenção do público como pinceladas numa pintura pós-moderna, porém aqui feita em rochas, como o homem, vindo do pó e de volta ao pó.