Balanço Almanaquista do 7º Dia na Mostra de SP

"A Ovelha Negra", "Para Minha Amada Morta", "Mulheres Vestindo Camisa de Homens", "Armadilha"

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30 de outubro de 2015

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Balanço Almanaquista do 7º Dia na Mostra de SP, com “A Ovelha Negra” de Grímur Hákonarson, vencedor da mostra Um Certo Olhar em Cannes 2015, sobre a rixa entre dois irmãos que não se falam há décadas e pode botar a perder toda a criação de ovelhas/carneiros sobre a qual sua cidade se sustenta na Islândia; “Para Minha Amada Morta” de Aly Muritiba, vencedor de inúmeros prêmios no Festival de Brasília, e desde já um dos nacionais mais esperados e cotados na Mostra de SP, sobre viúvo tentando lidar com o luto e que se aproxima obsessivamente de uma família de evangélicos, “Mulheres Vestindo Camisa de Homens” de Yngvild Sve Flikke, comédia romântica norueguesa que não fica devendo em nada a filmes hollywoodianos, “Armadilha” de Brillante Ma, filme catástrofe filipino sobre as consequências da passagem de furacão e maremoto e como fica a vida dos sobreviventes, infelizmente não conseguindo o filme alcançar tudo o que pretende.

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“A Ovelha Negra” de Grímur Hákonarson, vencedor da mostra Um Certo Olhar em Cannes 2015, versa sobre a rixa entre dois irmãos que não se falam há décadas e pode botar a perder toda a criação de ovelhas/carneiros sobre a qual sua cidade se sustenta na Islândia. Interessante que Grímur tenha formação cinematográfica como documentarista, pois é justamente com uma abordagem naturalista frente todas as limitações de países de pequeno porte produtivo nesta seara, como a Islândia, que se sustenta a forma curiosa de se contar uma boa história simples. Inspirado em inúmeros relatos de seu país, altamente marcado pela cultura de criação de carneiros (o título se refere a ovelha apenas pela adaptação para o português, pois no original é ‘Carneiros’), os dois irmãos da trama são tipo muito comuns por lá. O que traz diferencial à história, além do ódio mortal dos familiares, sobre o qual o filme mantém absoluto mistério para o próprio espectador ponderar, é o desenvolvimento minucioso da construção de personalidades. A princípio, ao menos fisicamente, não dá nem para se distinguir os dois irmãos, com suas cabeleiras e barbas desgrenhadas, quase eles mesmos iguais aos carneiros que criam. Mas o interessante é que de fato o título se refere mais a eles do que aos animais. Em português, então, a ótima tradução livre para “A Ovelha Negra” se encaixa perfeitamente na relação dos irmãos, pois é assim que um vê ao outro na família. Um jamais se casou e o outro teve inúmeras mulheres que não o aguentaram. Ambos projetaram suas vidas nos carneiros. A partir da terça parte da projeção então, o desafio do diretor se intensifica, juntamente com a paisagem antes pacífica do horizonte esbranquecido de gelo ir se transformando em nevascas poderosas até noite adentro, dificílimas de serem produzidas e filmadas em cena, mas que refletem com perfeição as poderosas transformações internas dos personagens até que tenham de lutar juntos contra as mesmas adversidades. O filme em nenhum momento esconde sua simplicidade ou a forma com que se põe sem se pretender grande. E é neste contraste de pequena produção que se encontra grandes personagens tão cabeças-duras quanto os chifrudos carneiros que vivem a bater de frente como parte de suas naturezas.

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“Para Minha Amada Morta” de Aly Muritiba, vencedor de inúmeros prêmios no Festival de Brasília, e desde já um dos nacionais mais esperados e cotados na Mostra de SP, sobre viúvo tentando lidar com o luto e que se aproxima obsessivamente de uma família de evangélicos. Com roteiro previamente premiado em Sundance/2013, e traz todo seu apuro estético, visual transgressor com domínio do uso de superfícies reflexivas, sejam imagens refletidas em um olho, ou em espelhos quebrados e sujos, na janela de um ônibus, ou na própria alma dos personagens e do espectador. É deste princípio que Aly constrói um suspense sensivelmente visual, onde  a câmera nunca aponta para uma direção sem significados, como nos melhores romances policiais da tradição literária brasileira. “Para Minha Amada Morta” consegue se destacar na seara, com direção refinadíssima, extremamente ligada ao roteiro escrito pelo próprio diretor, e pela fotografia de Pablo Baião, fazendo a investigação do protagonista através de antigas fitas VHS de sua falecida esposa uma saborosa metalinguagem com a própria arte de fazer cinema. Cada fita e cada foto começam a ser refletidas na espiral de loucura na melhor interpretação da carreira de Fernando Alves Pinto.

Leia texto completo: http://almanaquevirtual.uol.com.br/para-minha-amada-morta/

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“Mulheres Vestindo Camisa de Homens” de Yngvild Sve Flikke, comédia romântica norueguesa deliciosa que não fica devendo em nada a filmes hollywoodianos do gênero. Com duas duplas de protagonistas carismáticos em abundância, excelente ritmo e cores, além de uma premissa bem construída, o filme serve bem ao propósito a que se propõe. Há sim enorme potencial com o fio condutor que poderia ser explorado e desaguar em outros tipos de filme, como por exemplo uma pontinha do incrível cult deste ano “Blind”, também norueguês, porém, mesmo sem esta pretensão, é justamente a irreverência confessa que eleva o espírito do filme assumidamente pop. Duas histórias se entrecruzam: a da jovem estudante inocente que acaba reacendendo a chama criativa de seu ídolo, um escritor famoso passando pela cidade; e a da idosa escritora de apenas um sucesso, há muito tempo atrás, que procura o filho colocado outrora pra adoção e acaba esbarrando com uma artista grávida fracassada que aparentemente também não aceita muito bem sua futura criança. Apesar destas duas últimas serem mais interessantemente originais acabam ficando um pouco à sombra da preferência que a narrativa vai dando para o casal principal, o que não chega a ser um demérito, pois o encanto do filme segura bem os caminhos escolhidos. Uma obra sobre o poder e a independência das mulheres, mesmo que a sociedade ainda funcione de modo a impô-las sob a sombra da comparação com o home, daí o título.

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“Armadilha” de Brillante Ma, filme catástrofe filipino sobre as consequências da passagem de furacão e maremoto e como fica a vida dos sobreviventes, infelizmente é outra das grandes decepções da Mostra. Com uma premissa interessante, e levantando curiosidade sobre a filmografia filipina, o arcabouço da trama tenta se sustentar em três núcleos principais de sobreviventes que tentam tocar suas vidas, sempre sob ameaças de novos furacões. Um é composto pela melhor personagem, uma senhora dona de restaurante que perdeu quase todos os seus filhos, simbolizados na melhor metáfora do filme, as canecas com os nomes dos que se foram, que ela continua a lavar. É esta sutileza, sem em nenhum momento precisar dizer o que ela está passando, pois está implícito, é justamente o que falta ao restante do filme. Tirando a primeira cena maravilhosamente orquestrada, com um incêndio bastante veraz no meio das tendas dos sobreviventes, todo o restante da projeção parece impor ao espectador a tragédia que eles passaram, quando já está bem explícita na tela. E ao invés de retratá-los de forma edificante ou meramente documental, o faz a todo instante forçando uma vitimização dos mesmos, sem saber usar bem do melodrama como instrumento narrativo. Quase não deixa os personagens respirarem, com raríssimas exceções, ao invés de deixar o público sentir naturalmente aqueles dramas a se identificarem com uma dor que é universal.