Balanço da sexta noite Competitiva do 50º Festival de Brasília

"Atrás da Linha de Escudos" provoca polêmicas e controvérsias

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29 de setembro de 2017

A quinta noite de começou com a exibição hors-concours de “A Moça do Calendário” de Helena Ignez, com Djin Sganzerla e André Guerreiro que brilham intensamente com atuações inspiradas na adaptação de um roteiro original deixado para se realizar um curta-metragem pelo saudoso Rogerio Sganzerla e que agora Helena ampliou para um longa-metragem. Com uma incrível percepção social de vozes e direitos ante uma repressão política conservadora que se está vivendo, o filme transgressor e libertário foi aclamado.

Depois, uma controversa sessão. Não necessariamente pelos curtas-metragens, porém pelo longa-metragem emparelhado com os curtas. Tudo começou de forma tocante com um documentário pouco ortodoxo, em animação, para contar as perdas de uma família durante a Ditadura de 1964, “Torre” de Nádia Mangolini emocionou muita gente. Depois o curta “Baunilha” de Leo Tabosa tentou contar um pouco sobre os bastidores humanizados de quem exerce o tabu da prática do BDSM (sado-masoquismo), mantendo em segredo ainda da sociedade este lado mal-compreendido. O curta fala sobre como o S&M não é sobre o submissor e sim sobre atender as necessidades do submisso, sempre com confiança mútua e consentimento.

Talvez seja pelo fato de os curtas anteriores falarem de algum tipo de violência contra o corpo social que a falta de consentimento da violência praticada pela terceira sessão da noite tenha causado tanto alvoroço e revolta. A sessão do longa-metragem “Atrás da Linha de Escudos” de Marcelo Pedroso já havia sido bem problemática durante a noite de estreia na Mostra Competitiva. E desta vez havia sido unânime: todos se sentiram incomodados. O documentário fala sobre policiais de tropa de choque, tentando entender o lado humano deles frente suas atuações violentas para abafar manifestações públicas ante o caos político atual. O problema é que a violência desproporcional da polícia como tropa de choque já é inimiga pública número 1, e ninguém precisou sair do lugar comum para desconstruir o filme ou a si mesmo, mas a pessoa que mais deveria ter aceitado se desconstruir, ou seja, o realizador, não aceitou arredar o pé durante os debates do dia seguinte.

Pelo contrário, veio com um discurso já preparado para se defender, usando muitos argumentos planejados que podem parecer corretos nas palavras, porém não aparecem na tela em nenhum momento. O filme não possui esta complexidade que ele pensou. Não há princípio de contraditório. Apenas unilateral. Não há autodesconstrução nem dialética. O pior é continuar a reiterar o próprio discurso como infalível mesmo diante de não uma ou duas, porém uma unanimidade de críticas que choveram numa via de mão única que parecia não ressoar escuta de verdade no realizador. Sua produtora chegou a pedir desculpas em nome dele (e não digo nem necessariamente pelo filme em si, mas creio até mesmo pela postura dele durante o debate).

Hoje, quando mais de uma pessoa apontou cenas anti-éticas em “Atrás da Linha de Escudos”, como a do presídio (que por sinal pode ser processada por assessorias jurídicas de presidiários), o diretor não conseguia admitir seu erro, mas alguém disse que ele podia cortar esta cena. Ou seja, será que podem falar que a pessoa censurou? Mas uns minutos antes outro cineasta na mesa falou que mudou seu filme após a exibição dele em outro Festival. Então, se o colega do outro filme na mesma mesa consegue ter a humildade de admitir isso, por que para o outro seria censura apenas uma sugestão criativa que só poderia advir do diálogo e da troca que o Festival possibilita? Porque, convenhamos, os debates são um baita laboratório de roteiro totalmente gratuito por alguns dos melhores profissionais do meio. Por que ouvir críticas seria algo ruim?!

De fato, destaque da noite ficou para “A Moça do Calendário e para “Torre”.

 

Confira a apresentação de Helena Ignez para a estreia de seu filme:

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