Balanço do Quarto Dia

Destaque para Açúcar de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira

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10 de outubro de 2017

No quarto dia de Festival do Rio 2017, o dia começou com sessão acompanhada de debate para o novo documentário de Walter Carvalho, “Iran”, ou melhor, um doc sobre Irandhir Santos, um dos maiores quiçá o maior ator de nossos tempos, e cujo método de trabalho de imersão na interpretação é um dos mais inusitados da história. Este doc não tenta falar ou biografar sobre a vida do ator, e sim desmistificar de forma sensorial como ele imerge em suas múltiplas personas camaleônicas.

http://almanaquevirtual.com.br/festival-do-rio-2017-iran-e-um-ensaio-sobre-a-solidao-do-ator/

Depois, a Première Brasil teve a reprise do filme na Mostra Competitiva principal “O Nome da Morte” de Henrique Goldman, cujo ritmo de thriller policial parece ter agradado em sua recepção de público, conforme palavras de nosso almanaquista Rodrigo Fonseca, com destaque para atuação de André Mattos (será forte concorrente ao prêmio de ator…?):

http://almanaquevirtual.com.br/festival-do-rio-2017-andre-mattos-engole-o-nome-da-morte/

As grandes surpresas internacionais já foram mais inusitadas. “Hannah” do italiano Andrea Pallaoro, falado em francês e com a atriz britânica Charlotte Rampling pode não parecer um filme facilmente palatável a princípio, mas possui um desenvolvimento de mistério e de culpa agregados ao drama intenso e contemplativo que arrebata quem embarcar nele até o seu angustiante final. Com ritmo mais reflexivo e longas cenas de rotina, parece que vai emular o sucesso anterior com Rampling, o cult instantâneo “45 Anos”, mas na verdade toma de assalto referências a outro clássico dos clássicos mais pregresso: “Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080 Bruxelles” da saudosa Chantal Akerman. Acompanhando a lenta e melancólica rotina de uma senhora de idade, o filme guarda um segredo terrível que poderá colapsar e implodir a pessoa que olhamos tão atentamente. Uma interpretação com entrega máxima por parte de Rampling que ganhou melhor atriz no último Festival de Veneza.

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E “Bom Comportamento” é um thriller exemplar. Impossível não sentir uma grande sensação à la ‘Michael Mann’ no filme “Bom Comportamento” dos irmãos Safdie com o astro cada vez mais camaleônico Robert Pattinson, que foi forte concorrente do Festival de Cannes deste ano e que estava bastante cotado especialmente para o prêmio de melhor ator. Digo, não uma comparação em relação à história, mas sim em relação à vibe, ritmo e linguagem no geral, há muito da escola “Colateral” de ser (filme, aliás, que só cresce para mim olhando para trás). O jeito como a câmera no rosto, na pele, e membros ativos como mãos e pés e dedos ditam a pessoalidade da ação constante, pois onde a lente aponta a narrativa continua como um trem descarrilhado, atropelando qualquer obstáculo ou barreira, e reinventando soluções onde aparenta haver apenas becos sem saída.

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Enfim, a noite se encerrou com “Matar Jesus”, sobre uma jovem em busca de vingança pela morte do pai, e, por ser dirigido por uma premiada diretora estreante, talvez as pessoas estivessem esperando a típica história de vingança e um romance estilo Síndrome de Estocolmo, mas a jovem cineasta colombiana Laura Mora emprega todo o frescor de sua linguagem para tentar fugir de respostas óbvias.

Mas o maior destaque da noite foi decerto a estreia na Competitiva da Première Brasil do filme do aclamado novo cenário pernambucano “Açúcar” de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira. O filme foi aclamado por ovação de pé por longos minutos e debate um assunto caríssimo a todo brasileiro: o racismo estrutural. Com as divas da atuação contemporânea Maeeve Jinkings (que já trabalhou antes com a diretora Renata Pinheiro no incrível “Amor, Plástico e Barulho”) e Magali Biff (do recente “Deserto” de Guilherme Weber, ainda em cartaz no circuito aberto de salas de cinema).

http://almanaquevirtual.com.br/festival-do-rio-2017-acucar-promete-ser-o-filme-mais-provocativo-da-premiere-brasil/

http://almanaquevirtual.com.br/festival-do-rio-2017-acucar-e-o-filme-mais-aplaudido-da-premiere-brasil/