Balanço do Quinto dia no Festival do Rio 2017

Destaque vai para Animal Cordial e Verão 1993, segundo almanaquistas

por

12 de outubro de 2017

O dia começou com um filme belíssimo e duplamente premiado no Festival de Berlim, “Verão 1993” de Carla Simón, belíssima tomada sobre a perda na infância através dos olhos de quem mais sabe: as crianças. Duas atrizes-mirins inspiradíssimas guiam a trama de modo a jamais serem diminuídas, com câmera baixa sempre para elas serem a referência do tamanho dos objetos em tela, e os adultos serem mais secundários ou cortados pela metade de acordo com a necessidade de suas presenças tomarem ou não o quadro. Filme de época com extrema consciência e inspirado na infância da própria diretora quando perdeu os pais para a Aids no início da década de 90, quando ainda não se sabia quase nada sobre a doença. Sem falar que o elenco é diversificado, contendo de membros da família da diretora, já que a história é bastante real para ela, ou mesmo até artista com nanismo, que em nenhum momento são tratados de forma diferenciada pelo roteiro, e sim com naturalidade que merecem como pessoas que orbitam aquele universo e o filme não se torna sobre isso.

No mesmo dia, a Première Brasil Competitiva reprisou “Açúcar” de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, com sessão acompanhada de debate no Cine Odeon. O filme é o terceiro a abordar expressamente questões de classe e raça como mote principal, o que é um grande acerto do Festival, só faltando para o ano que vem em diante a curadoria atentar também para pessoas negras na direção e roteiro também, não apenas como tema abordado na frente das câmeras. Ainda assim, é interessante notar que este Festival teve um recorde em outra questão, pois foi a Mostra Competitiva principal dentre todos os Festivais de destaque do país que mais teve filmes dirigidos ou codirigidos por mulheres, mais da metade da competitiva principal. E inclusive tendo sido estas mulheres diretoras à frente ou codirigindo os três filmes supracitados a abordarem temas tidos como mais periféricos na tradição do audiovisual brasileiro, o que seria inconcebível de tomá-los como periféricos, porque desigualdade e racismo estrutural praticamente formam todos os pilares de nossa Nação escravocrata, e sabemos bem que nossa população possui menos da metade de pessoas brancas, especialmente masculinas (em menor número), e a maior parcela de mulheres, especificamente mulheres negras, a maior parcela da população. Então por que o predomínio das narrativas ainda permanece sendo contado pelo ponto de vista de homens brancos?!

Por fim, recomenda-se altamente o filme “Pop Aye” de Kirsten Tan, filme coproduzido pela Singapura e Tailândia, e ainda assim cheio de metáforas sobre a modernização desses dois países em detrimento de seu povo. Uma história cheia de afetos, candura e amargura usando de flashbacks para dinamizar a narrativa. Para quem ficou curioso pelo título, é porque a história gira em torno de um arquiteto de sucesso que perdeu suas raízes ao longo do caminho, e, logo quando está para ser substituído na empresa pela nova geração e seu casamento está abalado, ele encontra um elefante que acredita ser seu animal de infância de quem se perdeu longos anos atrás. Numa aventura de beira de estrada, ele tentará levar o elefante de nome Pop Aye, em homenagem ao Popeye dos desenhos animados, de volta para sua terra natal. No percurso, irá se deparar com vários tipos estranhos que lhe ensinarão pequenas alegorias metafóricas de vida.

Além destes filmes, a Première Brasil ainda teve cobertura com vídeos pelo almanaquista Rodrigo Fonseca, com o filme “O Animal Cordial” de Gabriela Amaral Almeida:

 

http://almanaquevirtual.com.br/festival-do-rio-2017-animal-cordial-sublinha-o-papel-do-terror-brasileiro/

Além de entrevista com o diretor de “A Ciambra”,  Jonas Carpignano:

http://almanaquevirtual.com.br/festival-do-rio-2017-diretor-de-a-ciambra-fala-sobre-o-real-no-cinema-italiano/

E vídeo sobre o filme “Pequena Grande Vida” de Alexander Payne:

http://almanaquevirtual.com.br/festival-do-rio-2017-downsizing-e-um-filme-de-e-sobre-desequilibrios/