Balanço do Sétimo Dia no Festival do Rio 2017

Destaque para A Festa e Sexy Durga

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13 de outubro de 2017

No sétimo dia de Festival do Rio, começamos com o impactante “Sexy Durga”, produção independente indiana que está longe do cinema comercial à la Bollywood cheio de musicais que as pessoas possam estar acostumadas. Este filme de Sanal Kumar Sasidharan tomou Roterdã 2017 de assalto, e não à toa levando o prêmio de melhor filme. É um soco bem dado no estômago, com sadismo e aflição, que só não se tornam tortura auto imposta ao espectador, porque partem de denúncias reais sobre opressão permissiva de uma violência introjetada na desigualdade social. Para quem já viu o documentário disponível na Netflix “A Filha da Índia” sabe alguns destes problemas estruturais na própria base da cultura indiana. O doc falava sobre a história real em torno de um terrível estupro seguido de morte brutal, onde a jovem vítima cometeu a única idiossincrasia de ter pego um ônibus à noite. Há uma opressão de gênero tão forte na Índia, especialmente pelo sistema de castas e pelas diferenças com que tratam as diversas etnias e religiões lá presentes, que homens podem se achar no direito de fazer o que quiserem com uma mulher. Se ela estiver andando sozinha na rua à noite poderia ser interpretado que ela não é uma mulher de respeito, que não poderia ser casada, pois nenhum homem deixaria ela sair naquela hora…e outros absurdos ainda maiores do que isso. O que mais chocava no documentário era que os perpetradores já aprisionados enquanto esperavam o longo julgamento não sentiam qualquer remorso nem se achavam culpados por nenhum crime. Pois “Sexy Durga” vai mais fundo nesta ferida, com narrativa ficional de tensão constante como se todo o filme fosse um clímax só, acompanhando imagens intermitentes de um culto religioso onde apenas homens podem celebrar os deuses, em ritos extremamente agressivos uns com os outros e com seus próprios corpos, e noutro momento a narrativa segue um casal que pede carona na estrada e vai ser horrendamente assediado por todos: por quem dá a carona, pela polícia, e até por quem na teoria estaria ali para tentar socorrê-los. Todos vão julgá-los, sempre com as piores conclusões possíveis, e fazê-los passar por constrangimentos morais e psicológicos que imputam violências bastante físicas ao corpo deles, mesmo que não encostem nem um dedo em nenhum dos dois. Uma denúncia pesadíssima bem distante do que se está esperando ver da filmografia do país, e que põe o dedo em todas as feridas abertas que a cultura, a religião e outras instituições basilares continuam a permitir esta violência legitimada, especialmente de gênero e classe.

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O segundo filme da noite foi uma surpresa também ,porém bastante desagradável. Bem que era de se estranhar uma Première Brasil tão fantástica, onde até um filme mais “fraco” ou “problemático” ainda assim é alto nível, com produções impecáveis, quando geralmente há um ou dois longas-metragens que sequer mereceriam ou deveriam estar ali. Ou por serem terríveis ou deslocados no perfil do Festival. Este “Como é Cruel Viver Assim” de Julia Rezende (diretora do soberbo “Ponte Aérea”, vale dizer) é tudo isso e mais um pouco. O filme não começa mal, e tem elenco de dar orgulho, passeando por Fabíula Nascimento e Milhem Cortaz (ambos do cult máximo “O Lobo Atrás da Porta”), Zezeh Barbosa, além da diva máxima da Cia. OmondÉ e mais lembrada pelo Cilada: Debora Lamm (que ao lado de Grace Passô evoluem o Teatro brasileiro hoje em dia). Porém, os risos iniciais vão começando a perder espaço para falta de ritmo, subaproveitamento de personagens, mais de um anticlímax que pretendem ser reviravoltas inesperadas porém não são bem trabalhados o bastante para isso e… O pior mesmo é a péssima representação social na construção de personagens. Em primeiro lugar porque você começa feliz quando vê a plaquinha do trem dizer que a história se passa em Nilópolis e pensa que enfim filmes do porte da Produção O2 estariam expandindo a geografia humana dos típicos filmes comerciais e que estaríamos vencendo a barreira das noções pré-concebidas. Mas não… Infelizmente a visão que o filme possui de seus cidadãos trabalhadores é de que se todos tivessem a oportunidade de cometer um crime para “se dar bem”, todos cometeriam. Esta é a sinopse: um grupo de pessoas decide sequestrar um ricaço. E ponto. É como se uma vez levado ao pé da letra, então, mesmo que sem querer, o filme daria a impressão de que todo morador de Nilópolis aproveitaria uma chance de lucrar com a ilegalidade.

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Já o último filme da noite conseguiu a proeza de ser a sessão mais engraçada de todo o Festival, superando até a última vez em que mais havia se gargalhado coletivamente esta semana que fora com “Eu, Pecador” de Nelson Hoineff. O filme foi “A Festa” de Sally Potter, ganhador em Berlim este ano do Guild Film Awards. Todo em preto e branco, e com elenco estelar, a trama segue vários casais numa festa de celebração pelo novo cargo alcançado pela anfitriã interpretada pela diva maravilhosa Kristin Scott Thomas (“O Paciente Inglês”, “Quatro Casamentos e Um Funeral”, “Há Tanto Tempo Que Te Amo”), selecionada como a nova Ministra da Saúde na Inglaterra. Ao longo da noite, as revelações e brigas vão começando a separar os casais compostos por ela e Timothy Spall (saga “Harry Potter”, “Sr. Turner”), Patricia Clarkson (“DogVille”, “Vicky Cristina Barcelona”) e Bruno Ganz (“A Queda”, “As Asas do Desejo”, “Nosferatu”), Cherry Jones (“Transparent”) e Emily Mortimer (“Match Point” e “A Pantera Cor de Rosa”), e por fim Cillian Murphy (“Dunkirk”, “A Origem”, “28 Dias Depois”) e uma personagem surpresa. O desenrolar é sutil e vai escalonando de forma natural. A trilha é um caso à parte, pois aparece de forma diegética de acordo com que o protagonista vai trocando os discos de vinil para harmonizar com os ânimos da casa, o que depois será parodiado pelo próprio filme quando outros personagens também começarem a usar a vitrola. Isto sem falar que há uma arma escondida por um dos personagens, usada como ponto de tensão em vários momentos, mas o filme corta muito mais com a força das palavras e dos diálogos do que com qualquer agressividade exposta. Perpassam pela tela debates que desconstroem as hipocrisias da sociedade britânica toda quadrada e pomposa. Desde debates sobre saúde pública, sexualidade e feminismo. Não à toa a diretora Sally Porter costuma escolher personagens femininas fortes para trabalhar, como já havia feito com seu maior sucesso: “Orlando – A Mulher Imortal”. Aqui, percebe-se a influência da diretora em ter inúmeras personagens sólidas e construídas com complexidades próprias, quando em qualquer outro filme deste tipo todos os arquétipos aqui vistos em geral seriam concentrados apenas em uma única personagem feminina, que seria a meio sarcástica meio cínica da festa, destoando dos demais.

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Nosso correspondente almanaquista Rodrigo Fonseca também conferiu mais um filme da Mostra Competitiva da Première Brasil, “Unicórnio” de Eduardo Nunes, com Patrícia Pillar:

http://almanaquevirtual.com.br/festival-do-rio-2017-unicornio-celebra-o-silencio/

E Motorrad:

http://almanaquevirtual.com.br/festival-do-rio-2017-motorrad-e-um-atalho-estetico-para-o-espanto/

E entrevista com o diretor de “Motorrad” Vicente Amorim:

http://almanaquevirtual.com.br/festival-do-rio-2017-motorrad-ronca-seus-motores-no-odeon/