Balanço final do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Reflexões e revoluções crítico-sociais

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29 de setembro de 2017

Apesar de o resultado do 50º Festival de Brasília ter na teoria satisfeito a gregos e troianos, premiando um pouco de todos os filmes que revolucionaram a edição com olhares que na verdade sempre existiram no cinema, mas talvez só agora estejam sendo desinvisibilizados da nebulosa hegemônica do predominante cinema comercial, o que parece ter ficado quando a poeira assentou foi apenas um chorume ingrato reclamando mais das desconstruções propostas pelos debates sobre os filmes do que sobre os filmes em si. Pois realmente a excelente curadoria deste ano, estendida entre curtas e longas na mesma sessão, e com o acréscimo dos debates dos dias seguintes à exibição, realmente ajudaram a contar uma história.

E pareceu que “Arábia” de Affonso Uchoa e João Dumans foi a cereja do bolo da história extra-filme que coroou a progressão narrativa sobre o estado atual do proletariado brasileiro ante as injustiças políticas que ressoavam efeitos em todos os outros filmes competindo. Cada qual à sua maneira. Dos afetos transpostos no soterocachoeirano “Café com Canela” de Glenda Nicácio e Ary Rosa, trazendo à tona a filmografia quase nunca projetada em longas-metragens na tela grande do grande recôncavo baiano lá da belíssima Cachoeira. O documentário íntimo e pessoal ao mesmo tempo político que contrapôs pai e filha, sendo a filma a cineasta e diretora de fotografia Heloísa Passos. Sem esquecer os usos inovadores de cinema de gênero, como sci-fi por “Era Uma Vez Brasília” de Adirley Queirós ou o terror para falar de racismo em “O Nó do Diabo” de Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Tribuzi. Aos curtas revolucionários desde o distópico “Chico” dos irmãos Eduardo e Marcos Carvalho, ao hilário “Mamata” de Marcus Curvelo, à forte denúncia sobre violência contra a mulher em “Tentei” de Laís Melo e a lúdica catarse contra a violência de “Peripatético” de Jéssica Queiroz, ou mesmo a redescoberta da filmografia do Piauí como das produções de Dedé Rodrigues no documentário “Carneiro de Ouro” de Dácia Ibiapina, sem esquecer o inovador uso de animação em documentário para contar as perdas de uma família na Ditadura Militar brasileira em “Torre” de Nádia Mangolini. Ou a desconstrução de gênero e do machismo estrutural como no drama de performances e artes metalinguísticas “Pendular” de Julia Murat (o único dos supracitados que saiu sem nenhum prêmio). E não deixemos de fora o polêmico e controverso e extensamente debatido “Vazante” de Daniela Thomas, que mesmo após gerar reações indignadas, saiu com dois prêmios: direção de arte e atriz coadjuvante para Jai Baptista.

Porém, mesmo com toda esta riqueza descrita acima, o rebuliço de imprensa e cinéfilos só consegue falar por uma semana após o Festival mais sobre os debates acalorados que desafiaram o lugar comum e o monopólio dos meios de produção hegemônicos do que sobre a riqueza dos filmes em si.

Achei que o papel de nós, críticos, significava por essência abrir novas reflexões sobre a relação sujeito e objeto da resultante que denominamos Arte ou produção cultural, ou mesmo sobre todas e quaisquer questões da vida em geral que encaremos criticamente (como a política, por exemplo).

Mas o que estou vendo é uma forte resistência e/ou repreensão justamente quando debates críticos estão sendo abertos por vozes que antes não só não eram estimuladas a estar presentes na discussão sobre essas resultantes, como também representadas na própria origem da produção destas resultantes. Sim, vozes como de gênero, raça, classe e liberdade sexual.

O que estou vendo e ouvindo cada vez mais é chamar de censura ou conflito o levante de tais reflexões que, por sinal, deveriam ser levantadas por todos, e não apenas pelos respectivos a cada questão. Porque diz direito a todos, a um Estado Democrático de Direito que está se esvaindo em decisões como criminalização do aborto, cura gay, e reformas trabalhistas que cada vez mais parecem escravocratas. Todos parecem interessados em gritar Fora Temer, mas estou começando a entender que isso está virando uma perigosa redução de inúmeras questões que esta expressão abarca, e que poucos parecem interessados em expandir. Fora Temer quer dizer Fora Racistas, Fora machistas, Fora homofóbicos, Fora estupradores, Fora fascistas, Fora qualquer coisa que ameace nossas liberdades.

Aí alguns podem dizer que isso não tem nada a ver com cinema, o qual estaria sendo “esquecido” das discussões. Mas tem TUDO a ver com cinema. Cinema é vida, é gente, gente que faz e que assiste, e que segue adiante, transformado. Sem gente, não tem cinema. E parece muito fácil para todos aceitarem unanimemente e de forma incontroversa que Fora Temer tem tudo a ver com cinema, com artes em geral, quando todos bradam lindamente em Festivais como este em TODAS as sessões ou mesmo num show internacional transmitido ao vivo como o Rock in Rio. Mas cadê a coerência quando estas pessoas censuram como não sendo cinema todos os outros brados incorporados na expressão maior?

Apoio e defendo e quero ver mais e pra sempre toda e qualquer colocação e Reflexão que abarque estas questões. Estas colocações devem, aliás, ser colocadas por todos nós, porque quem está categorizando e esperando que apenas um nicho as coloque também está cometendo discriminação, discriminação aliás até mesmo com seu próprio senso crítico, ferido e esvaziado sem se colocar criticamente no lugar do outro.

Muita coisa está sendo falada (ainda) sobre o 50° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e especialmente sobre quem nem esteve lá…(vale lembrar que o site do Festival aos poucos está dando upload dos debates na íntegra).

Mas há muita coisa sendo esquecida para focarem tanto na parte que erroneamente está sendo chamada de censura. NINGUÉM falou para “não se lançar um filme”. A respectiva diretora estava super receptiva e agradecendo inclusive pelas críticas (em correspondência às quais ela chegou a pedir desculpas e dizer que não faria o mesmo filme depois de ouvir tudo o que foi falado). Ela respondeu a todas as colocações e agradecia sempre. Aliás, a primeira fala dela já aquiescia ter ouvido questões desde a noite anterior após a primeira exibição e que tinha ido ao debate para poder ouvir melhor.
PORÉM…
Ninguém está falando sobre inúmeras coisas boas que foram muito mais propositivas do que só desconstrutivas:

Por exemplo, no meio do debate se propôs trabalho conjunto e Daniela até falou que ia pensar nisso. Estivesse ela apenas sendo educada ou demonstrando uma intenção de fato, o que importa é que ela reconheceu o filme dela como um canto dos cisnes de uma narrativa predominantemente branca quase que exclusivamente narrada por brancos e que ela estava feliz em ver a história mudando e começando uma nova era de diversidades de fala. E ninguém está falando disso. Que ela pediu desculpas pelo filme. Que ela falou que não faria de novo. Que disse que pensaria melhor na equipe criativa nas próximas colaborações… Mas o inverso deste discurso está sendo usado para deslegitimar as desconstruções que mais enriqueceram tudo isso para o cinema presente. Ninguém falando que não foi só diretor branco desconstruído de forma enriquecedora e aceitando tudo, ao invés de falarem como se tivesse se dividido num fla flu….Que não foi isso. “O Nó do Diabo” é o perfeito exemplo que aceitou se desconstruir em mais de uma mesa por sinal, como foi a extra na UnB falando sobre cinema e racismo.
Então antes de pré-julgarmos reações enriquecedoras que talvez não tenham sido ouvidas pelo cinema comercial hegemônico por tempo demais, gerando as tenebrosas estatísticas da GEMAA e Ancine sobre 0% de mulheres negras nos roteiros ou direção dos longas lançados no circuito até o ano passado, que tal nos unirmos mais para mudar essa realidade desproporcional e injusta que precisa ser a principal meta aqui?!?!

E, já que a palavra Iracunda continua no foco de todas estas polêmicas, desde que seu uso foi proliferado e interpretado de maneiras opressoras e injustas para se referir aos debates enriquecedores do 50° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (desviando das questões de fato levantadas), segue uma reflexão adicional:

Super respeito a colocação da palavra para quem acredita não ter sido mal intencionado, mesmo que possa discordar de pontos na forma com que a colocação possa ter sido referida.
Mas o problema maior com a palavra é vê-la ganhando outros significados dos usos dela espalhados nos balanços do Festival de Brasília e respectivas reações a ele que mais parecem eufemismos para deturpar principalmente a participação das mulheres nos debates, como uma forma mais enfeitada e disfarçada de chamar mulheres de histéricas. — Palavra há muito superada pela psicanálise e que hoje caiu num lugar comum esvaziado e até ofensivo, como se fosse muito fácil desqualificar falas de mulheres se elas sairem do decoro esperado delas, num oposição total ao que é esperado dos homens, que podem vociferar sem serem considerados histéricos.

E repito que não estou apontando que essas intenções por trás da palavra vieram de qualquer pessoa que esteja lendo esse post agora, mas uma vez difundida, começou a haver uma subversão um pouco cruel da narrativa.
E dai veio a força da reapropriação da palavra.
Especialmente se um homem a usa. Pois ela é ainda mais pesada para as mulheres.

Principalmente se levarmos em consideração que foi usada no Festival de Brasília inequivocamente para as mulheres negras, já que as mídias reproduziram mais as contestações das pessoas negras e principalmente das mulheres do que das pessoas brancas, quiça dos homens brancos, dos quais também vieram na mesma proporção manifestações indignadas fora da ordem do microfone — pelo que, num caso específico que posso apontar, até se pediu desculpas também assim como igualmente todas as outras pessoas pediram desculpas se acharam que puderam ser mais incisivas. Foi por exemplo no debate com Pedroso sobre Atrás da Linha de Escudos que um colega jornalista irrompeu indignado– e com toda razão– de que a formalidade do discurso do diretor podia parecer muito bonita mas não estava na tela! Frase esta que bradou mesmo sem microfone. Mas ninguém vai chamar homem branco de iracundo né?!?!

Aí peço Vênia por apontar então a necessidade de atualização da velha palavra resgatada, pois ela tomou vida própria enquanto as pessoas viraram as costas para ela, mas basta uma mínima busca por análises e estudos do uso da palavra que verás como ela foi usada para isso e até pior.

Até porque convenhamos que o signficado da palavra como adjetivo equivalente a raivosa não é muito melhor que histérica, mas esta segunda palavra possui uma acepção ainda mais preconceituosa em nossa língua, especialmente se agregada à anterior.