Banco Imobiliário

As Flores de Plástico Não Morrem

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21 de outubro de 2016

Banco-Imobiliario-790“Banco Imobiliário” ou “Monopoly” na versão original era o nome de um famoso jogo de tabuleiro onde se construía uma cidade de mentirinha com dinheiro de mentirinha. Eis que agora o nome foi cunhado para um documentário sobre o real Mercado imobiliário e sua expansão urbana constante, gerando empregos ao fomentar a economia, porém ao mesmo tempo um precipício social através de especulação hipotecária e desapropriações de famílias humildes. Mera consequência evolutiva ou responsabilidade criminosa de especuladores de Mercado? São apenas algumas das perguntas que o cineasta Miguel Antunes Ramos tenta responder em seu longa de estréia.

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Em um universo multipolarizado em mosaico, ainda que de início um pouco didático, o documentário tenta mostrar vários lados de uma mesma moeda, perpassando a vida de alguns corretores que trabalham desde a aquisição predatória dos terrenos de construção para futuros grandes condomínios de vários blocos; bem como o lado dos incorporadores, que especulam o mercado financeiro para obter lucro. Ou mesmo o marketing de venda com maquetes e vídeos fantasiosos que vendem uma vida “melhor”, como se transformassem a vida humana em marionetes dessas mesmas maquetes. Dos apartamentos de luxo com mais de cem/duzentos metros quadrados aos humildes e risíveis dezoito metros quadrados que alguns corretores têm a coragem de vender como cômodos e necessários para parte da população.

A venda pelos corretores mostrada de diversas formas durante a projeção nada mais é do que uma performance. Muitas vezes hilária por sinal. Vide os corretores que se dividem em dois personagens para vender, com nome de guerra e tudo. Os corretores geram empatia, os incorporadores não. Isso fala sobre a construção da dialética. Ou seja, diante da decisão consciente de quase não mostrar o lado do povo enganado pelas incorporadoras, com raras exceções onde denunciam os atrasos na entrega da obra e as inflações constantes dos juros sobre juros hipotecários, a câmera vira o único contraponto desse mercado multimilionário. Tanto que o humor que volta e meia surge na tela serve mais como catarse do que para ridicularizá-los.

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Será que os próprios entrevistados tinham consciência de seu próprio ridículo? Ou estariam cegos pelo auto embevecimento do ego desse mercado? Uma coisa é certa: eles e suas táticas são sim fascinantes, e os realizadores com certeza perceberam isso.  Apesar de às vezes se perderem debruçados neste fascínio natural, na maioria das vezes recuperam as rédeas com a edição e montagem deixando os personagens se exporem ao ridículo por conta própria no riso reparador do espectador. O carisma do personagem central da narrativa fragmentada sustenta bem o direcionamento da evolução reflexive. Isto porque o protagonist, mesmo sendo um dos corretores, consegue mostrar um lado humano facilmente identificável com qualquer espectador, capturado em belas cenas singelas como quando ele anda melancólico de guarda-chuva parecendo o personagem Vagabundo de Chaplin.

Em um ano já bem servido de manifestações no Brasil pela democracia e legalidade da situação político-jurídica do país, e tendo recentemente sido exibido nos cinemas outro ótimo questionamento sobre o poder especulatório do mercado imobiliário com a comédia sarcástica “A Grande Aposta”, que seja muito bem-vindo mais este exemplar seguindo o mesmo tema, por outra ótica, a de quem constrói as cidades, mas com o mesmo senso de humor ácido que descontrói através do olhar do espectador. E o plus de ser um filme 100% nacional, que conseguirá se comunicar com o grande público de forma acessível através do humor, especialmente em se tratando de um tema tão espinhoso e caro a todos.

 

Mostra Tiradentes / SP

“Banco Imobiliário” (“Monopoly”)

De Miguel Antunes Ramos e Lia Kulakauskas

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 3