Bandeira de Retalhos

Coração de Mãe...quer dizer, de Sergio Ricardo

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22 de janeiro de 2018

A 21° Mostra de Cinema de Tiradentes teve a apresentação inédita do filme “Bandeira de Retalhos” de Sergio Ricardo, que aos 85 anos de idade volta a oferecer um trabalho inédito em plena forma e maturidade, com produção Cavideo de Cavi Borges, Canal Brasil e muitos apoios na garra e na coragem. Babu Santana e Cavi Borges homenagearam no palco e agradecem os artistas do Nós do Morro e os moradores do Vidigal que contribuíram com as filmagens, além de terem feito menção especial ao saudoso Dib Lufti, um dos maiores diretores de fotografia do Cinema Brasileiro.

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O filme em si adapta a peça homônima e aborda importantes acontecimentos históricos que se sucederam no final da década de 70 quando o governo tentou uma remoção forçada dos moradores do Vidigal, que na época ainda não era tratado como bairro e sim como uma comunidade adjacente à Rocinha. O ponto de vista que acompanhamos é o dos próprios moradores que se vêem sob uma obrigação ilegal de transferência para outra comunidade, sem receberem o merecido embasamento jurídico para tal — que não fosse apenas o fato de que a região do Vidigal é uma das mais nobres áreas com vista privilegiada da praia onde decerto investidores milionários adorariam botar as mãos.

Demorando um pouco para engatar no ritmo, com rendimento entre o 8 e o oitenta, o regresso de Sergio Ricardo na direção talvez acabe evidenciando algumas questões de ordem prática do cinema brasileiro atual. A primeira é que para se fazer filmes desprovidos de suporte ou apoio financeiro ou estrutural principalmente por parte dos incentivos públicos, é necessária uma estética e linguagem no melhor estilo coração de mãe, ou seja, com carinho e dedicação familiar sempre cabe mais um para ajudar. E isso é algo extremamente positivo. Afinal, percebe-se que equipe e elenco vestiram a camisa do projeto. Não apenas pela importância do que a história real significa, mas porque houve envolvimento real e abnegado de inúmeros coletivos investidos na representação deste caso verídico para alcançar tantas mais pessoas. Sejam os artistas do Nós do Morro, sejam os moradores e locações do Vidigal, sejam as várias colaborações independentes, etc…

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O fato é que também existe um segundo fator, que é a superação da outrora chamada “estética da fome” cunhada na época do Cinema Novo, uma escola de cinema que Sergio Ricardo ajudou a compor, inclusive, mas que ao mesmo tempo substituída por novas narrativas mais complexas e por construções positivas do imaginário coletivo, também não pode ser esquecida como história do nosso cinema. Isto porque o Brasil não possui cultura de preservação da memória cultural, especialmente do legado audiovisual, sempre visto como menor do que o legado estrangeiro que chega aqui. E as pessoas renomadas que filmavam naquela época possuem muita dificuldade em voltar a filmar nos dias atuais, a passar o seu saber e experiência adiante, talvez de forma ainda mais cruel que os próprios realizadores das novas gerações também passam. Toda e qualquer questão técnica ou privação de recursos que provessem maiores possibilidades criativas para fazer honrar o mérito da história original versada aqui em “Bandeira de Retalhos” são reflexos deste abandono da história do cinema e do próprio brasileiro, pois a remoção de 1977 no Vidigal continua atual e necessária de ser debatida.

À conta disso, é louvável o esforço coletivo dentro deste coração de mãe. Algumas atuações se destacam promissoras do elenco mais recente, e outras tentam se renovar nas participações especiais mais famosas. No primeiro time, das revelações, temos o enorme carisma da protagonista Kizi Vaz, conseguindo guiar bem as cenas como protagonista e levar os quadros adiante, sobressaindo-se aos planos-conjunto como recurso de mostrar o extenso elenco inteiro. No outro time, um dos marcos do Cinema Novo, Antônio Pitanga defende com vigor jovial seu personagem cego que tenta interligar a trama coral, com múltiplos personagens que representam mais a comunidade e menos um ou outro destaque individual. Outro que sobressai ao todo é Babu Santana, que representa não um vilão, mas um necessário ponto dissonantefora da curva, inspirado em fatos reais, que foi o único morador que aceitou e se rendeu voluntariamente e sozinho à remoção. Graças a ele existem bons momentos de tensão na comunidade e a quebra de alguns diálogos talvez engessados pela proveniência do texto original dos teatros, onde “Bandeira de Retalhos” estreou primeiro como um musical. A insistência, aliás, em diálogos rimados pode até fazer sentido para os personagens mais cantados, como o do compositor e sambista, mas no geral parece um pouco deslocado visto que o filme não manteve a característica de gênero musical da peça, não obstante um ou outro número musicado isoladamente.

Há algumas tentativas de humor, voluntárias ou não, mas que talvez para se refrescar e comunicar com públicos mais novos arrisca uma estética televisiva que às vezes parece núcleo de alívio cômico em novela das nove da Globo (algo que não seria de todo ruim), e noutras uma versão genérica de “Zorra Total”, especialmente quando tenta englobar todo o elenco em ângulos desajeitados de planos-conjunto e com uma ou outra fala de destaque para cada personagem sem nome apenas para ser lembrado por uma frase de efeito. Mas, ainda assim, todas as cenas com a representação da comunidade e o tema principal da remoção contra a qual a protagonista de Kizi Vaz lidera o grupo funcionam melhor do que a subtrama relegada a esta mesma protagonista como uma história paralela de triângulo amoroso entre dois homens problemáticos. Um é tido como bandido pela polícia da remoção, apesar de ser louvável a tentativa do roteiro em desmistificar o que a polícia considera bandido muito mais facilmente do que a comunidade a quem ele é leal reconhece que ele é filho ou pai de membros daquela mesma comunidade que o viu crescer, viu ajudar a todos ali, viu ele ficar sem chances ou escolhas e às vezes não ver alternativas de vida senão a contravenção. Pode parecer um clichê de assistencialismo social de esquerda, mas não é não. Para aqueles que são vistos injustamente como menos importantes para a sociedade do que outra parcela de pessoas a quem o direito de moradia não é negado diariamente, e oportunidades são sempre oferecidas de forma desigual e injusta, de fato a união e a lealdade são a única coisa que pode fazer a força.

Por fim, o melhor trunfo do filme são as imagens de arquivo da remoção real décadas atrás, que, feliz ou infelizmente, são um pouco misturadas com cenas de arquivo mais recentes para mostrar que a história se repete. Porém, talvez apenas esta confusão cronológica não precisasse ser feita, apenas a progressão no tempo reservada para os créditos finais, porque senão, durante o filme, a mistura de cronologias pode atrapalhar a imersão do espectador, visto que em cenas mais modernas, todas misturadas em preto e branco, há celulares aparecendo e roupas modernas, o que conflita com a tentativa de reconstituição da época de 77 que os figurinos da parte ficcional tentam alcançar mesmo sem recursos, por exemplo. Aliás, algumas imagens de arquivo com os próprios lugares de fala dos respectivos moradores são tão bons que suplantam algumas cenas ficcionais quando nos distanciamos do envolvimento com os personagens mais carismáticos que dá vontade de mergulhar num documentário inteiramente feito com a população local.