Bando Sagrado

Filme foi injustamente e injustificamente censurado pelo vimeo e cineasta decide democratizar acesso à obra

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12 de janeiro de 2021

Cinema ainda é o maior marcador de uma democracia. Sempre que o conservadorismo e perseguições intolerantes começam a acontecer, uma das primeiras representações sociais a serem censuradas injustificadamente sempre foi o cinema. É bastante curioso (e sintomático) que as pessoas tenham tanto medo do poder do audiovisual, mas ao mesmo tempo demonstra muito do potencial emancipatório de direitos que o outro lado da via de mão dupla pode proporcionar — quando não deixamos com que seja silenciada.

Pois a mais recente demonstração de uma régua desproporcional e injusta foi a censura pela rede de distribuição de vídeos e filme chamada Vimeo, bastante popular no mundo todo, ter censurado a obra “O Bando Sagrado” do cineasta Breno Baptista. E isso mesmo após protesto e apelação, visto que nudez ou sexo jamais foram parâmetros para o Vimeo censurar qualquer coisa antes.

A questão sobre a censura à nudez ou sexo, ou mesmo às questões LGBTQIA+ e outros recortes afirmativos e identitários, como se viu recentemente com filmes como “Bixa Travesty” de Kiko Goifman e Cláudia Priscilla, “N3grume” de Diego Paulino e “Greta” de Armando Praça, não é algo de agora. Vem de priscas eras. Como, por exemplo, a época da pornochanchada no Cinema Brasileiro.

Mas lembremos que algumas pornochanchadas eram inteligentes em criticar a opressão e a censura de governos autoritários da época da Ditadura Militar justo porque valia a máxima “sexo vende” (sem querer objetificar sob ângulo contemporâneo). E hoje em dia, em tempos de Trump/Bozo, infelizmente as instituições retomaram um conservadorismo castrativo igualmente proporcional ao que se via naquela época (talvez até pior, pois estimula livremente políticas de extermínio de identidades que não se encaixem num padrão homogêneos imposto).

Pois em resposta à isto, o cineasta Breno Baptista liberou seu filme “Bando Sagrado”, mesmo após ter sido censurado pelo Vimeo, e estimulado no extracampo por um tweet que viralizou recentemente sobre o tema historicamente verídico sobre o qual se versa seu filme. Nesta thread no twitter, um pesquisador traçou sobre a história verídica do real Bando Sagrado de Tebas, uma repartição do exército formada por casais de soldados na Grécia Antiga, cuja luta em nome de seus parceiros gerou vitórias lendárias como até sobre o tido como invencível exército espartano, simplesmente porque lutavam por seus próprios cônjuges, lutavam por amor. O eros era tanto motivação quanto resultado estimulado da batalha. Lutavam literalmente por amor.

Segue, portanto, abaixo, parte do fio do twitter para vocês conhecerem mais da Grécia Antiga. Além de linkar também o interessante filme de Breno Baptista que aborda o mesmo assunto, a partir de uma estética homoerótica da virtualidade na internet atual, atualizando o tema pelo potencial ao mesmo tempo associativo e solitário provocado pelas redes sociais. Ainda mais ressignificado e ampliado na era da quarentena e pandemia mundial. Qualquer pessoa, de qualquer gênero ou orientação sexual pode se identificar com a necessidade de contato e de encontrar a motivação de seu próprio eros a partir da comunicação online como vista no filme.

Afinal, solidão não é mutuamente excludente de desejo, e lutar contra a intolerância é também resgatar a história antiga e evocar sua força para arregimentar resistência contemporânea, emancipatória e revolucionária de desejos e prazeres como recompensas, sem o quais nenhum ser é capaz de lutar e sobreviver.

Link do filme disponibilizado:

https://t.co/WkwPEdwEsc

Histórico verídico via Karl Felippe @karlfelippe:

“O exército espartano, especialmente aqueles 300 lá, tem muita fama, mas existiu outro grupo que era tão melhor que eles que derrotou os espartanos mais de uma vez.
As vezes sem sequer lutar.
Era o Batalhão Sagrado de Tebas.
E ele era formado inteiramente por casais.”

“O grupo foi criado por um líder tebano chamado Górgidas, e os membros dele foram escolhidos independente de classe social, apenas pela habilidade de combate.”

“O grupo era composto por 150 casais de soldados, e quando eu digo casais, estou falando literalmente.”

“Plutarco disse sobre eles: “um batalhão unido pela amizade entre amantes é indissolúvel e não pode ser derrotado, pois um amante não ira agir como covarde ante seu amado, ou o amado ante seu amante, e ambos se erguem firmes diante do perigo para proteger um ao outro”.”

“Os treinos do Batalhão Sagrado envolviam combate, luta-livre, treinos de cavalaria, DANÇA e artes em geral, porque era um jeito de fazer os soldados pessoas mais completas, com vários interesses, ao invés de apenas viverem pra serem soldados como em outras cidades-estado…”

Continuem no Twitter do colega:

E o link do filme se encontra na bio
E vamos protestar contra o Vimeo pela censura!