Baronesa

Tum tum tum, E a menina dança...

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29 de janeiro de 2017

20° Mostra de Cinema de Tiradentes — Mostra Aurora

Às vezes um trabalho chega para redefinir e criar novos gêneros. Às vezes as pessoas por trás deste trabalho talvez já estivessem preparando as sementes da revolução em parcerias e colaborações, indicando quais rumos poderiam tomar. No meio tempo da concepção de uma obra maior, fez inúmeros outros trabalhos notáveis como assistência de direção em “Arábia”, premiado agora mais recentemente no 50° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o que foi apenas uma das muitas coisas que alimentou o exercício de Juliana Antunes em passar os últimos 5 anos elaborando sua estreia em longa-metragem com este surpreendente exemplar: “Baronesa”.

Numa equipe predominantemente constituída por mulheres, sua abordagem meticulosa foi muito necessária para alcançar o equilíbrio ideal encontrado nesta docufição, misturando elementos de documentário com ficção. E as pessoas retratadas nesta ficção no melhor estilo documental acompanhou a vida de mulheres em um cotidiano que sofria bastante com o machismo estrutural ao redor das personagens. Tudo isto é exemplificado com algumas das atrizes não-profissionais e extremamente dedicadas que, por exemplo, às vezes só podiam se doar às câmeras quando estavam longe de seus maridos opressores naquele meio de desequilíbrio de gêneros capturado pela câmera — Aliás, parte do acordo feito com a equipe de produção para ganhar a confiança das atrizes, como revelado em debates pela diretora e equipe durante a 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes, a permitir uma filmagem intimista naquele ambiente fechado em si mesmo por segurança e lealdade.

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A trama segue principalmente duas personalidades incríveis, Andreia e Leidiane, explicando na história que o marido de uma delas está preso, então elas se dão todo o suporte em trabalhar e cuidar das respectivas famílias e crianças uma da outra. O bairro da comunidade onde elas moram poderia se localizar em qualquer lugar, acometido pelo perigo da violência, armas e drogas como praticamente todos as cidades urbanas hoje em dia, aproximando e desmistificando o que o senso comum pensa da periferia espacial para um espaço comum a todo nós, muito mais ligado aos centros urbanos. Tanto que a narrativa capitaneada por mulheres é crucial para isso, pois elas subvertem os arquétipos de gênero e jamais perdem o primeiro plano da história humana. O tráfico de drogas está lá presente? Até está, mas de soslaio, até onde estas fortes mulheres não permitem com que entrem em suas vidas, tanto que a única parte do filme que poderia intensificar a perda através da guerra de traficantes é inteligentemente sublimada e sutil, mantendo o foco nas mulheres.

Vários signos são utilizados para reforçar isto, como a musicalidade do funk logo na marcante cena inicial e na cena na metade da projeção quando o tema é resgatado e a dança que alude a uma metralhadora fictícia que atira no ar devolve o poder às mulheres que estão reproduzindo o passinho coletivamente. Mas este poder de fogo é muito mais psicológico do que físico. Não é a intenção do filme brincar de colocá-las no lugar de contra-atacar as violências diárias daquele meio, muito pelo contrário, elas querem sim é construir uma nova paz, uma nova convivência, o que parece de início uma dramaturgia unicamente do absurdo à la Becket, que se faz crítica em mostrar as nuances dos opostos. Mas Juliana às vezes pode surpreender o espectador com a praxis brechtiana, pois o perigo está sempre à espreita, e pode até ser usado como truque narrativo: como em uma das únicas cenas em que ela quebra o equilíbrio do docudrama e manipula abertamente a história com o texto e o ponto de vista da câmera subitamente tomado do espectador. Decerto uma das melhores intervenções em um filme híbrido em tempos recentes, trazendo o extracampo abruptamente para o primeiro plano, o que lembra que a realidade ali retratada não é tão inocente assim. É a isto que o título alude, pois desde o princípio se é dito que a protagonista Andreia deseja se mudar para um lugar melhor, uma utopia fictícia pacificada chamada ‘Baronesa’.

Porém ao mesmo tempo ‘baronesa’ é a potência da personagem e seu carisma transbordante, que deseja construir sua própria casa e ser a senhora de seu castelo e destino. A química entre as duas primas Andreia e Leidiane é um grande diferencial, e delas com o terceiro vértice, o único personagem masculino adulto do filme, rendem alguns dos melhores momentos em cenas líricas como o banho de balde a três ou a disputa de paternidade. Muitos são os temas de conversa entre eles que flui naturalmente, com questões bastante caras à sociedade moderna, como virgindade, casamento, masturbação e moradia e etc, mas nunca tirando o protagonismo das mulheres. Tanto que a diretora de fotografia Fernanda de Sena ainda faz um trabalho especial em aproximar a câmera de maneira intimista no limiar da dúvida entre os diálogos serem naturais com permissão das documentadas, ou ficcionais como se escritos sob medida para as personagens da vida real, intensificando o cruzamento de gêneros cinematográficos como raramente visto, talvez apenas em “Ela Volta na Quinta” de André Novais. E é este cruzamento no tênue limite da ética em se respeitar as veracidades ante a câmera para um bem maior que faz da nova filmografia mineira tão singular, com produtoras como a Filmes de Plástico, Entrefilmes e agora com as novas e exclusivas propostas da produtora mineira Pepeka Pictures que está estreando em longas-metragens com “Baronesa”.

Vale ressaltar que Juliana ainda agradece nos créditos finais à Patty Smith, homenageada como sua guru espiritual, e Affonso Ucho, diretor de “Arabia”, e aqui creditado como um dos montadores de “Baronesa”. Com tudo isso, o ponto vai todo para Juliana Antunes que crava seu nome em Tiradentes e na sétima arte como orquestradora de uma nova cartilha premiada pelo Júri da crítica como melhor filme da Mostra Aurora e com o novo prêmio ‘Helena Ignez para a fotografia de Fernanda de Sena. Juliana se torna mais um nome deste panteão mineiro que entendeu a dica do Cinema Novo onde todos os cineastas trabalhavam unidos entre si, respeitando as individualidades e engrandecendo o conjunto de obra, onde a plateia tem só a ganhar.

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5