Baunilha

Humanismo na perda e na dor

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01 de outubro de 2017

O curta “Baunilha” de Leo Tabosa tentou contar um pouco sobre os bastidores humanizados de quem exerce o tabu da prática do BDSM (sado-masoquismo), mantendo em segredo ainda da sociedade este lado mal-compreendido. O curta fala sobre como o S&M não é sobre o submissor e sim sobre atender as necessidades do submisso, sempre com confiança mútua e consentimento.

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Foi interessante ver o curta emparelhado com os outros dois filmes de sua mesma sessão pois ele realmente levanta questões sobre as violências da sociedade, consentidas ou não, e que elas podem se revelar de forma muito mais escamoteada e silenciosamente opressora do que em sua expressão física mais visível ou audível. Ou seja, enquanto praticantes de BDSM estiverem exercendo suas liberdades com consciência de seus próprios direitos entre quatro paredes sem interceder na liberdade de quaisquer outras pessoas, é a sociedade julgadora e carrasca que se intromete onde não foi chamada que de fato comete as maiores violências.

As pessoas retratadas no filme são obrigadas a esconder do resto da sociedade seus desejos naturais para não serem julgadas erroneamente ou virarem párias. O título do filme, baunilha, que em geral quer dizer uma cor/sabor sem graça na frente de tantos outros, é justamente o apelido dado pelo BDSM para o sexo tradicional, sem uso de acessórios ou necessidades especiais, praticado na teoria pela maioria que julgaria o contrário. Cada tipo de realização dos desejos no BDSM recebe o apelido de uma cor específica. E por isso o filme carrega uma plasticidade visual tão interessante, desbotando as cores nas cenas externas, porém concentrando em tons bem mais fortes e personalíssimos aa filmagens dentro da câmara de BDSM, que muitos fãs do ingênuo e equivocado “50 Tons de Cinza” já devem estar familiarizados.

Há inclusive bastante humanismo em se abordar questões LGBTQ dentro do BDSM, e que uma relação saudável e estável com alguém pode ajudar e muito a conscientizar e realizar plenamente os desejos em conjunto, não tendo nada a ver com promiscuidade como muita gente gosta de pensar. Tanto que a maior depressão do protagonista além de precisar esconder seus desejos é ter perdido o parceiro, e por isso o luto é demonstrado no contraste de cores dos espaços que diferenciam onde ele se sente pleno.

Na verdade, mesmo que falte um pouco de contraditório em representar mais fisicamente a opressão externa da proibição social, o filme faz bom trabalho num malabarismo entre o julgamento popular e a obrigação de ocultar identidades incógnitas. Nisto, consegue inverter a polaridade de que a sociedade é que se faz hipócrita e não exerce o espírito de igualdade democrática que promete. Mas o final do filme resolve muito bem o que significa a liberdade de expressão e poder respirar sendo quem se é.