Beasts of no nation

Primeiro longa de ficção da Netflix retrata guerra civil no continente africano

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05 de novembro de 2015

Primeiro longa-metragem de ficção produzido pela gigante Netflix, “Beasts of no nation” estreou simultaneamente nas salas de cinema e na plataforma do site causando polêmica. A ideia inicial era que sua distribuição fosse ampla e irrestrita, mas, alegando concorrência desleal, grandes redes mundiais de cinema se recusaram a exibir o filme, pois a disponibilização online de seu conteúdo na mesma data em que ele chegava ao circuito dificultaria a venda de ingressos. De olho no Oscar, a produtora se viu obrigada a reformular a estratégia e a obra foi exibida em salas menores, no circuito independente. Apesar do boicote, o sucesso é inegável: “Beasts of no nation” já foi visto por mais de 3 milhões de pessoas ao redor do mundo e a Netflix, cujo poder de fogo já vinha assustando outro mercado há tempos, o das TVs por assinatura, mostrou mais uma vez a sua força.

Beasts of no nation

Beasts of no nation

Polêmicas à parte, o filme de Cary Joji Fukunaga, conhecido por ter dirigido alguns episódios do sucesso televisivo “True detective” (2014), é mais um exemplo do cuidado e do apuro técnico que marcam as produções do canal. Ambientando em um país sem nome do continente africano, “Beasts of no nation” acompanha a saga de Agu (Abraham Attah), uma criança que vê sua família ser esfacelada pela guerra civil e encontra na milícia chefiada pelo Comandante (Idris Elba) a única forma de se manter viva naquele ambiente hostil.

Beasts of no nation

Beasts of no nation

Baseado no romance de Uzodinma Iweala e claramente inspirado na obra de Stanley Kubrick, especialmente “Glória feita de sangue” (1957) e “Nascido para matar” (1987), o filme apresenta o processo cruel de desumanização por que passam os jovens cooptados pelos diversos grupos armados que se digladiam no confronto que assola a África. Agu, nesse ponto, aproxima-se de Joker, personagem de Matthew Modine em “Nascido para matar”, por ter plena consciência da lavagem cerebral a que está sendo submetido, apesar de não conseguir resistir a ela. À medida que perde a inocência, seus diálogos com Deus revelam o avanço de sua descrença e os planos abertos utilizados por Fukunaga, sua irrelevância dentro daquele universo, dominado pela violência e pela falta de esperança.

Beasts of no nation

Beasts of no nation

Com sua linguagem visual crua, fruto do pleno domínio que o cineasta tem das técnicas de filmagem, e sua violência nada estilizada, “Beasts of no nation” leva os filmes de guerra a um novo patamar, desvinculando-se da visão eurocêntrica e norte-americana dos conflitos armados para lançar luzes sobre um continente normalmente retratado de forma caricata e conveniente pelas produções hollywoodianas. E, se causa algum incômodo nesse caminho, é por forçar o público a confrontar, ainda que de forma ficcional, uma realidade que a própria ficção desafia.


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