Beleza Oculta

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25 de janeiro de 2017

Dono de uma filmografia que aposta em rostos famosos e roteiros que priorizam a emotividade, o cineasta David Frankel, de “O Diabo Veste Prada” (2006) e “Marley & Eu” (2008), retorna à direção com a fórmula que ele já está habituado a manipular — elenco estelar em um filme que requer lencinhos de papel. Em “Beleza Oculta”, Will Smith interpreta Howard, um bem sucedido publicitário de Nova York. A criatividade e a eloquência do personagem, características exibidas no início da projeção, são drasticamente substituídas pela depressão e o mutismo, estado de espírito resultante de um trauma: a morte da filha, aos seis anos de idade. A prostração do publicitário, acompanhada de perto por Claire (Kate Winslet), Simon (Michael Peña) e Whit (Edward Norton), amigos de Howard e também companheiros de trabalho, gera uma preocupação no trio que vai além do bem-estar físico e psicológico do colega. Em um ramo onde a competitividade é grande, o descontrole emocional de Howard pode resultar em derrocada financeira e tempo perdido. Seria desumano forjar provas de que o amigo próximo está perdendo a sanidade para não prejudicar os lucros da empresa? Essa é uma pergunta que “Beleza Oculta” não se propõe a responder, mas ao menos estimula uma reflexão sobre ela.

Na complexa jornada de sobrevivência humana, há três abstrações que guiam cada dia de existência: o tempo, o amor e a morte. Esse raciocínio é o combustível para o drama que rege o roteiro de “Beleza Oculta”. Howard, sentindo-se castigado por perder a filha tão precocemente, começa a escrever cartas raivosas para esses três remetentes imateriais. O que ele não imaginava é que seria correspondido. Dentro desse contexto de ter as três subjetividades assumindo a forma humana, “Beleza Oculta” não corrobora com os métodos de um cinema mágico, que dá forma à alucinação de um personagem que evoca tais fantasmas, somente vistos por ele mesmo. Na verdade, a interação de Howard com essas abstrações é um teatro arquitetado por Claire, Simon e Whit, em uma tentativa desesperada de buscar alguma reação e, quem sabe, recuperar suas colaborações publicitárias, todas dependentes do amigo debilitado. São atores teatrais que moldam as atuações metafísicas. A experiência de Brigitte (Helen Mirren) lhe atribuiu o papel da “morte”, o “tempo” ficou por conta do jovem impulsivo Raffi (Jacob Latimore) e o “amor”, de modo apropriado, submeteu-se à sensibilidade de Amy (Keira Knightley).

No acompanhamento do desenrolar do roteiro, nota-se que não é apenas o personagem de Howard que clama por ajuda. Cada um de seus amigos possui uma pendência a resolver. É nesse âmbito que a interpretação do trio teatral se mistura com a realidade e a interação dele com os publicitários ganha outra nuance. Claire interage mais com Raffi, o “tempo”; Whit com Amy, o “amor” e Simon com Brigitte, a “morte”. Uma relação que vai além, porque cada personagem precisa se entender, por dilemas particulares, com essas abstrações específicas. Ainda que “Beleza Oculta” permita mais de uma interpretação no que tange ao sentido da aparição dos atores de teatro, a mensagem mais clara é a da caridade, da ajuda de homem para homem, na superação das tribulações. Vale ressaltar que é muito comum encontrar pessoas que torcem o nariz para tramas que seguem o caminho da emotividade. Diante delas, “Beleza Oculta” será alvo de pedras. É perfeitamente saudável, em certas ocasiões, deixar que o coração tome as rédeas. O cinema é completo justo por isso — há espaço para a racionalidade fria, mas sem negligenciar o terreno sentimental.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4
  • Marcos Fabricio Souza Machado

    Única crítica a fugir do lugar comum.
    Todas as outras parecem Ctrc Ctrv de algum outro crítico.

  • Thiago Wolff

    Saí da sessão há poucas horas e achei essa crítica a que melhor sintetizou minha opinião sobre o filme. Juro não entender o porque da crítica estar massacrando o mesmo.