Ben-Hur

Versão de uma saga clássica é transformada em um melodrama pop, onde dois playboys medem forças e exibem suas habilidades na corrida de bigas.

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19 de agosto de 2016

Esta nova versão do romance de Lew Wallace sobre dois irmãos que tomam caminhos diferentes durante o domínio romano tinha tudo para se tornar um marco no gênero. Mas o diretor russo, seqüestrado por Hollywood, Timur Bekmambetov (idealizador das franquias “Guardiões da Noite” de 2004 e “Guardiões do Dia” de 2006 e autor do exagerado “Abraham Lincoln, Caçador de Vampiros” de 2012), não se rendeu à contemplação do tema bíblico e oferece um filme de ação com poucos atrativos onde o climax é explorado a exaustão. Onde se lê clímax, substitua pela famosa corrida de bigas, uma das mais icônicas sequências que Hollywood já produziu e cenário onde os irmãos, Judah Ben-Hur e Messala, acertarão suas contas. Timur confunde o conceito de filme épico com filme de adrenalina melodramática e tenta imprimir sua “marca” através de uma câmera nervosa que não para quieta mesmo nos momentos mais significantes, ocultando o poder reflexivo da história. Em determinado momento tem-se a nítida impressão de estar diante um capítulo da novela televisiva “Os Dez Mandamentos” com atores ensaiando um texto solene repleto de frases de efeito.  O elenco atua no piloto automático com destaque para o “nosso” Rodrigo Santoro que se apresenta como um Jesus genérico reforçando o olhar piedoso e sisudo, mas sem nenhuma ressonância emocional.

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Mas a culpa não é somente do diretor. O roteiro também sofre com as adaptações feitas por Keith R. Clarke e John Ridley, ambos incapazes de conceber um tratamento epopéico a monumental saga judeu-romana. A dupla interfere drasticamente no arco dramático ao apresentar novos personagens, como Ilderim (Morgan Freeman em um vestuário que homenageia a recém falecida Elke Maravilha) e introduzir um ato subversivo inconseqüente (alusão ao terrorismo?). Estas alterações subtraem a força dramática de um texto poderoso sobre redenção, perdão e fé transformando o filme em um pastiche sem identidade onde dois playboys medem forças e exibem suas habilidades na arena.

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Com um roteiro fraco e direção pouco criativa esta nova versão não integra a trajetória misericordiosa de Cristo à linha narrativa central de Judah Ben-Hur, nem fundamenta as diferenças ideológicas e religiosas entre judeus e romanos.

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O retrato pop de Ben-Hur (2016) é um projeto que já nasce morto e a pá de cal neste defunto é a canção que toca durante os créditos finais. Os desnecessários efeitos em 3 D completam o quadro de um dos filmes mais dissonantes e inapropriados deste ano.

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Ben-Hur (Ben-Hur)

Eua, 2016. 124 min.

Direção: Timur Bekmambetov

Com: Jack Huston, Toby Kebbell, Morgan Freeman, Rodrigo Santoro

Avaliação Zeca Seabra

Nota 2