Berlinale 2018: Coletiva do filme “In The Aisles” de Thomas Stuber

Filme foi um dos favoritos da Berlinale 2018, mesmo não sendo lembrado na premiação

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25 de fevereiro de 2018

Berlinale 2018: O filme injustiçado desta edição do Festival de Berlim definitivamente foi “In The Aisles” de Thomas Stuber (além de Figlia Mia de Laura Bispuri), uma belíssima dramédia romântica realizada com esmero e um sentimento verdadeiro.

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Confira a coletiva de imprensa que foi aplaudida com espírito de “já ganhou” pelos jornalistas internacionais, o que já é um prêmio de consolo, pelo menos. E no trecho ao final uma exclusiva da coletiva que o diretor só falou para mim e outra jornalista sobre o ânimus de seu próximo projeto.

Coletiva:

O diretor Thomas Stuber começa explicando que o filme é uma adaptação de uma parte de apenas 25 páginas do romance de Clemens Meyer “Im Stein”. Porém, a história possuía um potencial muito maior, que ele queria ampliar, mesmo que tenha interrompido o processo para fazer outro filme antes de enfim conseguir. E o autor do livro consegue condensar todas as emoções em tão poucas páginas que era um grande desafio criar uma narrativa sem perder o poder do original.

O Ator Franz Bogowski teve de aprender a dirigir uma empilhadeira para ser realista. E não era o tipo fácil. Tipo quando você dirige para a esquerda e não vira pra o lado que você quer.
A atriz Sandra Huller também teve de aprender, mas dirige pouco no filme.
E Peter Kurt explica que tem muito a ver com os próprios personagens que estão mergulhados naquela rotina. Se não passasse credibilidade, não seria convincente.

O lado humano está lá, explica o diretor. Mas não é como se quisessem colocar “mais lado humano”. Mas dá leveza ao final mais pesado.
Este é o primeiro filme em que ele usa humor, que não teria como conseguir passar por ele sem isso.

Peter diz que apreciou muito a possibilidade de explorar a profundidade de seu personagem que vai se desvelando aos poucos, e está sob as camadas da personagem.

Já Sandra diz que sua personagem possui todo um subtexto que lhe deu enorme liberdade, pois nada sobre sua personagem é expressado por ela mesma, e sim por terceiros, sendo ela mesma um Enigma de suas próprias experiências pessoais.

Neste momento eu pergunto ao diretor sobre o excelente equilíbrio do uso de temperaturas entre as cores frias e quentes, e como ele foi dando textura ao filme através desde a direção de arte à iluminação na fotografia, ou até mesmo na atuação dos artistas. Sandra Huller por exemplo é coração do elenco, numa temperatura completamente diversa da frieza elétrica que empregou em “Toni Erdmann”:

Thomas diz que eles pensaram muito nisso.
Ninguém acreditava numa história de amor naquela ambientação. O autor do livro cria imagens fortes em tão poucas palavras. Mas quando Thomas e sua equipe achavam que haviam conseguido traduzir bem em imagem o que estava no livro, era justamente quando achava que tinha que se desafiar mais e tinha que ter alguma idéia nova. Não podia parecer um documentário. Tinha que achar o registro certo pra criar a atmosfera. Todo dia tinham que mudar tudo de manhã, e fizeram várias filmagens de teste com câmeras diferentes. Primeiro tentou cinemascope que abandonou logo de plano. A profundidade das “ilhas/alas” do supermercado seria exagerada e tiraria a profundidade da história. Aí pensou em widescope, o que tirava um pouco o foco mas deu certo. E brincaram muito com luz. Criaram dia e noite. Criaram tudo do zero.

Já sobre a sua parte da pergunta, a atriz Sandra diz que uma Atriz pode e deve procurar sempre fazer o máximo de variedade possível. Se tivesse que fazer o mesmo trabalho pararia de tentar. Sua personagem possuía uma energia silenciosa muito sedutora, procurando sempre por novas coisas, Livre.

Franz acrescenta que seu personagem por exemplo era um homem de poucas palavras. E, mesmo assim, mesmo sem conversar numa cena só sobre gestos e expressão facial, e em 5 min que a personagem de Sandra lhe diz “Shall We…”, ele se encanta perdidamente. Sobre palavras, significavam tudo para ele, pois os personagens se escondiam na casca, mas eram quentes por dentro.

Essa imagem de que Marion “precisaria ser resgatada” da vida pessoal dela” não existe. A impressão que o personagem de Franz tem de Marion no trabalho de que ela estaria presa numa vida horrível não tem nada a ver com a da vida dela fora dali. Fora dali ela tem múltiplas camadas e escolhas próprias.

Isso tudo adveio de uma história curta que engrandece porque tem a típica ferida que o autor Clemens gosta de trabalhar e é o que atraiu Thomas a adaptar.

E o supermercado dá a sensação de labirinto, outro elemento que o diretor gosta de trabalhar em outros filmes, de se perder no macrocosmos e encontrar aqueles personagens. E treinou antes em salas com sofás como ilhas de mercado e viu que precisava de algo grandioso para dar certo. E as questões de proximidade, de esquina, quarteirões, de vizinhança que a história projeta nos personagens constrói formas de contato e interação.

Para Sandra é exatamente isso. Formas de ser descoberta e descobrir, e usar o cenário para brincar.

Franz acrescenta que criaram Pequenas coreografias. Quando se virar, olhar, andar etc. Bem precisas. Combinação de precisão e liberdade. E Thomas permitia que vissem no monitor como atuavam, o que pode ser perigoso para o ator se calcular ou julgar demais, mas dava espaço pra criar.

Peter acrescenta que o espaço dava liberdade para se mover de formas únicas.

Ao final, quando praticamente todos já haviam deixado o recinto, o diretor fala exclusivamente que gosta de deixar as suas obras em aberto para o espectador, e que está trabalhando em um novo filme que irá tentar aplicar essa abertura deixado para o espectador refletir a um novo patamar em sua filmografia.