Berlinale: Coletiva de “Days” de Tsai Ming-Liang

por

27 de fevereiro de 2020

Coletiva de “Days” de Tsai Ming-Liang com Lee Kang-Sheng e o debut de Anong Houngheuangsy.

Sobre 30 anos de carreira com filmes de poucos diálogos porém sobre relações humanas… E neste filme pouco aparece uma relação…Seria uma nova fase?

Tsai diz que seu ator assinatura Lee Kang-Sheng passou muito tempo doente….mais de uma complicação e passou por mais de um procedimento de saúde….E este filme é um exercício de empatia sobre isso. Registrar esse momento de cura. E o novo ator no filme Anong que é do Laos, mas estava trabalhando na Tailândia, trazia toda uma outra relação cultural.

A caixinha de música do filme toca uma música de filme de Chaplin, que era do cinema mudo… E seu filme costuma ser sem diálogos… Há relação?

Tsai elogia Chaplin como sendo de outro mundo. Já usou esta música antes. Ama músicas antigas… E o produtor musical trouxe a caixinha e deu para Tsai, que presenteou a Anong e isto trouxe à cena. E ele gosta que tenhamos uma relação especial com a música.

Sobre som, Tsai gosta de som natural, outro tipo de trilha, o que acontece no ambiente. Demorou muito tempo com o desenho de som para alcançar essa naturalidade da realidade, que foi construída.

Sobre onde se situou o filme, Tsai diz que é fã de Bangkok e Tailândia. E ama as regiões mais antigas. Sabe que é destino de turismo, mas gosta do cotidiano de lá que convive ao mesmo tempo com turistas… E Anong é um desses imigrantes que ele descobriu lá… E eu o vi cozinhando sua comida natal e decidi colocar no filme representando esta cultura do Laos.

Anong diz que está muito honrado e jamais sonhou que poderia estar aqui e agradece aos produtores. Você pode achar que ele está aqui apenas como personagem, mas não é inteiramente verdade, pois trabalha com o ofício que ele pratica no filme numa base diária. Não é apenas ficção. É sobre a vida real e quem é no cotidiano.

Lee fala que este filme está entre ficção e documentário e teve problemas de saúde, principalmente com a coluna, e passou por um registro documental sobre isso anteriormente chamado “The River” que também competiu aqui na Berlinale. E passou por vários profissionais e não-profissionais…e Tsai queria um novo documentário sobre isso… E pensou muito se queria ser retratado desta forma como ator (de mais de 30 anos de carreira) e que tem uma figura pública e um misticismo em ser ator e pensava se queria ou não ser representado nesta vulnerabilidade… Mas decidiu que era necessário retratar isso. Mas para além do documentário, há ali uma encenação para se preparar.

Sobre a cena de massagem homoerótica, Tsai foi perguntado se a questão gay foi uma declaração política à Tailândia? Tsai diz que não pensa nisso desta forma. Ele não faz pensando nisso. Se tiver esse efeito, ok. Mas queria algo íntimo e filmar de modo que o espectador pudesse se sentir massageado. E um amigo que assistiu ao filme disse que era a cena mais linda de sexo que já havia visto.

Sobre quem é o público alvo, Tsai entende que crianças não devem provavelmente assistir, e sim adultos, mas acredita que são atemporais e podem ser assistidos a qualquer tempo, e reassistidos. Até crianças podem crescer e querer ver seus filmes no futuro. Já fez 11 longas e eles vão mudar com o tempo e ganhar novas camadas.

Lee fala que Tsai nem gosta mais tanto de trabalhar com roteiro ou diálogos… Ele gosta da cena e de se desafiar. E filmam em lugares difíceis ou sem autorização, algumas até atentos para não serem interrompidos pela polícia (pois é difícil autorização lá).

Tsai agradece de novo pelo apoio total de Lee por mais de 30 anos, e do novo ator também Anong por confiar 100% em seus pedidos.

Sobre a versão em P&B de “Parasita” que Bong Joon-Ho lançou, perguntam se Tsai pensaria em seus filmes em P&B. Ele diz que planeja seus filmes da forma como eles se desenham, com cores e tudo. Porém, mesmo sem cor, Tsai acredita que a riqueza do desenho de som complementaria a imagem em P&B.

Sobre o tempo de seus planos…ele agradece a seu fotógrafo que está na coletiva (ele se levanta e todos aplaudem), e seu assistente de direção que é seu aluno. Mas gosta de permitir que o plano respire, e não gosta de controlar nem de manipular a imagem. A linguagem da vida real. (E neste momento uma jornalista teve uma pequena queda na sala e Tsai demonstra: é isso. A vida real que acontece).

As cenas noturnas no mercado de rua é outro lugar onde Anong trabalha e era o que ele convive. Da mesma forma que os protagonistas jantando, eles também apenas estão comendo e comeram 3 tijelas de comida.

IMG_20200227_112648_063