BIBI- uma vida em musical

Esplêndido musical sobre a vida de Bibi Ferreira nos emociona por sua imensa sinceridade e impecável execução cênica

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15 de fevereiro de 2018

Existem projetos que já nascem vitoriosos desde o momento em que se tem a ideia principal, e assim permanecem, até a sua execução final. Este é caso do espetáculo BIBI- Uma Vida em Musical, em cartaz no Teatro Oi Casagrande no Leblon, Rio de Janeiro. Para começar, é quase impossível não se emocionar desde o primeiro segundo do musical, que ao contar a vida de uma das mais geniais atrizes do mundo, em todos os tempos, nos conta também muito da história da evolução do teatro brasileiro, com o atrativo fundamental de que este grande mito está vivo, e ainda se apresenta em nossos palcos aos seus majestosos 95 anos. Tudo isso já seria mais do que o suficiente para que um projeto almejasse um sucesso; porém um sucesso que na verdade transborda por todos os lados, já que o maior de todos eles responde pelo nome de Abigail Izquierdo Ferreira, em arte Bibi Ferreira. Bibi, é um dos grandes mitos da arte da atuação e soube, como poucos, passear com tanta destreza, talento, dinamismo, e competência por todos os estilos de atuação neste país e em várias partes do mundo. Abigail Izquierdo Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1o de junho de 1922. Filha do ator Procópio Ferreira e da bailarina espanhola Aída Izquierdo. Estreia no palco com apenas 20 dias na peça Manhã de Sol, no colo de sua madrinha Abigail Maia, esposa do autor e padrinho Oduvaldo Viana. Com a separação dos pais, segue com a mãe, que vai trabalhar numa companhia espanhola de teatro de revista. Lá, aprende seu primeiro idioma, o espanhol. Começa a trabalhar na Companhia do pai Procópio Ferreira. Em 1941 protagoniza a peça La Locandiera, de Carlo Goldoni, como Mirandolina. No ano seguinte, monta sua própria companhia, por onde passam futuros grandes nomes do teatro, como Cacilda Becker, Maria Della Costa, Henriette Morineau, Sérgio Cardoso e Nydia Licia. Torna-se uma das primeiras mulheres a dirigir teatro no Brasil. Na década de 50 monta repertório com sua companhia e depois de bem-sucedidas temporadas cariocas, sai viajando pelo Brasil com elenco numeroso, grandes cenários e produções caprichadas. Dentre seus maiores sucessos está A Herdeira, de Henry James, em que além de protagonizar, também dirige, contando com Herval Rossano, Wanda Marchetti e Francisco Dantas no elenco. Na década de 60 estrela dois musicais memoráveis:  My Fair Lady (Minha Querida Lady), de Frederich Loewe e Alan Jay Lerner, e Hello Dolly (Alô Dolly!), adaptado a partir de The Matcmaker, de Thornton Wilder. Por seus excelentes desempenhos nesses musicais, torna-se a primeira atriz do teatro musical brasileiro, aquela que interpreta, canta e dança com perfeição. Nos anos 70 atua em outro musical:  O Homem de La Mancha, de Dale Wasserman como Aldonza/Dulcinéa. Sempre alternando interpretação e direção, assina Brasileiro, Profissão: Esperança, (1970) de Paulo Pontes e Oduvaldo Vianna Filho, inspirado no compositor Antonio Maria, inicialmente como show intimista de boate com Ítalo Rossi e Maria Bethânia e, depois, como grande espetáculo, com Paulo Gracindo e Clara Nunes. O musical  faz enorme sucesso e entra para a galeria dos grandes espetáculos montados no palco do Canecão, tornando-se uma das maiores bilheterias dos shows da década. Em 1975 recebe o Prêmio Molière pela personagem Joana, de Gota D’Água, de Paulo Pontes e Chico Buarque, adaptação da tragédia Medéia, de Eurípedes, para os morros cariocas. Em cena, despojada, sem maquiagem, como uma moradora da comunidade, causa impacto na plateia acostumada a vê-la bem produzida em musicais. Em 1983, após cinco anos ausente do palco, volta em Piaf – A Vida de uma Estrela, em que vive a cantora francesa Edith Piaf. Sua performance elaborada chega a ser “mediúnica”, tal a sutileza na encarnação da anima/persona da cantora: a semelhança da voz, do frágil aspecto físico e do temperamento quente. Com isso, abiscoita diversos prêmios: Molière, Mambembe, Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), Governador do Estado e Pirandello. Na virada do milênio, personifica a fadista Amália Rodrigues em Bibi Vive Amália. Causa novo impacto nas plateias brasileira e portuguesa tal a verossimilhança. Em anos mais próximos, o público a vê brilhar nos recitais Bibi In Concert e Bibi In Concert Pop, acompanhada por grande orquestra e coral, nos quais mostra, de forma totalmente à vontade, um dos seus maiores prazeres: o de cantar.

Bibi, uma vida em musical foto Guga Melgar 26

O espetáculo conta com maestria diversos momentos da história do teatro brasileiro, passando pelas origens da família de Bibi no Circo Queirolo. Foto Guga Melgar.

Bibi, uma vida em musical Simone Centurione, Amanda Acosta, Chris Penna foto Guga Melgar 7

Os atores Simone Centurione, ótima como a mãe de Bibi Abigail Izquierdo, Amanda Acosta, esplêndida como Bibi Ferreira, e Chris Penna, como um espetacular Procópio Ferreira, interpretam em grande harmonia uma das trincas mais importantes do teatro brasileiro. Foto Guga Melgar.

A dramaturgia de Artur Xexéo e Lunana Guimarães é uma das mais interessantes e vibrantes no cenário musical atual. Xexéo e Guimarães fizeram uma vasta pesquisa e nos enriquecem com um texto muito embasado, e ao mesmo tempo leve, contundente, preciso e histórico; sem jamais cair na caricatura. As suas escolhas foram todas certeiras, e com grande medida. Como falar de Bibi sem mencionar o seu pai, um dos maiores atores do Brasil, que teve o seu auge na metade do século 20. Colocar Procópio Ferreira em cena, da maneira como ele é colocado, foi possível se criar um fabuloso contraponto entre um representante do teatro antigo, e a transmutação para o teatro moderno, que aponta para as novas práticas do fazer teatral, como: a eliminação da caixa do ponto – onde tínhamos a figura de um trabalhador das artes cênicas passando o texto para os atores, uma cia mais democrática onde a sua estrela principal tinha a inteligência de fazer outras estrelas brilharem como as saudosas novatas Henriette Morineau, Cacilda Becker e Maria Della Costa. A busca da regulamentação da profissão do ator, os musicais pioneiros da Broadway no Brasil, o nascimento de uma atriz completa que toca piano, canta, dança e interpreta em várias línguas – a primeira atriz do gênero musical no Brasil -, a rotina das sessões teatrais que eram de terça-feira a domingo, o teatro musical engajado de Paulo Pontes, e muitos sublimes ensinamentos sobre o espetáculo como por exemplo “as cenas que fazen uma barriga no meio da peça”, e que são batizadas por Bibi como cenas de marasmo. Marasmo este, necessário. Assim como na vida. A vida é exatamente assim, em suas palavras: um tempo de marasmo, que vem e que passa. Tudo do melhor de nossa história do teatro está lá: o teatrão da voz empostada e a dicção exagerada de Procópio, que Bibi faz uso até hoje desta escola, porém adaptada com maestria para os tempos atuais – uma voz forte, marcante, contundente, com recursos de sobra para o trágico, o dramático, o cômico e o musical. Um exemplo raro que perpassa nove décadas de atuações ininterruptas, que a faz um Mito, na acepção verdadeira da palavra. Assim é BIBI- Uma Vida em Musical. Um espetáculo brilhante, que tem na direção de Tadeu Aguiar e na produção de Eduardo Bakr todo o amor e afeto que transborda desses doces encantos de pessoas e artistas. Sempre realizando projetos onde a verdade, a beleza e a poesia ultrapassam as salas de ensaio, os bastidores, as coxias, e chegam inteiras nas salas de espetáculos. Figuras raras e únicas em nosso meio teatral. Tadeu conseguiu encontrar no espetáculo uma excelência sem igual na direção da peça. Uma harmonia absoluta em todas as áreas de atuação. Honrando como poucos esta brilhante ideia das realizadoras Cláudia Negri e Thereza Tinoco, que já são candidatas a todos os prêmios, desta temporada, por tão nobre iniciativa para a cultura nacional. Poucos musicais são tão afinados, e harmônicos, como este. As músicas originais de Thereza Tinoco – “O Circo Não Pode Parar”, “Sonhos de Uma Mulher”, “Coro dos Críticos”, “Está aberta a Filial”, “Nossa Vida É o Teatro” e “A Arte” são de um alto nível impressionante, assim como a direção musical e arranjos de  Tony Lucchesi. Sensibilidade, competência e delicadeza é a essência da qualidade empregada nas escolhas e na realização. Sob direção musical de Tony Lucchesi, oito músicos interpretam 33 canções. O desenho de som de Gabriel D’ Angelo é um dos mais puros e límpidos que eu tenho visto nos últimos tempos. Uma equalização cristalina, que distribui harmonicamente todas as vozes e instrumentos. Fazendo com que o som do texto e das músicas sejam ouvidos em cada nota, em cada frase musical, em cada uma das melodias e músicas.

Bibi, uma vida em musical foto Guga Melgar 59

A história das cias teatrais, suas estrelas, e mazelas, fazem parte do universo explorado pela dupla de autores. Foto Guga Melgar.

Bibi, uma vida em musical Amanda Acosta foto Guga Melgar 71

Amanda Acosta constrói um dos maiores papéis de toda a sua carreira. Sua atuação é esplêndida, minuciosa e preciosa. Raras vezes vi tanta competência, talento, técnica, juntos em uma única atriz. É uma interpretação de antologia. A altura do mito Bibi Ferreira! Foto Guga Melgar.

A cenografia de Natalia Lana é excelente em todos os sentidos. No que diz respeito a concepção e a execução. A ideia de transformar a área de atuação em um picadeiro e em um palco teatral foi um grande acerto, já que Bibi faz parte de uma cepa de grandes nomes que fizeram do picadeiro, palcos, coxias e camarins a sua verdadeira, e única, casa. Uma atriz que nunca hesitou na hora de escolher entre o Teatro e a sua casa. Sempre optando pelo primeiro. A concepção teve grande inspiração no Teatro Simbolista e Revisteiro: com seus telões pintados, escadaria, mobiliário pequeno que se desenvolve rapidamente em cena; além dos emblemáticos praticáveis de madeira, uma marca em nosso Teatro antigo. Assim como as luzes cenográficas de lâmpadas em fios que nos remete aos circos mambembes, ao teatro de revista e a artesania do teatro brasileiro, que devem também ser atribuidas a excelente luz de Rogerio Wiltgen. Um sofisticado projeto que mescla os grandes musicais com o recorte e o intimismo de uma caixa cênica teatral. Um domínio absoluto e preciso para uma luz musical com alma e essência teatral. A coreografia de Sueli Guerra é uma das mais criativas em que eu assisti nos últimos anos. Aliando sofisticação com incrível teatralidade nos gestos de todas as cenas. Um desenho de corpos que bailam décadas de estilos corporais. Trazendo a grandeza fabulosa, ao mesmo tempo em que ressalta a delicadeza dos pequenos gestos. Nos levando propositalmente aos números marcados e simples de um saudoso tempo passado. O número de abertura circense é um show a parte com um sem número de piruetas executadas, com brilhantismo, por um casal de bailarinos. Os figurinos de Ney Madeira e Dani Vidal é um assombro em criação, composição e realização. Funcional, artístico e de grande luxo e riqueza em todos os detalhes.

Bibi, uma vida em musical Amanda Acosta foto Guga Melgar 95

Bibi Ferreira, e a sua família, participaram de praticamente toda a história de nosso teatro moderno. Uma vida de incomensúravel importância. Bibi foi a primeira atriz a realizar o gênero musical no Brasil. Sua excelência se distribuia entre a atuação, o canto e a dança. Uma atriz completa, e com certeza, uma das maiores do mundo! Foto Guga Melgar.

A composição do elenco é uma das escolhas mais acertadas nestes últimos tempos, a começar pela escolha da atriz e cantora Amanda Acosta no papel de Bibi. Faltarão adjetivos na língua portuguesa para definir o que faz Amanda em cena. Atuações como esta realmente atingem um grau de perfeição poucas vezes vistas em nossa cena. Este trabalho merece realmente um estudo e uma análise profunda. Não uma análise banal que encontramos a todos os momentos por aí que alçam qualquer coisa como obra de arte, e nos obriga agora a buscar palavras que possam medir este momento. A composição, o timbre, a dicção, a voz, o espírito, a força, o carisma, a luz, o vigor e a interpretação!!! O que é Amanda Acosta? Uma das mais completas atrizes de nosso tempo. Outra escolha impressionante é do ator Chris Pena no papel de Procópio. Um ator que eu assistia geralmente em coro ou elenco de apoio de grandes musicais, e que não podia imaginar que estava ali escondido do público, um ator tão interessante! Que soube realizar e construir, nada mais, nada menos, do que um dos maiores mitos de nosso teatro. Nasce para min um novo ator. Uma atuação surpreendente e absolutamente coesa com o espírito do ator da época. Os narradores, muito apropriados para contarem essa história, se encaixam perfeitamente na proposta não só do espetáculo, mas da história do próprio teatro brasileiro que usa em décadas de construção dramatúrgica, essas personagens narradoras. Leo Bahia, como o Mestre de Cerimônias, realiza um trabalho potente, vigoroso, com uma voz potente e um canto exemplar, muito bem equilibrado com as ricas personagens da cigana e da Vó Irma, das atrizes Flavia Santana e Rosana Penna. Todos os atores estão absolutamente bem dirigidas e bem adequados para todas as personagens, onde se dá ênfase a vários tipos de interpretação, em diversas épocas de nosso país. Todos tem um destaque especial: Analu Pimenta como Vanda, André Luiz Odin como diretor de cinema, Bel Lima como Maria Bethânia, Caio Giovani como Maquiador, Carlos Darzé como Vianinha, Fernanda Gabriela como Henriette Morineau, Guilherme Logullo como Paulo Pontes, João Telles como o Sr. Praxedes, Julie Duarte como Lígia Ferreira, Leandro Melo como Hélio Ribeiro, Leonam Moraes como Ïtalo Rossi, Luísa Vianna como Neide e Moira Osório como Cacilda Becker. Uma menção especial ao respeito da produção em colocar o nome de cada uma das personagens e atores. Acho de um tremendo mau gosto programas que colocam atores e atrizes, apenas como “coro” ou “personagens masculinos” e “personagens femininos”.

Um projeto com tantos detalhes e minúcias, e coberto de muito amor, paixão e competência, não poderia ter outro resultado senão o sucesso retumbante que o mesmo tem desde o abrir de sua primeira cortina! Impossível algum musical ser melhor do que este nesse ano de 2018. Simplesmente porque não existe no Brasil mais alguém que seja comparada com a magistral Bibi Ferreira, em seu conjunto da obra absoluto. Por fim, que grande felicidade que temos esse Mito ainda vivo entre nós, e que ela possa saber que a sua vida jamais será esquecida por todos nós! O seu nome e legado são imortais!

 

Ficha Técnica

Texto Artur Xexéo e Luanna Guimarães

Elenco Amanda Acosta, Analu Pimenta, André Luiz Odin, Bel Lima, Caio Giovani, Carlos Darzé, Chris Penna, Fernanda Gabriela, Flavia Santana, Guilherme Logullo, João Telles, Julie Duarte, Leandro Melo, Leo Bahia, Leonam Moraes, Luísa Vianna, Moira Osório, Rosana Penna, Simone Centurione.

Música original Thereza Tinoco

Direção musical e arranjos Tony Lucchesi

Coreografia Sueli Guerra

Direção Tadeu Aguiar

Cenário Natalia Lana

Figurino Ney Madeira e Dani Vidal

Desenho de luz Rogerio Wiltgen

Desenho de som Gabriel D’Ângelo

Visagista Ulysses Rabelo

Assistência de direção Flavia Rinaldi

Assistência de coreografia Olivia Vivone

Assistência de direção musical Alexandre Queiroz

Assistência de iluminação Wagner Azevedo

Coordenação de produção Eduardo Bakr

Produção geral Cláudia Negri

Realização Negri e Tinoco Produções Artísticas

Assessoria de imprensa Meise Halabi- meisehalabipr@gmail.com

 

Serviço

Teatro Oi Casa Grande

Av. Afrânio de Melo Franco, 290 | Leblon – RJ | 21 2511 0800

5 de janeiro a 1 de abril de 2018

Quinta e sexta 20h30 | Sábado 17 e 21h | Domingo 19h

Duração 140 minutos

Indicação Etária 10 anos

Capacidade 926 lugares

Plateia VIP R$ 150 (inteira)

Plateia Setor 1 R$ 120 (inteira)

2º piso

Camarote R$ 150 (inteira)

Balcão 2 R$ 90 (inteira)

Balcão 3 R$ 50 (inteira)

Vendas tudus.com.br

 

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 5