Big Sister Brasil: A Casa das 9 Mulheres…E Babu!

Eliminados do programa são reflexos da distorção contemporânea da sociedade brasileira

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01 de abril de 2020

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Esta semana tivemos um recorde total de votação! Um número equivalente à população da Índia votou neste paredão do Big Brother Brasil! Apesar de muita gente convicta continuar dizendo não assistir ao BBB (eu mesmo não assistia), e tantos outros terem passado a assistir devido à quarentena metalinguística com o confinamento do programa, ainda assim uma participação de público desse porte é admirável e muito reveladora de marcadores sociais. Há de nos dignarmos a ao menos levarmos a sério razões e efeitos para chegar nisso. Digno de nota! Um Total de 1.532.944.337 votos. Vou escrever por extenso para impressionar mais: um bilhão, quinhentos e trinta e dois milhões, novecentos e quarenta e quatro mil e trezentos e trinta e sete votos.

Felipe Prior – 56,73% (869.639.322 votos)
Manoela Gavassi – 42,51% (651.654.637 votos)
Mari Gonzalez – 0,76% (11.650.376 votos)

Mas… o que sobrou?! É o que muita gente está se perguntando… Após a saída do atual vilão da casa, sobrou “A casa das 9 mulheres… e Babu”! Parece que esta temporada quis tratar de tudo ao mesmo tempo…, mas não é isso que é o mais surpreendente, e sim o fato de ter conseguido! Pareceria até com uma sala de roteiristas (writers room) planejando todos os assuntos que iriam acontecer nessa temporada do BBB e pensando: o que está acontecendo com o Brasil?! “Ah, o Brasil é uma sociedade patriarcal onde impera o machismo, então vamos botar uns caras super misóginos e umas feministas para contrabalançar!”. Mas seria o suficiente para aguentar meses de confinamento na casa?

Aí eles lembraram que o machismo nem sempre é evidente… Existem muitos comportamentos tóxicos sutis na estrutura da sociedade. “Então, vamos aproveitar e falar de relacionamentos abusivos com um cara aparentemente legal…”. E assim, não apenas formaram-se casais que reproduziam algumas destas questões das mais variadas formas, como a casa, predominantemente feminina, na análise prévia de personalidades selecionadas no jogo, conseguiu enxergar isso dentro do confinamento e foi colocando no paredão cada pessoa envolvida nesse esquema (incluindo a única mulher que saiu até agora, envolvida no triângulo amoroso que foi usado para oprimir a outra participante vulnerabilizada).

Mas só isso?! “Só”?! E você não acha que isso tudo já basta?! Mas serão vários meses de confinamento e de programa ao vivo… Precisamos de mais… Claro que há espaço para surpresas, como a soberba de um ou outro participante que todos gostariam de ver cair de seu pedestal ou a sexualidade mal compreendida de outro (ou deveria dizer a assexualidade), que faz com que não só o programa discrimine o personagem como faz o próprio personagem agir na defensiva e atacar até aliados ao se sentir rejeitado, o que o tornaria não tão agradável mais para o público.

Só que isso “tudo” não alcança nem a ponta do iceberg do que representa o Brasil de hoje, o Brasil polarizado e descontente com a política, mas cuja parcela da população colocou o sujeito que agora está no poder e que todos não só no Brasil como no mundo o repudiam com alto percentual de rejeição. Mas qual foi a sociedade que preparou o terreno para isso?! E daí adveio uma gama de questões que faltavam, como a diferença de classe (há de exemplo o sistema da Xêpa e do VIP e a perda de estalecas por integrantes que não se importam com o coletivo, o dinheiro da casa) ou mesmo de raça (vide chamarem o Babu de monstro devido à sua compreensão rígida do racionamento de comida, só quem já passou fome entende). Pois o elitismo e o racismo no Brasil é bastante indicativo do lugar em que chegamos. E sim, mesmo que a parcela a sobrar da casa tenha sido predominantemente de mulheres, o feminismo branco de elite às vezes atinge pontos cegos que podem reproduzir padrões tóxicos sociais, e, mesmo que a princípio talvez sem querer, podem tratar outras pessoas da casa de forma diferente também. — Mas será que o programa vai dar conta de lidar com todos estes problemas? Ué, mas o Brasil não precisa aturar isso todos os dias na pele? Por que não?

Mas sem descanso, hein… Porque o quanto o Prior precisava sair é também lembrar que dois errados não formam um certo. Se meus finalistas favoritos seriam Babu, Rafa e Thelma, independente disso, ao mesmo tempo, o trio hippie remanescente Marcela, Giselly e Ivy não se torna mais certo só porque o único que estava mirando nelas 3 tinha sim de sair agora — por inúmeras outras razões.

Essas três passaram a pesar a mão no jogo e a discriminar parte da casa de forma segregadora… Seja segregando Babu, sim, e até segregando Thelma. A forma com que julgam pesadamente e se voltam contra a casa com dois pesos e duas medidas, ao mesmo tempo com que são permissivas com os erros de si próprias, faz com que esvaziem até as coisas que lhes dariam razão. Isso para além do Daniel, que era o homem igualmente equivocado na casa, quase tanto quanto outros que já saíram, e que ainda oprimia questões de classe e raça na casa, e as meninas passavam a mão na cabeça como se fosse um bichinho de estimação totalmente inocente. Daniel foi um divisor de águas que demonstrou dois pesos e duas medidas…

Daniel podia tudo. A casa não podia nada. Giselly pode tudo, a casa não pode nada. Ivy pode tudo, a casa não pode nada. E Marcela faz tanto esforço para continuar a legitimar as amigas que nem percebe (ou talvez perceba, não sei, pois não posso estar dentro da cabeça dela) o quanto endossa e às vezes até reproduz a forma com que as amigas segregaram a casa.

Elas acham que Rafa e Manu se tornaram dissidentes dos hippies ao abraçar a “excluída” Gabi, que sobrou da metade eliminada anteriormente na casa (lembrando que Gabi foi resgatada de uma relação abusiva que a feriu muito, mas, logo depois de eliminarem o Gui, o trio hippie remanescente sequer se importou em ajudar a “amiga” a se curar). E depois o trio olhou com maus olhos que Rafa e Manu tenham “cooptado” a Thelma como se quisessem “minar” os hippies, quando, na verdade, muito pelo contrário, Thelma foi acolhida quando o trio excluiu a própria amiga porque elas não entenderam a conexão e ancestralidade de respeito entre Thelminha e Babu. Elas não conseguem entender a deferência e solidariedade entre Thelma e Babu porque elas não se racializam, elas não se reconhecem na formação de um padrão por default. Padrão esse que Prior até estava certo em botar no paredão, mas não valia continuarmos a ser indulgentes com o lado negativo do Prior que era bem mais pesado do que o positivo. E esperemos que outras pessoas com menos esqueletos no armário consigam enxergar esta mesma meta no jogo para deixar o público decidir se esse trio ainda merece ficar na casa ou não…

E para quem achava que não ia ter mais intriga, escândalo e conflitos na casa do Big Sister Brasil com a saída do vilão da vez, esperem por esperar! A Rafa já percebeu as excludentes ex-hippies se escondendo sorrateiramente para eliminar o outro lado, e já enunciou na madrugada do BBB que não vai deixar barato. Ainda mais depois de Gi ter tentado sabotá-la no jogo. E Rafa agora tem Thelma e Babu como aliados. O jogo só está começando!

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Lágrimas de crocodilo no #bbb – Parte 1

Talvez devêssemos exemplificar algumas destas questões. Por exemplo, Marcela recentemente admitiu para a Mari que não andava chorando por causa da saída de Dan, e sim porque não sabia mais no que acreditar… Se o Dan foi eliminado por rejeição, ela passa a não estar mais segura na casa! Sim! As lágrimas são de auto preservação! Paranoia! Porque seus atos sempre voltam para você, e num programa como esta que serve de lente de aumento, a sensação de perseguição e de rejeição só aumentam.

Noutro momento, destaco os seguintes diálogos:

Giselly: “Eu quero sair pela porta mais do que nunca, é isso que eu quero, não aguento ficar mais aqui, eu quero ir embora pra perto de gente que eu gosto….Não aguento mais, quero me cortar, quero me machucar…..quero sair daqui, eu não quero ficar mais aqui.”

Ivy e Marcela conversando sobre o ciúme da Gizelly delas com Mari e Flayslane.

Ivy: “‘Não é porque você (Gizelly) é minha amiga que eu não posso conversar com outras pessoas, que eu não posso gostar e admirar outras coisas também, não.’ Eu adoro a Mari, mas se for pra votar na Mari ou na Gi, eu voto na Mari, e ela sabe, a Mari sabe, a Gi sabe, nunca foi segredo pra ninguém isso, mas eu não entendo esse surto.”

Marcela: “Eu não suporto isso. Ela me fez tão mal dentro do programa, sério. A Gi me machuca muito aqui dentro. Infelizmente, é uma das pessoas que eu mais amo e uma das que mais me machucam dentro desse programa. Eu não falo nada porque… eu não vou falar, não é o melhor, lá fora eu vou falar, aqui não.”

Porém, infelizmente devo dizer que não tenho pena não! A segurança que elas sentiram de conseguir eliminar os primeiros (os machistas) fez com que o poder subisse a cabeça delas, e começaram a atacar questões sem nenhuma consciência de classe e raça. Muitas análises na internet ressaltam que elas focaram o típico feminismo branco de elite, e com razão, o que não alcança a interseccionalidade necessária para enxergarem algumas pessoas que elas passaram por cima que nem trator, como Babu….e depois até mulheres como Flay e agora a própria amiga Thelma. Porque estas mesmas que agora pedem arrego ou para sair foram as primeiras a julgar todo mundo e condenar como se fossem promotoras da justiça, juízas e carrascas ao mesmo tempo, especialmente em questões para além da de gênero como diferenças de classe e raça, das quais elas não tem consciência nenhuma.

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Lágrimas de crocodilo no #bbb – Parte 2

As máscaras estão caindo….e não é trocadilho com a postura do presidente em época de coronavírus. De fato, muitas máscaras estão caindo!

Em grande parte o BBB é o perfeito exemplo metalinguístico do que estamos vivendo hoje. Um pequeno microcosmo que representa o macro. Um grupo aleatório de pessoas confinadas numa única casa que personifica as idiossincrasias da nossa sociedade e deste governo. Antropologicamente, há muito o que se analisar no #BBB20 hoje em dia. A estética de confinamento é exatamente o que todos andam sentindo com o coronavírus.

Mas o fato é que alguns representantes cínicos e hipócritas se fazendo de sonsos lá dentro da casa servem como signos do que estamos enfrentando, por exemplo, com a postura das pessoas que estão renegando a seriedade da pandemia mundial e espalhando fake news. É isso o que algumas pessoas do BBB são: gado de fake news. Alvos fáceis para a manipulação em massa, e acham que fazem parte do privilégio de quem manipula quando são apenas os manipulados. A dupla Ivy e Daniel são o perfeito exemplo disso: falsos defensores de uma pseudo moralidade social do que seria certo ou errado… Condenando aqueles que discordam deles como advogados, juízes e carrascos ao mesmo tempo! Que pretensão! E sempre travestidos de cordeirinhos… Fingindo ser inocentes, puros… e como se esse referencial de pureza (dado a eles por seja lá qual for a crença deles) seria capaz de se destacar dos pecadores imperfeitos que eles lançam na fogueira da purificação.

Acho bastante pertinente esta analogia, principalmente depois de alguns movimentos bem torpes no jogo, como o falso do Daniel colocar a Thelminha no Monstro porque “não sentiria afinidade” por ela (falta de afinidade que Pyong já havia chamado na cara dele de PRECONCEITO!)…e agora finge afeto só porque ela é líder e poderia botar ele no paredão sem nem bate e volta. Enquanto Ivy incitou a Mari contra a Thelma depois desta ganhar a prova do líder por mérito próprio, tentando jogar o grupo dos hippies contra Thelma, tentando distorcer a tábula do jogo como se a vencedora devesse se sentir culpada por ganhar ou isso fizesse sua vitória valer menos…Afinal, pela corrente defendida pela Ivy, Mari teria “entregado” a prova para Thelma, fazendo esta de “coitadinha” — alcunha não aceita COM TODA RAZÃO, o que elas usaram para condená-la como se fosse mal agradecida, como se o único lugar que lhe fosse possível fosse o que eles lhe dessem.

Essas pessoas que se fingem “de bem” e inocentes são muito perigosas. É fácil odiar o Daniel, para além de sua imagem pseudo inocente, porque ele é um desastre irritante ambulante. Sua própria existência cospe no prato das regras do jogo. Ele esvazia o propósito do jogo existir: falso e prepotente! Uma ofensa às diferenças de classe dentro e fora da casa, pois este personagem que Daniel adotou (duvido que seja assim mesmo!) cospe na cara do brasileiro que está preso dentro de casa devido ao coronavírus e não podendo trabalhar e ganhar seu próprio sustento de forma digna, enquanto ele perde TODO o dinheiro falso da casa como se não significasse NADA. Ele joga dinheiro fora diariamente — e NUNCA É PUNIDO pelas colegas que são as primeiras a punir terceiros quando bem apraz.

Mas não se enganem e deixem passar tão facilmente a culpa que Ivy ostenta também. Juntamente com Daniel! Se Daniel se coloca neste personagem fake de quem não se responsabiliza por nada, são pessoas como Ivy e Marcela (e Giselly noutras vezes) que instrumentalizam ativamente o poder passivo de destruição de Daniel. São elas que exercem com bastante consciência a opressão do abismo que Daniel abre, mas que ele próprio não poderia colocar em prática sozinho por precisar se manter no personagem imbecilizante. São as mulheres ao seu redor que o sancionam como bom moço e, por comparação, condenam quem não chega perto deste pedestal angelical permissivo que tudo pode e em nada é responsabilizado. Quem deu todo este poder segregador foram elas! E Ivy principalmente. Porque se Marcela ainda se escuda atrás da postura feminista branca privilegiada e cega às outras subjetividades (depois voltaremos à ela, porque o dela está guardado), já Ivy nem sente remorso nem qualquer hesitação em atacar quem quer que seja com o poder que o grupo lhe dá. O poder da maioria de direitos… É Ivy quem escancara o racismo e intolerâncias do grupo. E o que é pior: ainda se faz de inocente e pura como Daniel. Patética. Com certeza será o próximo alvo.

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