Bimi, Shu Ikaya

Democratização dos meios de produção: ocupar e resistir

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24 de janeiro de 2019

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A principal competição de longas inéditos em Tiradentes já exibiu metade de seus concorrentes na Mostra Aurora e ainda assim o filme que mais impactou este crítico que vos escreve continua sendo “Bimi, Shu Ikaya” de Isaka Huni Kuin, Siã Huni Kuin e Zezinho Yube.

Este é um longa-metragem indígena possibilitado pela linguagem audiovisual levada por programas sociais como o “vídeo nas aldeias”, projeto por parte de nomes como Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tatiana Almeida (também realizadores da obra-prima “Martírio”). Isto demonstra o quanto necessitamos registrar nossas próprias histórias para as próximas gerações, a partir de pontos de vista ímpares que venham das próprias raízes dessa história.

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Inevitavelmente esbarramos na questão imprescindível do lugar de fala, sim, mesmo que tanta gente distorça o sentido positivo da expressão, mas se fazendo indissociável deste debate. Por quê? Porque os indígenas como povo natural das terras brasileiras não apenas foram caçados pelos portugueses como ainda hoje são perseguidos pelos brasileiros com interesse em suas terras. — Terras estas protegidas e preservadas como patrimônio histórico-cultural do país; de todos nós. E não há maior conhecedor desta cultura do que os próprios geradores deste patrimônio.

Não que uma pessoa não-indígena esteja impossibilitada de fazer um filme sobre a cultura indígena, ou mesmo fazer até um filme ótimo (vide “Martírio” citado acima, ou “Serras da Desordem” de Andrea Tonacci), mas quem melhor do que os próprios geradores deste conhecimento para ter interesse maior em preservá-lo? E não apenas isto, como o próprio filme aborda a questão de maneira metalinguística quando insere as dificuldades e as conquistas dos próprios realizadores dentro da narrativa projetada na tela. A equipe técnica tem auto consciência de que está filmando e sendo filmada, produzindo, assim, uma das catarses diegéticas mais poderosas que pode ser assistida sobre ser cinema e cultura neste país — como há muito tempo não se via.

A protagonista principal de nome Bimi Shu Ikaya é a avó do diretor, a quem ele admira tanto, por sua força e seus feitos sem precedentes, que o próprio foi atrás dos mecanismos com que pudesse preservar sua história de modo a poder transformá-la em filme! Isto é de tal potência que insere novas possibilidades democratizadoras através do cinema em muitos meios sociais que o Estado abandona ou negligencia, a tal ponto que possa o meio em si se projetar e exigir a atenção que merece para o retorno correspondente. Bimi é a primeira pajé mulher daquela aldeia, e quem fundou a tribo no espaço que eles ocupam da área preservada disputada por todos ao redor. Há toda uma cultura branca e não indígena querendo apagar aquela riqueza para obter as terras que lhes são destinadas. Alguns destes empreendimentos em nome do capital acham que isso se chama progresso, mas apagar a conquista que significa a preservação de nossas origens, e o atinamento com os tempos atuais de que as mulheres estejam à frente das administrações coletivas, como a pajé Bimi Shu Ikaya, seria um retrocesso sem precedentes. A própria protagonista em determinado momento avisa a seus companheiros que não irá tolerar cultura branca em meio aos rituais que eles foram ali filmar, pois o objetivo era justamente o de se registrar e alcançar toda a mística do que ocupa e resiste através dos séculos. Se não está dando certo nem para a civilização não-indígena, por que deveria ser imposto como se fosse dar certo para eles também?!

Numa das frases mais poderosas do filme, o diretor Isaka Huni Kuin, neto da pajé, diz que o homem branco pode ser bom cineasta porque pode praticar e exercer isso como profissão o dia inteiro, e os compara com os caçadores da tribo, que vivem de caçar para alimentar os seus, e por isso são tão bons no que fazem. Da mesma forma, o cinema também é um alimento, um alimento para a alma. E quanto mais o exercemos, mais podemos nos aprimorar a viver deste alimento. Isaka ainda complementa a dizer que se todos os indígenas se inscrevessem nos editais para fazer cinema, chegaria um momento em que o homem branco não poderia mais negar a sua existência, e eles começariam a aprovar os seus projetos. É uma questão de existir. É um direito de existir. E este direito que tanto debatemos em todas as searas e representatividades tampouco pode continuar a ser negado à nossa população indígena.