“Bingo – O Rei das Manhãs” – Radiografia unidimensional de um complexo personagem

Protagonizado por Vladimir Brichta, longa estreia nesta quinta-feira, dia 24.

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23 de agosto de 2017

Franquia americana criada nos anos 1940, Bozo fez muito sucesso em vários países e no Brasil foi exibido pelo SBT entre 1980 e 1991. O palhaço era responsável por espalhar alegria e simpatia em uma época plena em ingenuidade sem restrições de patrulhas morais e/ou ideológicas. Arlindo Barreto, um dos intérpretes deste palhaço (de 1984 até 1986) era um ator obscuro que ganhou fama dentre tantos Bozos (foram nove no total) e sua história é contada em “Bingo – O Rei das Manhãs” (o nome foi alterado por causa de direitos autorais), primeiro trabalho do premiado montador Daniel Rezende (responsável pela edição de “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”).

Vladimir Brichta vive Arlindo Barreto, Arlindo Barreto, um dos intérpretes de Bozo, aqui, Bingo (Foto: Divulgação).

Vladimir Brichta vive Arlindo Barreto, Arlindo Barreto, um dos intérpretes de Bozo, aqui, Bingo (Foto: Divulgação).

Apesar de ser uma história que fala de narcisismo, reconhecimento e redenção, há uma estranha manipulação que falsifica a realidade e amplia as aparências. A trama possui um grande potencial invisível onde vemos um ser deslocado lutando desesperadamente por um lugar ao sol, mas que prefere caminhar pelas sombras. No entanto, a narrativa perde-se na importância da imagem dramática em detrimento de um conteúdo mais denso que fizesse jus à imagem do eufórico personagem.

 

O roteiro escrito por Luiz Bolognesi (“Bicho de 7 Cabeças”) é repleto de licenças poéticas, embora não consiga ir além do desenvolvimento regular de qualquer cinebio que o cinema nacional insiste em produzir. Conta-se apenas uma história (de preferência em ordem cronológica) com fortes cargas melodramáticas, assumindo um protocolo sentimental e sedutor. A preocupação com a reprodução de uma imagem fiel fala mais alto que a composição cinematográfica e transforma o filme em uma radiografia unidimensional de um complexo personagem. Com impecável produção de arte e um desempenho vigoroso de Vladimir Brichta (que consegue transmitir o arrepiante limite entre a infantilidade e o demoníaco), Rezende caminha por uma fórmula de sucesso com pouco risco e muitas recompensas e entrega um trabalho extremamente profissional sem exigir que sua plateia faça algum esforço intelectual para compreender a magnitude de um universo repleto de expansões e a contrações.

Avaliação Zeca Seabra

Nota 3