Boa Sorte

Exercício de Empatia

por

08 de junho de 2018

Em 2016, este que vos escreve fez parte do Júri FIPRESCI da crítica especializada no 18º Festival Internacional de Cinema do Rio e, como parte da premiação, pudemos dividir o troféu da crítica entre um representante da Première Brasil, que foi para “Era o Hotel Cambridge” de Eliane Caffé, e um da Première Latina, laureando “Viejo Calavera” de Kiro Russo, sobre os trabalhadores de uma mina boliviana divididos entre as terríveis condições de vida e a preservação da memória cultural de seus ancestrais. A intenção do filme era mais sócio-cultural do que necessariamente apenas criticar o prejuízo danoso do capital em apagar as origens de um território. E o diretor contava essa história com um olhar estético extremamente preciso, desvelando e afunilando quadros de forma extremamente original para cercar o espectador com a mesma escuridão que a mina oprime os personagens.

Agora, esta ótica do passado regressa na competição principal de longas metragens do VII Olhar de Cinema quando defronte do filme “Boa Sorte” de Ben Russell, coprodução francesa e alemã, porém com mais munição contra o capital e menos para o lado antropológico do povo cerceado, bem como mais experimental em termos de linguagem do que a técnica calculada e exuberante de “Viejo Calavera”. Aqui, Ben sabe exatamente o desconforto que causa e quer causar. Para começo de separação entre os dois filmes, “Boa Sorte” não se concentra apenas em uma única região mineira, traçando cartesianamente a comparação entre dois territórios completamente distintos em duas metades proporcionais do filme: uma cobrindo a mina de cobre na Sérvia e outra a mina ilegal de ouro nas paisagens tropicais do Suriname.

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Com quase duas horas e meia de duração e a premissa básica ditada desde a sinopse sobre a proporcionalidade de duas realidades contrapostas de maneira presumivelmente observativa, o espectador pode até esperar por previsibilidade, mas nunca por pouco engajamento, pois este mesmo crítico que vos escreve foi fisgado nos vinte primeiros minutos como jamais esperaria diante do proposto. Decerto superlativo, às vezes sem necessidade, Ben escolhe algumas longas passagens e planos-sequência onde nos carrega junto de forma empática a sentirmos na pele o que aquelas pessoas estão sujeitas todo dia. Desde a primeira tomada aberta quando a floresta do Suriname se transforma nas montanhas geladas e secas da Sérvia, desvelando em reenquadramento a banda inicial que traz uma das únicas músicas de toda a projeção, tocando o saudosismo de antes da cidade deles ter sido soterrada sobre os escombros de fossos do passado, ao momento final do filme em que retomará uma das outras únicas músicas da trilha diegética, desta vez com o Suriname cantando sobre os mitos que os aprisionam. Duas cenas musicadas opostas pela projeção do filme, dois momentos inversamente proporcionais.

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Depois, acompanhamos longamente enquanto os sérvios seguem por corredores que vão se estreitando e perdendo o benefício da luz conforme descem pelos túneis e elevadores da primeira mina visitada, de modo a confinar nossa visão pelos mesmos obstáculos narrativos que no interior da tela. Uma sequência desconcertante de uns dez minutos ou mais com um dos mineiros escavando a caverna com uma britadeira ensurdecedora, cuja vibração atravessa os assentos do cinema como se fosse 4D, e nos sentimos como se igualmente cobertos pela poeira inebriante inalada pelo personagem, inevitavelmente. Planos-detalhes nas articulações enquanto a britadeira vibra e sentimos que ninguém envelheceria de modo saudável uma vez exposto a esta rotina, isto se não contraísse câncer nos pulmões primeiro. Intercalado a isto, vários interlúdios com cada um destes membros do elenco não-profissional simplesmente sentado e encarando a câmera, numa estética que abandona as cores antes utilizadas na filmagem e abraça o Preto & Branco. — parecido com o filme “Paraíso” do russo Andrei Konchalovsky — Só que aqui os personagens lhe encaram silenciosamente, um de cada vez, por intervalos intermitentes, cobrando uma reação, algo como um confessionário, onde não pronunciam uma palavra. A mudez nesta situação é mais pungente, porém, ao invés de ser mera imposição do diretor, no que nos questionamos o quanto os mineiros estão sendo dirigidos ou ‘performando’, são os próprios que ligam e desligam a câmera, independente de o quão desconfortáveis às vezes se demonstram com esta intimidade trocada pelo olhar desnudado.

Durante poucos ‘descansos’ do trabalho pesado, o elenco conversa alguns poucos assuntos, como sobre idade e sonhos… A montagem, ao menos da primeira metade do filme, durante a fase sérvia, fica bem mais metaforicamente evidente, como no caso da idade, contrapondo o discurso sobre o decorrer do tempo com o alongamento das cenas de desesperança de vida para aquelas condições laborativas. Ou a questão dos sonhos…será que sobra espaço para sonhar…? Claro que a pergunta é meramente retórica, mas também provocativa, contestada pelas sequências de pesados maquinários disformes e barulhentos na escuridão, que não permitiriam que os pensamentos ascendessem para além daquela espessa nuvem de poeira sob toneladas de terra.

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Já a segunda metade da projeção, especialmente por tratar de uma pobreza mais próxima a nós na América Latina, como com personagens negros em minas ilegais, diferente das da sérvia, no Suriname os mineiros possuem seus corpos mais explorados em close, quase como se o prazer masoquista inerente ao cinema erotizasse o sofrimento. Há ali um estranho prolongamento da câmera em músculos e tensionamentos musculares que pelo calor estão mais expostos. Exposição esta que amplia também a sensação de perigo objetificante para os personagens. Eles demoram mais do que os sérvios a falar, a contar histórias… A primeira delas até parecendo deslocada, em relação a preconceito deles consigo mesmos, como ao dizer que os companheiros não ‘gostam de trabalhar’ ou que ‘somem e largam o batente’. Mas estamos lidando com condições de extrema insalubridade e perigo de morte, e a ‘preguiça’ alegada por uns contra os outros rapidamente se desmistifica em concorrência na adversidade absoluta. Ninguém ali possui escolha. As minas do Suriname possuem tempo de vida contado, quando não são atacadas por milicianos… Como não estão cobertas pela Lei ficam à mercê da suscetibilidade do destino. Os contos supersticiosos sobre derramamento de sangue na terra e simpatias com animais predadores se transformam em perseguição humana e do capital.

Eis a maior catarse de um filme duro, pesado, intencionalmente cansativo e denso que irá atrair reações adversas de diferentes tipos de público, mas que, quando alcança a junção entre os dois espaços unidos por analogia, mesmo que sem transportar fisicamente nenhum integrante de uma mina à outra, nem é preciso. É neste momento em que enfim se distancia da mera denúncia passiva que já havia sido apresentada ano passado neste mesmo Festival, na edição do VI Olhar de Cinema, com o filme “Máquinas” de Rahul Jain, sobre exploração de trabalho infantil na Índia. “Boa Sorte” possui uma construção de cinema maior do que a mera documentação observacional, e assume a pretensão de lhe tirar da cadeira e fazer algo. O planeta está interligado pela dor e pela exploração, seja de ouro, metais preciosos ou inúmeras outras codependências desproporcionais para as duas metades do globo, mas…até quando?