Boca de Ouro

Malvino Salvador vive o lendário bicheiro carioca, em uma encenação de Gabriel Vilela, com aura de carnaval

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17 de janeiro de 2018

Foto João Caldas.

Atores em cena de “Boca de Ouro”. Direção de Gabriel Vilela. Foto João Caldas.

Boca de Ouro é um lendário bicheiro carioca, figura temida e megalomaníaca, que tem esse apelido porque trocou todos os dentes por uma dentadura de ouro. Também é conhecido como o Drácula de Madureira. Quando Boca é assassinado, seu passado é vasculhado por um repórter. Sua fonte é dona Guigui, ex-amante do contraventor, mulher que, ao longo da peça, revela diferentes e contraditórias versões do bicheiro.

Este é o mote da tragédia carioca “Boca de Ouro”, cujo papel-título é vivido por Malvino Salvador, na montagem de Gabriel Villela que chega ao Rio depois de quatro meses de sucesso no Teatro Tucarena, em São Paulo. Estão ainda no elenco Mel Lisboa e Claudio Fontana, como o casal Celeste e Leleco; Lavínia Pannunzio, que vive a transtornada Guigui, ao lado de Leonardo Ventura, que dá vida a seu fiel e apaixonado marido Agenor. Chico Carvalho é Caveirinha, o rodriguiano repórter que carrega em si o olhar afiado e crítico Nelson Rodrigues, jornalista que durante anos trabalhou em redações e conheceu ele próprio os vícios e contradições da imprensa. Cacá Toledoe Guilherme Bueno completam o elenco junto a Jonatan Harold, ao piano, e Mariana Elisabetsky, interpretando as 14 canções do espetáculo.

As diferentes versões de Guigui para a morte de Boca de Ouro levaram Gabriel Viellela a fazer conexões com uma pesquisa recente da universidade de Harvard, sobre um fenômeno contemporâneo chamado “pós-verdade”. Villela explica: “É um produto da modernidade tecnológica: você inventa uma história, realinha ideias, publica, arruma vários seguidores e isso se amplia, viraliza na internet e ninguém mais sabe sobre o que se está falando. Somos todos vítimas disso. (…) A Guigui é insuperável – com três expedientes emocionais e psíquicos, ela conta três vezes a mesma história, embaralhando com maestria para que tudo seja incrivelmente verdadeiro”.

A ambientação idealizada por Gabriel Villela remete a uma gafieira, com mesas e cadeiras, revezando-se entre uma redação de jornal e as casas dos personagens. Dentro das iconografias do subúrbio carioca, Gabriel se utiliza da simbologia do Candomblé e das mascaradas astecas no espetáculo. A casa de Celeste e Leleco traz muitas representações de Orixás sincretizados. A figura de Iansã (Guilherme Bueno) aparece toda vez que uma cena de morte acontece – ela faz a contrarregragem das mortes. O Brasil retratado na cena: a política, as narrativas contraditórias, a libido, a festa da gafieira, o jogo do bicho, a fé e a música. Retratos de uma época que nos mostram que o Brasil pouco mudou, e que o dramaturgo nascido em Pernambuco em 1912 e radicado no Rio de Janeiro, nunca foi tão atual.

Esta é o terceiro texto de Nelson Rodrigues encenado por Gabriel Villela. Em 1994 montou A Falecida, com Maria Padilha no papel título, e em 2009 Vestido de Noiva, protagonizado por Leandra Leal, Marcello Antony e Vera Zimmerman. Malvino Salvador fala de sua experiência na pele do bicheiro de Madureira e da expectativa com a temporada carioca: “Essa peça foi muito importante na minha carreira pelo aprendizado que eu adquiri, por ter dividido o palco com grandes atores, por conhecer o universo do Gabriel Villela, que é um dos nossos maiores diretores, que tem uma personalidade vibrante, impressa nas suas montagens. (…) Para mim está sendo muito importante trazer Boca de Ouro aqui para o Rio que, a gente sabe, é uma das principais praças do Brasil, e onde se criou o universo rodriguiano. Depois de uma temporada de sucesso em SP, tanto de público quanto de crítica, a peça tem o potencial de chegar aqui de uma maneira muito bonita, é isso que eu espero.”

Além da direção, Gabriel Villela assina os figurinos e a cenografia. A iluminação é de Wagner Freire, a direção musical e preparação vocal são assinadas por Babaya e a espacialização e antropologia da voz por Francesca Della Monica. Os diretores assistentes Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo completam a equipe criativa.

Comentários da crítica de São Paulo

“(Villela) Coloca no palco do Tucarena não só um carrossel de referências visuais, de imagens que remetem sequencialmente para todo lado, mas as integra com riqueza de significados ao texto rodriguiano – e às atuações, elas também com abundância de registros, inspirada no autor. São grandes atuações, a começar do personagem-título, que na caracterização de Malvino Salvador, dirigido por Villela, se mostra alternadamente frágil como uma criança, monstruoso e cinicamente inteligente. Já conhecido pela densidade que demonstrou em montagens cariocas, Salvador ganha agora ares de ator pleno, pronto para grandes papéis.” (Nelson de Sá, Folha de São Paulo)

“Há soluções cênicas dignas de nota, resultado da combinação entre engenho, objetos do cotidiano e uma apurada iluminação. O tamborilar de dedos na mesa reproduz à perfeição o som das máquinas de escrever, varas de bambu tomam o lugar de adagas japonesas e taças de vidro cumprem o papel de telefones. (…) Ainda que se trate de um traço recorrente na trajetória desse criador, a exuberância visual aqui alcança patamar distinto de seus trabalhos mais recentes. Em Boca de Ouro, a beleza de uma cena não se encerra em si; o apuro estético está a serviço do conjunto.” (Maria Eugenia de Menezes Estadão)

“Costumo escrever a matéria de um espetáculo um ou dois dias após a ele ter assistido, mas quando o deslumbramento é muito grande procuro dar um tempo, esperar a poeira baixar e então voltar a ele, com menor perigo de adjetivar demais. Já faz uma semana que assisti Boca de Ouro e ainda me sinto tocado pela beleza e perfeição da leitura de Gabriel Villela para o texto de Nelson Rodrigues.” (José Cetra, Palco Paulistano). 

Serviço

Estreia: dia 19 de janeiro (6ªf), às 20h (horário válido somente na estreia)

Local: Teatro SESC Ginástico – Av. Graça Aranha, 187 – Centro / RJ   Tel: (21) 2279-4027

Horários: 6ª e sab às 19h; dom às 18h

Ingressos: R$30, R$15 (meia) e R$7,50 (associados SESC)

Duração: 110 min

Gênero: tragicomédia

Capacidade: 513 lugares

Classificação: 14 anos

Horário funcionamento da bilheteria: de 3ª a dom, das 13h às 20h

Temporada: até 25 de fevereiro (com parada no período de carnaval, entre os dias 9 e 18 de fevereiro).