Boi Neon

Um virtuoso Frankenstein Nordestino feito de homem, mulher e gado

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19 de janeiro de 2016

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Chegando laureado pelo Festival de Veneza deste ano, “Boi Neon” lotou sessões do Festival do Rio. Eis que o filme alcança cada expectativa e até supera outras, criando uma saudável sensação de desconforto ante uma nova visão de Nordeste e de fazer cinema. Para quem conhece os filmes de Gabriel Mascaro, seja os documentários ou seu primeiro longa-metragem “Ventos de Agosto”, cult instantâneo de 2014, sabe como o cineasta trabalha com extremo naturalismo e um desbunde de fotografia que integram a natureza a seus personagens e vice versa. Enquanto que em seu filme anterior as personagens sentiam uma inquietude e vontade de emigrar, “Boi Neon” trabalha um oposto: além de se sentirem bem com si mesmos e o ambiente ao redor, inovam com criatividade personalidades que o público não estará esperando da perspectiva de vida no Nordeste. Seu protagonista, Juliano Cazarré (do brilhante “O Lobo Atrás da Porta”), que entrega sangue suor e alma nesta interpretação, é responsável pelos bois usados nas vaquejadas, ao mesmo tempo que sonha em desenhar roupas femininas. Esta utopia de neon multicolorido que poderia prenunciar um novo “Brokeback Mountain”, ao invés disso desafia preconceitos e lança um olhar transgressor nos filmes sobre o árido gênero mais clássico do cinema nacional.

BOI-NEON

Num dos primeiros planos-sequência, tomada externa, o personagem de Juliano, Iremar, ou em seu nome artístico Yremar com ‘Y’, caminha sobre a areia molhada afundando os pés descalços na manhã após o rodeio, em meio a retalhos e confetes da festa, catando do lixo pedaços de vários manequins diferentes para montar o modelo onde fará as roupas que costura para mulheres. Estes pedaços de manequim tanto masculinos quanto femininos que ele reúne simbolizam um Frankenstein formado por inúmeras partes e preconceitos, transformados em um novo ser ultra resistente do Nordeste, como seu personagem másculo e xucro, apesar de gostar de trabalhar com algo ao mesmo tempo tão delicado. Um homem que desenha roupa sexy a ser usada por mulheres como a personagem de Maeve Jinkings (musa dos cults “O Som ao Redor” e “Amor Plástico e Barulho”), a qual dirige o caminhão da trupe, embrutecida pela convivência entre homens que cuidam de sua filha (na pele da promissora Alyne Santana), sem saber quem foi o pai dela. A mesma mulher que dirige um enorme caminhão, e manda nos vaqueiros com respeito e autoridade, também dança para os homens na noite usando as roupas de Yremar, além de uma máscara de cavalo e bota de patas, simbolizando que quem está domando quem ali agora é ela a eles. Todos personagens que subverte o que pensam deles. Mulher-macho sem deixar de ser feminina. Homem-macho sem deixar de gostar de coisas femininas.

Tudo isto metáfora de um Nordeste que não quer emigrar, pois ganha muito dinheiro com venda de cavalos premiados, em leilões tão exagerados quanto ridículos na frente dos desequilíbrios sociais. E como Mascaro demonstra isso? Criando um Frankenstein não só no conteúdo, e sim também na forma de filmar. Um corpo novo de inovações como emoldurar sua câmera sempre com estábulos e cercados como palcos e cortinas de uma pantomima nordestina. Seus bufões são os vaqueiros e a ópera é composta por músicas bregas que descrevem em letra e harmonia os cidadãos que formam a nação silenciosa do dia-a-dia sob sol e lua, libertados por suas aspirações. O diretor já havia obtido um resultado muito equilibrado e inovador com “Ventos de Agosto”, balanceando perfeitamente a fotografia primorosa de praias e mergulhos submarinos como contorno que prendia a vida de personagens simplórios sem medo da morte como parte natural. E agora? Gabriel abre mão um pouco dos planos mais abertos, dando preferência a ambientações contidas em recintos fechados, menos natureza escancarada, pois a natureza daqui é a dos homens, com seus xingamentos de brincadeira como chifradas de disputa por território. E acrescenta personagens inusitados, como o de Vinícius de Oliveira (imortalizado como o garoto de “Central do Brasil”), um vaqueiro meio afeminado e que gosta de mulher, bem como a grávida solteira representante de cosméticos que dobra seu trabalho como vigia noturno. Não fazendo questão de precisar apresentar seus personagens ou suas metas e finalidades, e sim deixar seu público ir até eles e se apresentar da plateia para a telona, o filme só demora um pouco a criar a cumplicidade narrativa, no entanto, quando o faz, arrebata o espectador com ao menos duas das melhores sequências deste ano: o hilário e impagável leilão de cavalos premiados; e o lírico balé de corpos com a personagem grávida ao final.

Palmas para o boi-homem sob o neon da vida.

Festival do Rio 2015 – Première Brasil – Mostra Competitiva

Boi Neon (idem)

Brasil, 2015. 101 min.

De Gabriel Mascaro

Com: Juliano Cazarré, Maeve Jinkings, Vinícius de Oliveira, Alyne Santana

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4