Bojack Horseman

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29 de janeiro de 2015

Horsin’s Around foi cancelada após nove temporadas, deixando seu protagonista, o equino “Bojack Horseman” desempregado, sem qualquer bom motivo para viver. Em meio à crise existencial, a antiga estrela é seguida pelas câmeras, exibindo uma existência vazia e depressiva, em um mundo em que homens e animais vivem de modo igualitário, como em muitos das animações da Hanna Barbera ou Disney, claro, sob um olhar mais adultizado e politicamente incorreto.

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O conflito começa quando Bojack descobre que a pretensiosa Diane Nguyen, biografa responsável por relatar seus dias em um livro, é parceira sexual do inconveniente canino Mr. Peanutbutter, que protagonizou uma série parecida com Horsin Around. De modo ácido e repleto de humor negro, o roteiro explora a vazies e completa falta de conteúdo presente na rotina da maior das sub-celebridades e pseudo-artistas, o próprio Bojack levanta discussões interessantes, mas que não se aprofundam minimamente. Toda a vivência do personagem é repleta de variações atrozes de humor e um comportamento indelicado, irresponsável e misantropicamente, mesmo que o conceito não se adeque ao corpo de personagem inter-espécies da série.

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A partir deste plot completamente insano é que o seriado da Netflix é desenvolvido. Os dias do cavalo são ocupados basicamente por um enorme proselitismo, vividos no sofá de sua casa, assistindo e reassistindo as reprises de seus próprios programas, representações de um narcisismo que não tem eco no sucesso pós-seriado. Qualquer objetivo tomado por ele é abandonado depois de pouco tempo, seja seu projeto de auto biografia ou seu namoro mal sucedido, com a também atriz e agente Princesa Carollyn. A enrolação e fracasso fazem a editora enviar uma escritora fantasma, para ajudar ele produzir seu registro de memórias.

Apesar do cunho de comédia predominar pelos doze episódios da temporada, há um aprofundamento jocoso na psique do decadente personagem, iniciado na incrível abertura, que o acompanha com uma câmera presa ao seu rosto, enquanto ele vive sua rotina entre baladas,  hotéis, camas de modelos, pessoas que  acompanha como sanguessugas e uso indiscriminado de substância ilícita e muito álcool., além da presença inconfortável dos paparazzi e um mergulho na piscina de sua mansão, numa clara alusão ao suicídio que sempre o cerca.

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A criação de Bojack Horseman por Raphael Bob-Warksberg brinca com a difícil tarefa de ter de viver um dia após o outro, a partir da experiência de alguém sem objetivos, cujo auge profissional foi há muito tempo, distante demais de reprisar a qualidade dos dias. Em alguns momentos até o gênero máximo se confunde, transitando entre a comédia absurda, que exagera nas tosquices inerentes as relações humanas, tratando de modo sério a incompreensibilidade e os amores não correspondidos, envolve Bojack e Diane, em uma relação proibida, causada pelo casamento anunciado entre ela e Mr. Peanutbutter Não poder tocar sua amada mesmo após uma série de provas de amor faz Bojack sentir-se ainda mais miserável.

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Após presenciar o casamento de sua amada com o ser que ele mais desprezava, Bojack tem de encarar sua biografia ser completamente diferente do que ele imaginava, dando um sentido bastante degradante a questão das biografias não autorizados. A miséria existencial do ex-astro é revelada contra sua vontade, mesmo após ele proibir sua ghost-writer de publicar seu texto. A solução encontrada pelo ator é a de reescrever tudo, o que obviamente não consegue, e para fugir de suas responsabilidades e vida, ele se lança em uma jornada repleta de ácido, onde finalmente encara seu subconsciente e seu traumático passado.

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O apelo desesperado de Bojack ocorre ante a pessoa que ele julgava conhece-lo melhor, em uma tentativa de fuga de sua atual persona, dita por ele mesmo como narcisista, auto-destrutiva e egoísta. No capitulo derradeiro do primeiro ano, revela-se que a tristeza já dominava o dia do pequeno equino, que viu seu mentor Secretariat se suicidar após ter um encontro com as palavras de Horseman, contidas numa carta de quando ainda era criança. Lembrar disso faz Bojack querer interpretar seu ídolo, que morreu aos 27 anos, idade bem inferior a do astro. Aos poucos, todas as situações drásticas de sua vida adulta se exibem como a carência de sua triste vida e não como sensações reais do seu viver. Mesmo o papel mais significativo que faria em vida lhe é tirado, para ser substituído por um espécime mais famoso.

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É no telhado onde sempre discutia com Diane que Bojack começa a vislumbrar a possibilidade de um futuro além do ordinário, não só pelos trabalhos que angaria, mas pela multiplicidade de significados e das paixões a que ele finalmente se propõe a viver. As últimas cenas mostram os personagens felizes, alcançando suas metas, mesmo as mais simplórias. Após mais uma vez assistir os episódios de Horsie Around, Horseman se enxerga na mesma posição de seu antigo ídolo, servindo de inspiração a jovens equinos, também em uma plataforma alta, mas sem a necessidade de dar fim a sua vida. “Bojack Horseman” foi renovado para o serviço de stream da Netflix, ainda que não haja muitos detalhes dos próximos passos. Certamente será interessante ao menos ver as soluções dramáticas de Waksberg em seus roteiros, explorando a depressão latente de sua personagem enquanto zomba do ideário charlatão e exibicionista da cultura pop, com a expectativa de a continuação tenha tantas críticas ácidas ao American Way of Life quanto o primeiro ano.

 

Avaliação Filipe Pereira

Nota 4