Branco sai, Preto Fica

Ficção documental ou Documentário ficcional?

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26 de março de 2015

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Adirley Queirós é um nome a se observar. Isto devido a suas experimentações entre documentários reais e toques de ficção até onde não se saiba mais perfeitamente com qual parte se está lidando e qual é ilusão. Ele já havia ganhado diversos prêmios com “A Cidade é uma Só?”, sobre a comunidade Ceilândia construída na periferia de Brasília para desovar toda a camada pobre que ninguém queria mostrar na terra dos políticos… Com esta obra, por exemplo, o cineasta já despontava a trabalhar fielmente com parceiros que continua mantendo com ótimos resultados, como o hilário político ‘rouba-cenas’ Dildú (Dilmar Durães), personagem ficcional do documentário acima mencionado, que agora retorna no intrigante “Branco Sai, Preto Fica”. Ele interpreta desta vez um agente enviado do futuro para impedir um atentado terrorista contra a Capital do País, possivelmente provocado pelo ressentimento de uma parcela da população que sofreu mazelas reais (na parte mais documental do filme) e pode ou não querer se vingar dos políticos da nação.

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Sim…, uma ficção científica tupiniquim, anárquica, de baixíssimo orçamento, com pegada documental e crua, que usa de criatividade para mostrar partes de Brasília desoladas pela falta de investimentos com infraestrutura como se fossem cidadelas pós-colapso de um sistema que apenas joga na cara do cidadão as mazelas sociais. Verdade ou mentira? Bem, para contar isso Adirley usa como fio condutor outro ator fidedigno em seus projetos, Marquim do Tropa, que, em sua cadeira de rodas real, interpreta um radialista que toca black music e incendeia as pessoas contra o sistema devido a acidentes e opressão do passado que vitimou inúmeros de seus amigos em festas onde tudo o que se queria era apenas enaltecer suas heranças étnico-culturais.

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Porém como conseguir passar veracidade no visual estético do tema criativamente artístico e barato? Com muitas grades, muros, elevadores, corredores e locações confinadas ou mesmo desconstruídos, como ferros-velhos. O mais louvável é ainda cogitar que este esforço produtivo advenha de uma equipe já acostumada em trabalhar e resgatar os valores de produção de comunidades carentes e humildes de Brasília de onde todos vêm (o diretor é goiano, mas morou a maior parte de sua vida no Distrito Federal). Com a mistura do drama real de pessoas aleijadas com membros artificiais, ou um radialista amargurado, que se prende ainda às esperanças de despertar a voz de um povo…até chegar na escala de evolução a um personagem completamente ficcional na figura do agente enviado do futuro. Efeitos especiais caseiros, cuja simbologia apenas aumenta a cada metáfora, e põe em cheque-mate a própria política nacional através de uma fábula e da voz de quem realmente importa: o povo. Excelência em fronteiras esmaecidas entre os gêneros cinematográficos para novos jeitos de se contar uma história.

 

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5