Brasil briga pela Palma de Ouro com ‘Aquarius’

Cannes integra a esperada produção pernambucana a uma lista de concorrentes que traz inéditos de Almodóvar, Jim Jarmusch, Ken Loach e irmãos Dardenne

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14 de abril de 2016

Sonia Braga protagoniza "Aquarius"

Sonia Braga protagoniza “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho

Com uma das seleções mais pop de sua história recente, com direito a suspense do holandês Paul Verhoeven (Elle), comédia do americano Jim Jarmusch (Paterson) e thriller de horror do dinamarquês Nicolas Winding Refn (The Neon Demon), o Festival de Cannes reservou uma vaga nobre para o Brasil na competição oficial de sua 69ª edição, via Pernambuco com Aquarius. O novo longa-metragem do realizador mais amado do Recife, Kleber Mendonça Filho, protagonizado por Sonia Braga, concorre à Palma de Ouro numa seleção competitiva que segue de 11 a 22 de maio, mobilizando ainda mestres como Pedro Almodóvar (Julieta), Ken Loach (I, Daniel Blake) e os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne (La Fille Inconnue).

“As reações ao cinema do Recife vem sendo acima da média, como resposta a filmes muito distintos entre si, capazes de gerar debate. É comum vermos no país filmes que não acontecem, que passam despercebidos. Mas lá no Recife não tem sido assim. A produção local tem gerado boas discussões não é de agora. Vivemos recente uma leva que incluiu ‘O Som ao Redor’, ‘Eles Voltam’, ‘Tatuagem’, ‘Ventos de Agosto’, ‘Animal Político’, ‘Boi Neon’… São filmes muito bons, muito diferentes entre si e feitos por cineastas que têm liberdade para expressar o que pensam. Fico feliz em ver Pernambuco no cinema como uma comunidade subdividida de modo a cada um fazer seu próprio filme, do seu jeito”, diz Mendonça em entrevista ao Almanaque Virtual.

Orçado em R$ 3,3 milhões, Aquarius acompanha os passos de uma jornalista aposentada cujo edifício onde mora é cobiçado por uma construtora. Lá estão seus livros, suas memórias, suas saudades. É necessário que ela aprenda a dominar seu passado, seu presente e, quiçá, seu futuro. “É um sonho saber que somos o primeiro filme de Pernambuco na competição oficial de longas de Cannes, por onde já passaram, em seções paralelas, grandes filmes do Recife, inclusive um dos curtas de Kleber, o ‘Vinil Verde’. Tenho a sensação de que o sucesso internacional de ‘O Som ao Redor” acabou criando expectativa por este nosso novo filme”, disse a produtora de Aquarius, a francesa hoje radicada em Pernambuco Emilie Lesclaux, mulher e parceira criativa de Mendonça, que levantou o projeto numa sinergia entre sua Cinemascopio, a companhia europeia SBS de Saïd Ben Said e Michel Merkt, a Videofilmes de Walter Salles e a Globo Filmes.

O último brasileiro a disputar a Palma em Cannes com um longa foi Walter Salles, em 2012, com Na Estrada, que não era falado português. Vai ter presença verde e amarela também na briga pela Palma dos curtas-metragens, com A Moça Que Dançou com o Diabo, produção paulista de João Paulo Maria Miranda. Ainda há filmes a serem divulgados em mostras paralelas e – cogita-se – uma dessas vagas já estaria reservada para o documentário carioca Cinema Novo, de Eryk Rocha.

"O Grande Gigante Amigo", de Steven Spielberg

“O Grande Gigante Amigo”, de Steven Spielberg

No menu a ser projetado pelo Palais des Festivals, o centro nervoso do evento francês, sob a curadoria de Thierry Frémaux, a abertura do evento vai se dar com uma sessão hors-concours Café Society, de Woody Allen. Frémaux trouxe uma seleta de alto cacife também fora de concurso: O Grande Gigante Amigo, de Steven Spielberg; Jogo do Dinheiro, de Jodie Foster; e Dois Caras Legais, de Shane Black.

Em outra latitude do Palais des Festivals, dedicadas à produções mais voltadas para a experimentação narrativa, chamada Un Certain Regard (Um Certo Olhar), entraram:

Varoonegi, de Behnam Behzadi; Apprentice, de Boo Junfeng; Voir Du Pays, de Delphine & Muriel Coulin; La Danseuse, de Stéphanie Di Giusto; Eshtebak, de Mohamed Diab; The Red Turtle, de Michael Dudok De Wit; Fuchi Ni Tatsu, de Fukada Kôji; Omor Shakhsiya, de Maha Haj; Me’ever Laharim Vehagvaot, de Eran Kolirin; After The Storm, de Hirokazu Kore-Eda; Hymyilevä Mies, de Juho Kuosmanen; La Larga Noche De Francisco Sanctis, de Francisco Márquez & Andrea Testa; Caini, de Bogdan Mirica; The Transfiguration, de Michael O’Shea; Captain Fantastic, de Matt Ross; e Uchenik, de Kirill Serebrennikov.

Para a seção Midnight Screenings, foram convidados o documentário Gimme Danger, no qual Jim Jarmusch (já anunciado em competição com Patterson) fala sobre Iggy Pop, e o thriller coreano The Train To Busan, de Yeon Sang-Ho. Críticas sociais lotam a seara Special Screenings, na qual entraram L’Ultima Spiaggia, de Thanos Anastopoulos e Davide Del Degan; Hissein Habré, Une Tragédie Tchadienne, de Mahamat-Saleh Haroun; La Mort De Louis XIV, de Albert Serra; e Le Cancre, de Paul Vecchiali.

Paul Verhoeven dirige Isabelle Huppert em "Elle"

Paul Verhoeven dirige Isabelle Huppert em “Elle”

A lista de longas concorrentes à Palma de Ouro:

The Last Face, de Sean Penn;

Aquarius, de Kléber Mendonça Filho;

Elle, de Paul Verhoeven;

La Fille Inconnue, de Jean-Pierre e Luc Dardenne;

Ma Loute, de Bruno Dumont;

Julieta, de Pedro Almodóvar;

Ma’Rosa, de Brillante Mendoza;

The Handmaid, de Park Chan-Wook;

Loving, de Jeff Nichols;

Paterson, de Jim Jarmusch;

Juste la Fin du Monde, de Xavier Dolan;

Neon Demon, de Nicolas Winding Refn;

Sierra Nevada, de Cristi Piu;

 Toni Erdmann, de Maren Ade;

Mal de Pierres, de Nicole Garcia;

Bacalaureat, de Cristian Mungiu;

American Honey, de Andrea Arnold;

Personal Shopper, de Olivier Assayas;

Rester Vertical, de Alain Giraudie;

I, Daniel Blake, de Ken Loach.