Cabeça de Nêgo

Escola da Vida

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01 de fevereiro de 2020

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O que foi a sessão bombástica e ovacionada de pé para o filme “Cabeça de Nêgo” de Déo Cardoso? Para explicar tal catarse coletiva e genuína, precisaremos dar alguns passos para trás, e entender o contexto onde esta experiência se sucedeu…

A Mostra de Cinema de Tiradentes não é uma competição fácil de se estar… Por ser o primeiro Festival do ano, por exibir apenas produções majoritariamente brasileiras (algumas coproduções internacionais minoritárias), e por priorizar primeiros filmes inéditos de seus realizadores e realizadoras, o perfil de seleção costuma ser bastante experimental e de invenção (nas palavras de Jairo Fereira). Filmes estritamente tradicionais, de apelo mais popular ou de narrativas clássicas e lineares costumam ser menos frequentes e, quando aparecem, tendem a possuir alguma pegada contrahegemônica ou assumindo algum risco. Ainda assim, a principal Mostra competitiva de filmes inéditos em Tiradentes, a Aurora, como o ápice do anseio por experimentação, sempre possui pelo menos um exemplar de narrativa mais clássica, e costuma ser o concorrente menos aclamado na Mostra, simplesmente pelo princípio da pegada mais tradicional…

Eis que surge um filme como exceção a tudo isso e que desmonta as máximas previamente colocadas pelo sistema: o longa “Cabeça de Nêgo” de Déo Cardoso. Um filme de linguagem direta, sem rodeios, linear, porém pungente em sua proposta de maneira a não se sujeitar ao clássico e sim utilizar dele como pontapé inicial a um percurso pelo qual irá driblar o óbvio, mas beber da fonte de gênero e do thriller para recriar a cosmogonia ao seu redor.

A trama sobre ocupação estudantil nas escolas coincide com a da novela recente e de bastante sucesso “Amor de Mãe” de Manuela Dias, bem como compartilha até a mesma atriz que brilha no papel da professora que defende seus alunos, na performance de Jéssica Ellen. Mas isto não quer dizer, de forma alguma, qualquer repetição ou exaurimento de tema, até porque longas-metragens demoram bastante para serem realizados, e o projeto “Cabeça de Nêgo” advém de anos atrás, desde antes mesmo de passar no primeiro edital afirmativo para longas-metragens com outros dois filmes (“Um Dia com Jerusa” de Viviane Ferreira e o ainda inédito “Marte Um” de Gabriel Martins) — e que até hoje ainda é o único edital lançado neste sentido, infelizmente. E, assim como acontece também com as novelas, essas coisas demoram igualmente muitos anos para serem aprovadas… Afinal, estes são os primeiros trabalhos de ficção sobre as ocupações estudantis como tema central, tanto como primeiro longa-metragem de ficção, como a primeira novela: as narrativas ficcionais demoram mais tempo para assimilar os processos de urgência da sociedade.

Sim, é certo que já houvesse um punhado de documentários e igualmente curtas-metragens sobre o tema, como os excelentes “Escolas em Luta” e “Lute como uma Menina”, contudo, a sociedade necessita da ocupação destes espaços do imaginário popular pela dramaturgia social. Para além de brasileiros ainda terem certa resistência para redescobrir seus documentários, é fato que a ficção conecta e convida outras afetações à baila.

Neste sentido, o cineasta Déo Cardoso parece demonstrar plena consciência de que isso não é uma questão, pois não deixa de beber de fontes variadas, como a miríade juvenil de “Malhação” (nas palavras utilizadas na própria mesa de debate sobre o filme), e costurando tudo isso com alguns diálogos mais didáticos como necessidade de formação de público. Sim, existe esta premissa de comunicação, já que utilizar da linguagem da juventude é importante para se comunicar com ela, desde o youtube, os stories de instagram, as lives e etc… Para ser cinema, primeiro precisa ser uma base de indentificação, senão a história poderia se encerrar de maneira hermética ou elitista no pensar cinema, e poderia acabar não se comunicando com o mesmo público de onde a presente catarse se origina.

E a ocupação estudantil supracitada também não se resume à estética já vista e revista em outros exemplares, pois ela traz uma metáfora específica, um recorte: temos aqui um aluno aplicado, que não necessariamente reproduziria os estereótipos de outros tipos de alunos tidos como mais “problemáticos” (há de se problematizar a palavra “problemático”…mas falemos disso mais adiante). Ele simplemente quer estudar e a escola não quer que ele estude! Diante da metáfora do governo atual, uma escola que prefere expulsar um aluno do que se desafiar a compreendê-lo e até chegar às raias de criminalizá-lo, dialoga muito com a política instituída nesta administração pública que se coloca aí e cuja definição de educação se parece muito com lobotomia e imposição do “perigo de uma história única” (Chimamanda Ngozie Adichie). — E a quem atenderia uma História sem pluralidade ou direito de contraditório ou de um olhar opositivo?