Caçador de andróides e da excelência do corpo

Numa ode à vida orgânica, novo 'Blade Runner' aproveita a lógica nietzschiana de Denis Villeneuve para celebrar as demasias do Humano, tendo Harrison Ford como combustível

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05 de outubro de 2017

Fotografia de Roger Deakins leva o filme de Villeneuve à excelência

Fotografia de Roger Deakins leva o filme de Villeneuve à excelência visual

Rodrigo Fonseca
Sempre que o mundo se vê sob o garrote de uma crise econômica, o noir brota na arte como uma representação da nossa desesperança, como um grand guignol de cortinas de veludo abertas para a ambiguidade, a incerteza. No início dos anos 1980, a ressaca moral pela falência das utopias revolucionárias dos 1960 e 70, substituídas por um liberalismo castrador, por um capitalismo de couraça e pelo nematelminto chamado inflação, fez necessária a presença do noir, só que numa forma repaginada, mais chique e esfumaçada, chamada neon noir. Esse formato foi importado da Alemanha, ou melhor, de Wim Wenders, e ganhou contornos mais chapados (e desolados) ao cruzar com a new age no cult Liquid Sky, sobre um ET andrógino, de 1982. Naquele mesmo ano, a mistura do neon noir com a new age apimentado por uma estética integrada e futurista chamada cyberpunk, serviu como uma luva para delinear os vislumbres da dramaturgia sobre o Amanhã. Um Amanhã onde tudo é suspenso pela força gravitacional da tecnologia, num voo breve, na fugacidade da lógica binária. Essa alquimia filosófica traduziu-se em arte com o nome de Blade RunnerO Caçador de Andróides, um longa-metragem de muito estilo, mas de tutano ralo em relação a seu poder de refletir (e fazer pensar) sobre as mazelas existenciais da Raça Humana. Era algo de uma virtuosidade ímpar na direção de arte e no ritmo narrativo, sublimando-se n’algum existencialismo graças ao desempenho singular de Rutger Hauer. Mas como sua direção coube a um artesão (autoral) e não a um filósofo, sua habilidade de gerar transcendência tinha um fôlego limitado. Ao contrário do que se vê em sua sequência, 2049, de um desbunde fotográfico de tirar o fôlego, mas capaz de escavar mais fundo na sua observação e na sua discussão sobre o Humano. A escavação vai na margem oposta à metafísica que o primeiro filme buscava. Fala-se agora de alma, mas não se quer o espírito e sim o corpo. E, por sorte, temos um antropocentrista de amplo escopo filosófico, o canadense Denis Villeneuve (de Sicário), na direção.

Vivemos dias de carteiras vazias, no Brasil e no mundo: logo, por inércia das trevas econômicas, Blade Runner 2049 preserva sua raiz noir. É uma trama de investigação na qual quase ninguém é confiável, tudo é dúbio e existe uma femme fatale: a ciborgue executiva Luv, talvez a mais ousada personagem feminina de 2017, vivida com frieza assustadora pela holandesa Sylvia Hoeks. Mas esse noir do novo longa é mais seco do que o do primeiro filme. Aquele era mais gingado, mais charmoso. O novo tem o tom ensanguentado, de coágulos pisados, do rosto de K, uma espécie de Prometeus acorrentado ao dever vivido por Ryan Gosling com a grandeza habitual do ator. Nele, Villeneuve desopila sua veia nietzschiana: K é o estado de espírito do ódio, um leão que ruge em nome de uma verdade suposta.

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Nietzsche pousa no ombro de Villeneuve com muita frequência, em sua estética iconoclasta, levando seus personagens a um estágio de endurecimento, onde afetividades frágeis como carvão ganham resistência de diamante frente a mergulhos trágicos no ambiente onde tentam escavar um abrigo para suas certezas. Foi assim com o historiador (Jake Gyllenhaal) de O Homem Duplicado (2013) ao perceber que tem um sósia perfeito de si mesmo, andando por sua cidade. Era assim com a agente do FBI Emily Blunt, afogada nos bastidores do tráfico de drogas no seminal Sicário (2015). Foi assim agora com a linguista Louise (Amy Adams), de A Chegada (2016), ao ser informada sobre presença alienígena na Terra.

K vai se embrutecer ao cumprir a missão de encontrar e matar uma criança que teria nascido do ventre de uma replicante, um construto cibernético de feições humanas. A busca pelo alvo o leva a um milionário excêntrico, Niander (Jared Leto), e sua auxiliar, Luv. Com ela, K trava uma batalha de resfolegar plateias. É uma das pocuas sequências de ação do filme. Existem algumas. Todas magistrais. Mas elas não são o foco. O eixo do filme está em se debater a hipótese de um robô ter gerado vida. Não poderia ser diferente, já que o cinema de Villeneuve é “matéria”, é carne, é útero, é toque. E tudo isso aqui chega potencializado na fotografia de Roger Deakins.

Ryan Gosling e Harrison Ford se equilibram como duas gerações de matadores de replicantes

Ryan Gosling e Harrison Ford se equilibram como duas gerações de matadores de replicantes, seres que voltam agora sob a supervisão de Ridley Scott

É nela que vemos potencializada a expressão trágica de Harrison Ford, na melhor atuação de sua carreira desde A Testemunha (1985), expressando a angústia do caçador de andróides aposentado Deckard diante de um jovem tira desesperado para entender qual é a lógica dos organismos dos anos 2040. O rosto sulcado de Ford é uma Guernica que carrega todas as brutalidades daquela ficção e toda a mítica de nossa realidade. É o rosto de um mito – de Han Solo e de Indiana Jones – que se fragmenta diante de nós na fragilidade de um herói caído, mas na força de um corpo que se impõe como um aríete da biologia num universo da cibernética.

p.s.: No Brasil, Manolo Rey e o genial Garcia Júnior dublam Gosling e Ford.

 

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5
  • http://www.twitter.com/nortonlimajr Norton Lima Jr

    Bobagem…

  • http://www.twitter.com/nortonlimajr Norton Lima Jr

    você escreveu isso em 2016: “Nietzsche pousa no ombro de Villeneuve com muita frequência, em sua estética iconoclasta, levando seus personagens a um estágio de endurecimento, onde afetividades frágeis como carvão ganham resistência de diamante frente a mergulhos trágicos no ambiente onde tentam escavar um abrigo para suas certezas.” ONDE HÁ ICONOCLASTIA NESSE CANADENSE? comédia…