Café Com Canela

Revisão após o furacão da Edição Histórica do 50º Festival de Brasília de Cinema Brasileiro

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19 de novembro de 2017

Rever Café com Canela – filme de Glenda Nicácio e Ary Rosa na 41a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2017, prestes a fazer seu debut no Rio de Janeiro na 9ª Semana – Festival de Cinema, faz lembrar como este é um filme que realmente vai ficar para a história. Não apenas por seu contexto no extracampo, do tipo a chegada chegando na 50° Edição de Aniversário do Festival de Brasília, um marco do nosso cinema brasileiro, ambos, o Festival e o filme. Não apenas pelos prêmios que levou (melhor filme pelo Júri Popular, atriz para Valdinéia Soriano e roteiro para Ary). Também não se resume a ter sido um dos filmes (junto de “Peripatético” de Jessica Queiroz) colocado como um dos contrapontos-chave às polêmicas de “Vazante” de Daniela Thomas, 1) porque ninguém merece este fardo; 2) porque parece uma inversão cruel em que só faz falarem mais do polemicista e menos dos despolemizadores-curativos, o que é meio absurdo. Meio não, BASTANTE absurdo.

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Absurdo como censurarem arte (e nudez na arte) nos museus ou retaliarem a vinda da filósofa Judith Butler ao Brasil só porque o arcabouço legitimador da filosofia dela é o não-binarismo, ou seja, a desconstrução de que tudo no mundo seria ambivalente com apenas dois pólos, como se fosse uma moeda (que aliás é o exemplo perfeito, pois moeda não tem apenas dois lados e sim toda uma gama de valores cambiais no mundo todo)… E o que “Vazante” proporcionou foi inevitavelmente um binarismo da necessidade de debate acerca de questões até muito mais importantes do que meramente se “gostaram” ou “não gostaram” do filme. E sim sobre meios de produção. Sobre paridade de ofertas de produção para uma demanda atendida de forma completamente desproporcional. E não apenas no lado estrutural e financeiro de qual/quais projetos são viabilizados, ou qual/quais expressões culturais recebem luz ao olhar de públicos variados. Mas também é sobre toda uma região acerca da produção, e como e a quem a produção fomenta trabalhos de muita gente em torno do filme, especialmente em regiões que não costumam receber esse estímulo naturalmente da estrutura governamental, como Cachoeira na Bahia — Município onde se passa “Café com Canela”.

Eis que a inversão de polaridades descrita acima lembrou a muita gente que numa mesa de debates sobre “Vazante” em Brasília “parece ter havido muito ‘ódio’ segundo relatos à la telefone sem fio” (não teve; 1) eu estava lá e vi com meus próprios olhos; 2) há vídeos para comprovar como transcorreu tudo de forma amistosa e mutuamente consentida na teatralidade de privilégios). Mas não estou vendo ninguém comentar que houve uma segunda mesa do AMOR. Uma mesa de debates sobre “Café com Canela” que fez quase TODO MUNDO CHORAR catarticamente. Quando já se viu fazer debulhar em lágrimas de emoção coletiva ao menos 2/3 de uma plateia intensamente interativa e predominantemente formada por profissionais do audiovisual (e menos por público cinéfilos, apesar de haver em menor quantidade, pois era livre a entrada, porém intimidadora o bastante para apenas os profissionais serem a maioria)? Esta mesa também foi histórica! Foi uma catarse coletiva sem precedentes. Filmada inclusive. Há provas. Deveria haver dezenas de pessoas escrevendo sobre isso, e procurando ver ou rever um filme que foi capaz de provocar esta reação.

Ao invés disso, ainda há gente se apegando ao que supostamente aconteceu numa polêmica ficta, que repercutiu para além da realidade. E ninguém fala da realidade que de fato irá mudar as coisas. Com Amor! Não consigo entender a base para a inversão… Apenas pautas de ódio vendem?! É isso?!?! Pautas de amor não vendem mais?! Por isso há brasileiros que estão repudiando a chegada da sumidade Judith Butler?! Porque é inconcebível não ser banhado pela transformação após assistir um remédio da alma como “Café com Canela”, intensamente focado na produção de novas imagens que reflitam nossa sociedade como ela é.

Sabe? Li várias críticas sobre “Café com Canela”, para além da minha e de Samantha, evidente, e a maioria era positiva ou aclamadora até, mas, independente de concordar com a liberdade de se achar o oposto disso, vou pinçar uma expressão de um texto que não se sentiu entusiasmado com o filme, pois é exemplificativo e sintomático do que está acontecendo no Brasil. O texto dizia que o filme “Só não parece ter muito a dizer”… Quando que a última coisa que pode se pensar deste filme é que não tenha algo a dizer. Aliás, muita coisa. E não apenas nos apectos de produção como ser um longa-metragem realizado no Recôncavo Baiano com produção local, recursos (humanos) de toda a região, e o primeiro longa a ter uma cineasta negra na direção a competir na Mostra Principal de Brasília. Sim, o filme fez história no extracampo. Mas dentro do quadro também. Onde já se viu o cinema brasileiro flertar com três linhas temporais e montagem fora da ordem cronológica, com toques de surrealismo e de fantástico, e ainda assim permanecer autoral & potencialmente comercial?!?!

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Onde já se viu personagem de marido da protagonista cuidar da família doente da esposa com dedicação e amor? Onde se viu esse mesmo marido aceitar de boa que a esposa tenha noitada com as amigas e não exploda de ciúme porque confia nela? Onde já se viu no cinema com potencial comercial que uma relação de amor verdadeiro entre dois homens, com uma boa diferença de idade, tenha ambos com independência financeira e que o mais jovem seja mais bem-sucedido do que o mais velho, como um personagem negro e gay que é médico e atencioso (num papel jamais interpretado por um astro do quilate de Babu Santana)? Onde se vê uma aluna que perdeu a família ainda criança, e se recuperou graças à abnegação de sua professora escolar, poder retribuir anos depois quando a maioria das pessoas esquece e deixa para trás a gratidão pelos afetos?! Onde se vê uma personagem coadjuvante cheia de vida como Cidão, fora do padrão imposto, ter uma enorme autoconfiança e tempo de preferência de câmera para privilegiar seus pontos de vista? Aliás, um filme que começa com três saltos no tempo sem lhe revelar quem de fato são os protagonistas, com não um mas dois monólogos arrasadores de coadjuvantes, além de não te devolver 100% a linearidade fácil nem no final, preferindo a catarse abstrata à explicação literal?!

Um filme de amor. Sobre amor. De tantas inovações na forma e conteúdo de como queremos nos ver na tela daqui por diante, e de como viabilizar estas produções fora do quadro, que vale a pena ler todos os textos sobre o filme, Confiram:

Texto original pelo #AlmanaqueVirtual:
http://almanaquevirtual.com.br/cafe-com-canela/

O de Samantha pelo #DeliriumNerd
http://deliriumnerd.com/…/20/cinema-cafe-com-canela-critica/

O de Kenia Freitas para a #Multiplot
http://multiplotcinema.com.br/…/festival-de-brasilia-cafe-…/

O de Carol Almeida para a #RevistaContinente
https://www.revistacontinente.com.br/…/o-ousado-gesto-de-ap…

O de Juliano Gomes para a #Cinetica
http://revistacinetica.com.br/nova/mas-tinha-que-respirar/

E o da cineasta Viviane Ferreira para a #Geledes
https://www.geledes.org.br/o-assombro-que-vaza-da-simples-…/