Café Com Canela

Dinâmica temporal pela superação da imobilidade da perda

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19 de setembro de 2017

Que grata surpresa é “Café com Canela” de Glenda Nicácio e Ary Rosa.

Com a premissa de ser um drama de superação com pitadas de humor, acaba aplicando uma gama de movimentos que ampliam o gênero pretendido de forma inusitada, porém eficaz. Começando o filme com 3 saltos no tempo e mudança de linguagem de câmera entre imagens de vídeo simulando fita VHS até chegar no presente com imagem digital, os diretores utilizam do dinamismo decupado para falar das inconstâncias da vida.

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Isto é irônico justamente porque uma das duas protagonistas, a quem todas estas mudanças de linguagem são ancoradas, é justamente a personagem que irá ter de lidar com a maior inércia de vida diante de uma perda insuperável. Seu nome é Dona Margarida, em uma performance crescentemente visceral de Valdinéia Soriano, cuja câmera bem aproximada que lhe dá vida acompanha seu corpo e seus passos o tempo inteiro, ora tornando-se subjetiva, quase como um fantasma que a acompanha, ora esquizofrênica como se sentisse as dores internas da personagem. É curioso denotar isso porque todas as partes da trama destinadas a ela parecem ser invadidas pelos outros gêneros que se retromencionou invadir o drama tradicional do restante da narrativa, como o horror psicológico e o noir doméstico com requintes de um inesperado surrealismo.

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Isto sem falar na direção de arte primorosa por parte da própria diretora Glenda Nicácio, criando ambientes às vezes claustrofóbicos e assombrosos (com destaque para a cena em que a cozinha vira uma floresta selvagem), além de bastante uso do som e diálogo no extracampo (já o som ficou a cargo do outro codiretor, Ary Rosa). Isso ajuda a criar uma duplicidade narrativa de outras histórias como fantasmas da memória dos saltos temporais falados no início. Então, enquanto muitas das imagens do presente podem soar melancólicas em depressão da personagem, os sons são vivazes de momentos felizes, e, numa inversão de valores surpresa, são os risos que assustam e magoam (o que lembrou trabalhos como “Trabalhar Cansa” de Juliana Rojas e Marco Dutra e “Aniversário do Pedro” de Cíntia Domit Bittar). Mais um contraste que ironicamente contrasta a imobilidade da personagem com uma enorme quantidade de movimentos fílmicos para desestabilizá-la.

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Mas é à outra protagonista, Violeta (num papel que também acaba rendendo crescentemente além da expectativa de Aline Brunne) que ganha a porção de humor e o olhar mais romântico da vida, com coadjuvantes impagáveis, como o interpretado de forma inspiradamente afetada por Babu Santana e a impagável Cida que ganha vida e gargalhadas da plateia na pele de Arlete Dias. De modo que parece que são parte da família da plateia também e farão falta ao final da projeção.

Enquanto Margarida é o arcabouço do filme, Violeta é a força-motriz de propulsão narrativa, que irá propelir para frente as montagens do tempo e impedir que ele continue voltando para trás feito disco arranhado. É ela que costura as personagens coadjuvantes como uma vizinhança e amigos o suficiente para ambientar o recôncavo baiano onde se passa a história e não permitir que se soltem em histórias paralelas descartáveis, mesmo que engraçadas. E, mesmo que seja em Violeta que o desenvolvimento de câmera se torne mais tradicional ou até careta às vezes ante às inovações que seguem Margarida, é necessário para restaurar uma bússula referencial do espectador, já que boa parte da trama não é dada de bandeja. Nomes, tempos e intersecções de vida demoram um pouco propositadamente a se revelarem, por isso compreende-se a tradição visual para não perder o espectador mais incauto no caminho.

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Ainda assim, deve-se levar em consideração a evolução ágil entre cenas, inclusive com elipses experimentais de montagens videoclípticas, principalmente no início, para mostrar inserções do povo que ali se encontra representado, com imagens de feira, de gente, de comidas… ou seja, integrando a Baía como um todo na confecção da história. Se o recurso até acaba sendo abandonado, não quer dizer que não seja interessante os flertes usados. Sem falar que possibilitam um outro olhar, uma outra narrativa. Quem não vai se sentir em casa com um churrasco na laje em que a câmera acompanha, num contra plongé, a mão da criança que vai experimentar um pedaço que já foi cortado, antes do restante da carne ficar pronta…? Ou o quanto a imagem cruzada de duas mulheres lavando seus cabelos em dois lugares diferentes, porém sobrepostos pela magia do cinema, não pode criar identificação e solidariedade entre elas e com a plateia? Quem é mulher entende. Quem é mãe entende.

Mesmo que às vezes o filme possa parecer um pouco didático em circunstâncias do dia-a-dia que nossa experiência nos cinemas foi mal acostumada com adrenalinas e histórias corridas que esquecem o lado humano em prol da ação da passagem frenética de atos, o filme segura bem as pontas das várias experimentações de linguagem para aproximar o espectador do sabor da rotina. Um acerto, pois ao invés de afastá-lo ou confundi-lo, vai sim tentando acolhê-lo. E noutras o filme desinvibiliza públicos também para quem o cinema de massas muitas vezes esquece de se dirigir, como reivindicando narrativas dos orixás e raízes baianas distantes do imagético dominante nos cinemas da região sudeste. Há uma extrema simplicidade por trás da aparente complexidade e há uma delicada complexidade por trás da aparente simplicidade.

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Vale ressaltar uma referência muito interessante ao grande mestre iraniano Abbas Kiarostami em seu filme “Shirin”, onde este colocava atrizes sentadas numa sala de cinema olhando para a câmera como se estivessem olhando para um filme na tela de cinema, mas na verdade elas olhavam para o espectador, pois nenhum filme estava passando de fato. Enquanto que aqui, as duas personagens com nome de flor se unem para semear um dos diálogos de amor ao Cinema mais belos que já vi ao quebrarem a quarta parede, a justificar porque dedicamos tantas paixões para nos deixar levar com nossos maiores recônditos expostos na intimidade do escurinho do cinema e nunca mais voltarmos os mesmos.