Casa Encaixotada

Amparado por elementos de alto grau de refinamento, a direção de Ruy Filho em "Casa Encaixotada" é parceira do autor-ator Frank Borges em ordenar desordenando, e desordenar ordenando

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18 de abril de 2015

Um teatro que já foi casa, uma casa onde passaram pais, mães e filhos, uma casa que já foi oficina mecânica, uma oficina mecânica que é hoje um teatro. O teatro. Uma Poeira. Um Poeirinha. Espaço onde uma casa pode ser uma oficina mecânica ao mesmo tempo em que pode ser um teatro, que abriga uma casa, que abrigam muitas “casas encaixotadas”.  Muitas vidas, muitas personagens, todas encaixotadas. Prontas à serem abertas. Reveladas. Certo dia, o corretor de imóveis Ben vai fazer uma vistoria num imóvel à venda e se depara com a porta fechada. A sensação de impotência lhe traz de volta as lembranças de suas casas. Transformações que vivenciou e testemunhou. Um pai e uma mãe distantes e ausentes. Seu pai vivia sendo transferido de cidade. Boa parte da sua infância, e juventude, numa “casa encaixotada”. Em meio a tantas mudanças, Ben fez da memória o seu verdadeiro território.“Casa Encaixotada” de Frank Borges. Direção de Ruy Filho. Teatro Poeirinha. Rio de Janeiro. Abrir compartimentos, reconstruir fatos, conectar elementos, desconstruir fatos, reconectar ideias, lembranças, memória, o que é real, o que inventado, o que é por ser,  o que fica sendo porque é… Elipse de tempo e espaço, ações e reações, formas, disformes. Um espaço multi-configuracional, piso de madeira, paredes de pedras aparentes, porta de entrada – e de saídas -, 46 cadeiras dispostas em formato de um corredor central. Um espaço que trás em si elementos reais de vivências e experiências reais. Dentro deste retângulo, desta arena, misturam-se histórias de sua infância, de suas mudanças, a criança Ben, dialoga, em conexão e desconexão, com o adulto Ben – que torna-se ironicamente um corretor de imóveis – pelo seu profundo desejo de buscar em outras casas, as suas “casas”? Em cada uma destas mudanças parte do seu eu, encontra pertencimento, acolhimento. Ou seria apenas a repetição automática de um gesto amplamente vivido, assim como um sísifo, a cumprir o seu destino? O seu eterno retorno? O seu devir? To be or not to be? Aprisionado para sempre em sua alma?

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Frank Borges vive intensamente a sua “Casa Encaixotada”, onde é autor e ator

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O Teatro Poeirinha se constitui em um lugar perfeito para o universo de “Casa Encaixotada”

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Personagens do passado acompanham a trajetória de Ben (Frank Borges) em “Casa Encaixotada”

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A cenografia em fitas rolo, desenha com extrema beleza o espaço cênico, e todos os territórios da peça

Amparado por elementos de alto grau de refinamento, a direção de Ruy Filho em “Casa Encaixotada” é parceira do autor-ator Frank Borges em ordenar desordenando, e desordenar ordenando, os pensamentos, as vivências, as experiências impressas e expressas em cada um dos lugares visitados pela personagem Ben. Lugares estes que vão sendo criados e recriados por um belíssimo e teatral usar de fitas rolo, concebido por Frank Borges e Ruy Filho. A construção de cada linha, de cada território, de cada fresta, é um convite a entramos no universo conturbado e compartimentado de Ben. Valorizado pela luz densa e filigrananda de Ruy Filho.  O sofisticado, arrumado, e bem apresentado, figurino de Ben – criado também por Frank Borges e Ruy Filho -, que é logo moldado pela dessarumação interna de Ben. Revelando a dialética entre a casca e o bagaço. A onipresença da mãe – em gravação contundente, em off., realizada pela atriz Camila Turim – que dialoga durante todo o espetáculo com Ben, transforma em intenso diálogo o que seria o seu monólogo interno. O terno flutuante, marca a presença do pai. Sensivelmente sensorial, sons de fitas sendo coladas e descoladas, construídas e reconstruídas, sons incidentais, sons de bolinhas de gude rolando pelo espaço silencioso, e sagrado, preenchem de sonoridade e reminiscências o tablado do Teatro Poeirinha. Um momento especial, proporcionado pela generosa realização de Claudia Jimenez, onde uma única vista não consegue dar conta de tantos cacos, e estilhaços… o espectador poderá aproveitar mais das histórias, e da intensidade do ator Frank Borges, inteiro em cena, permitindo-se retornar ao espaço onde habita Ben, em sua “casa encaixotada”.

Serviço:

TEATRO POEIRINHA – Rua São João Batista, 104 – Botafogo – tel: 21 2537-8053

HORÁRIOS: 5ª a sábado às 21h; domingo às 19h

INGRESSOS: R$40,00 e R$20,00 (meia entrada) /horário da bilheteria: 3ª a 5ª das 16h às 21h; 6ª e sábado das 16h à meia noite; domingo das 16h às 20h / formas de pagamento: dinheiro e todos os cartões de débito e crédito. Não aceita cheque. Vendas: ingresso.com

DURAÇÃO: 50 minutos

CAPACIDADE: 46 espectadores

GÊNERO: drama

CLASSIFICAÇÃO: 12 anos

CURTA TEMPORADA: até 03 de maio


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